Entre a tranquilidade de Santarém e a energia cosmopolita de Busan, Carolina Ferreira encontrou o seu lugar no mundo – a mais de 10 mil quilómetros de distância. A primeira mulher portuguesa a estudar na Busan University of Foreign Studies (BUFS), trocou o jantar das 20h30 pela rotina coreana e os pampilhos da Bijou pela comida oriental. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, a estudante do 3.º ano do curso de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), revela como uma escolha que “não foi propriamente sua”, se transformou numa “escolha enriquecedora”. 

É a primeira mulher portuguesa a estudar na BUFS. O que sente ao estar a realizar este percurso e a “abrir portas” para outras estudantes portuguesas?

É uma honra enorme ser a primeira mulher portuguesa na BUFS, espero que oportunidades como a que eu tive, de estudar tão longe de casa, num país fora da Europa, com financiamento, sejam alargadas a mais jovens portugueses. Quero também deixar uma mensagem a todas as jovens portuguesas: sempre que a vida vos oferecer a oportunidade de fazer parte de experiências ou projectos enriquecedores, agarrem-na, com certeza que vos vai transformar enquanto pessoas e profissionais. Infelizmente existem muitos estudantes neste mundo fora que não têm acesso a este tipo de oportunidades e espero que no futuro isso mude.

Busan é a segunda maior cidade da Coreia do Sul, conhecida pelas suas paisagens. O que a atraiu nesta universidade e região?

Busan é uma cidade maravilhosa, onde a energia vibrante do urbanismo, à semelhança de Seul, se encontra em perfeita harmonia com a serenidade de um lugar à beira-mar. Não vou mentir e dizer que Busan foi a minha primeira escolha, porque não foi. Antes do formulário de candidatura para o programa Erasmus + International Credit Mobility sair, eu não sabia que universidade na Coreia do Sul seria a escolhida, portanto diria que a escolha não foi propriamente minha. No entanto, agora, fico extremamente feliz que Busan tenha sido a cidade seleccionada, apaixonei-me completamente por tudo nela e levo comigo as pessoas extraordinárias que tive a sorte de conhecer.

Qual foi o maior choque cultural que sentiu desde que chegou à universidade? 

O maior choque cultural que senti foram os horários. Em Busan, a cidade parece despertar mais tarde, é raro ver movimento nas ruas antes das 9h00. Ao mesmo tempo, tudo acontece mais cedo ao longo do dia. O almoço é por volta do meio-dia e o jantar chega por volta das 18h30. Para alguém habituada a almoçar às 13h30 e a jantar pelas 20h30, esta diferença foi, no início, verdadeiramente desconcertante.

Como tem gerido a barreira linguística no seu dia a dia? Já domina o coreano?

O meu coreano situa-se entre o nível 2/3, ainda longe do fluente, o que torna muitas interacções mais exigentes. Ainda assim, desde que cheguei, sinto que evoluí bastante! Na BUFS, existe também um departamento de português, composto por professores brasileiros que ensinam a língua portuguesa a estudantes coreanos. O contacto com estas pessoas tem sido uma ajuda preciosa e, por vezes, traz-me um reconfortante sabor a casa.

Existe uma ideia de que o ensino coreano é bastante rígido e exigente. Como tem sido a experiência nas salas de aula deste país e que principais diferenças nota relativamente ao sistema de ensino português?

O ensino na Coreia revela diferenças interessantes em relação ao ensino português, embora não o considere necessariamente mais rígido ou exigente. As unidades curriculares em que estou inscrita são todas leccionadas em inglês e contam tanto com professores coreanos, como com docentes estrangeiros. Até agora, não senti uma dificuldade acrescida no conteúdo das aulas. No entanto, há um aspecto que se destaca claramente: a duração das mesmas. Enquanto, numa licenciatura na FLUL, a maioria das aulas tem cerca de 01h30, aqui, as aulas podem ter só uma hora ou prolongar-se até às tês horas. É um ritmo mais intenso e, por vezes, bastante cansativo.

Qual tem sido a reacção por parte de colegas coreanos e estrangeiros, ao facto de ser portuguesa?

Tenho me sentido bastante bem recebida, as pessoas são muito simpáticas e querem sempre saber mais sobre Portugal e sobre a nossa cultura. Apercebi-me também que não somos assim tão diferentes da sociedade coreana e que temos bastantes aspectos em comum. Algo que achei superinteressante foi o facto de algumas palavras coreanas derivarem do português, como é o caso da palavra (ppang) que significa pão.

O que é que sente mais falta de Santarém enquanto está na Coreia do Sul?

Santarém é a cidade onde nasci, cresci e para onde volto sempre que não estou na universidade, em Lisboa, por isso, é impossível não sentir saudades da minha terra. Tenho saudades da família, dos amigos e de todos aqueles pequenos grandes confortos que fazem parte de quem sou. Sinto falta dos pampilhos da Bijou, de um bom pastel de nata, de um magusto com bacalhau assado. Tenho muitas saudades da reconfortante comida portuguesa.

Como é que esta experiência num país tão diferente a está a transformar enquanto mulher e futura profissional?

Sinto que me tornei mais independente, mais confiante e, acima de tudo, mais forte. Este tempo ensinou-me também que nenhuma experiência é verdadeiramente individual, partilhamos muito mais do que imaginamos. Somos todos diferentes, mas incrivelmente semelhantes na forma como procuramos viver a nossa vida da melhor maneira possível.

Enquanto futura profissional, sinto que esta vivência me está a tornar mais consciente e capaz, não só na forma como observo e analiso diferentes realidades, mas também na minha capacidade de ser mais objectiva, empática e preparada para os desafios que virão.

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