A Sala das Cavalariças da ESAS – Escola Superior Agrária de Santarém acolheu no dia 20 de março, o 2º Encontro do Ciclo “A Escola Superior Agrária de Santarém e a Confraria convidam…”, alusivo à temática “A Enologia: Feminino versus Masculino”, integrado nas acções da Cidade do Vinho 2024, em Santarém.

Esta iniciativa, organizada pela Confraria Enófila de Nossa Senhora do Tejo e pela ESAS, contou com a participação das enólogas: Vanda Paz Paiva, da Herdade Canal Caveira, Joana Silva Lopes, da Quinta do Casal Branco, Antonina Barbosa, da Falua, e dos enólogos: Rui Reguinga, da Rui Reguinga Enologia, Abel Condesso, da Provam, Pedro Gil, da Adega Cooperativa do Cartaxo. A moderação esteve a cargo de João Paulo Narciso, Diretor do Jornal Correio do Ribatejo.

Perante uma sala entusiasmada e muito participativa, assistiu-se a uma conversa descontraída sobre a arte de fazer os melhores vinhos, combinando a tecnicidade associada à produção dos mesmos, com histórias de vida, experiências pessoais peculiares, partilha de projectos e sonhos ainda por realizar.

Este encontro sobre Enologia que juntou homens e mulheres ligados ao sector, na sua inevitável diversidade, concordaram com a ideia de que a produção de vinhos e a sua qualidade não é determinada pelo género de quem o produz, mas pela entrega e paixão que suscita em cada um.

A enologia, arte e ciência por detrás da produção de vinho, tem sido historicamente associada a uma predominância masculina. No entanto, nas últimas décadas, tem havido uma mudança significativa neste panorama, com um número crescente de mulheres a desempenhar papéis proeminentes na indústria vinícola. Esta mudança levanta a questão: há diferenças entre a abordagem enológica feminina e masculina?

Foi esta a primeira ‘provocação’ lançada ao painel pelo moderador da Tertúlia, João Paulo Narciso. Todos foram unânimes ao reconhecer que a enologia não sofre de ideologia de género.

Cada enólogo traz consigo uma mistura única de experiência, conhecimento e personalidade para as suas criações. A diversidade de perspectivas e estilos na enologia é, sem dúvida, uma das suas maiores riquezas, valorizando a indústria vitivinícola e proporcionando aos consumidores uma variedade de vinhos para apreciar.

Para Joana Silva Lopes, a enologia não se trata de “uma guerra de sexos”. Natural de Lisboa e licenciada em Engª. Agronómica, com mestrado em Viticultura e Enologia, pelo Instituto Superior de Agronomia, Joana é peremptória: “o bom vinho deriva de uma boa equipa”.

Uma ideia secundada por Pedro Gil, Enólogo formado na ESAS: “somos todos técnicos. Nos vinhos, temos de ser mais pragmáticos do que românticos”, defendeu o Enólogo da Adega Cooperativa do Cartaxo, há 29 anos, com centenas de vinhos premiados, em Portugal e no estrangeiro.

Também Verónica Pereira Enóloga formada na ESAS diz não ser capaz de distinguir se um dado vinho foi feito por um homem ou uma mulher: “não consigo distinguir”, atirou.

“Não há nenhuma diferença. O vinho não tem género”, afiançou a Enóloga residente na Falua, Sociedade de Vinhos SA. (Almeirim).

Posição semelhante foi adoptada por Rui Reguinga, Vanda Paiva e Abel Codesso – que é hoje responsável pela vinificação anual de cerca de 1,3 milhões de litros de alvarinho – e que, apesar de não distinguir se houve dedo feminino ou masculino num determinado vinho reconhece que gosta de ter mulheres na sua equipa.

“As mulheres enólogas muitas vezes dão mais atenção aos detalhes”, disse.

Apesar de a enologia ter sido um sector tradicionalmente dominado por homens, a presença crescente de mulheres nesta área está a trazer uma nova dinâmica e uma maior diversidade de abordagens. 

“A verdadeira essência da enologia reside na paixão, dedicação e criatividade de cada enólogo, independentemente do género, e é essa diversidade que torna o mundo do vinho tão fascinante e enriquecedor”, manifestou Rui Reguinga, Enólogo do Ano em 2008 pela Revista de Vinhos.

Nesta conversa informal, os enólogos convidados assumiram que fazem vinho não para si mesmos, mas sim para satisfazer o mercado. Estes profissionais desempenham um papel crucial na produção de vinho, e uma das suas responsabilidades-chave é garantir que o vinho final corresponda às expectativas e preferências dos consumidores. Embora possam ter as suas próprias preferências pessoais e estilos de vinho que apreciam, o seu principal objectivo é criar vinhos que agradem ao paladar do cliente.

“No nosso caso, os consumidores já sabem o que podem esperar da marca e não os podemos defraudar”, defendeu Joana Silva Lopes, apesar de admitir que o enólogo pode ser mais criativo no lançamento de edições especiais.

Para Pedro Gil, que trabalha numa adega com mais de 160 referências, os enólogos trabalham, necessariamente, em estreita colaboração com os produtores de vinho para compreender as preferências do mercado alvo. 

As preferências dos consumidores e as características específicas do terroir para desenvolver vinhos que sejam comercialmente viáveis são as chaves do sucesso.

“O que queremos, actualmente, é atingir um patamar de qualidade muito grande”, afirmou.

“Temos que fazer o vinho que se vende. Sorte do Enólogo que faz o vinho que gosta e que se vende, como é o meu caso”, declarou, por seu turno, a Enóloga residente na Falua, Verónica Pereira, que destacou a existência de uma “vinha única” na casa agrícola onde trabalha.

Para Rui Reguinga, que gere actualmente uma empresa de consultadoria que presta serviço em seis regiões vitivinícolas do Dão, Beira Interior, Estremadura, Tejo, Península de Setúbal e Alentejo, “a dificuldade é trabalhar em 12 projectos distintos e fazer vinhos diferentes para cada um dos produtores”.

“Tentamos perceber qual é o projecto, o que é que se pretende e trabalhar a partir daí”, explicou, reconhecendo que, nos vinhos que assina em nome próprio tem mais liberdade.

Uma ideia semelhante foi transmitida por Vanda Paiva, Enóloga formada na ESAS, escritora e que, em 2013, iniciou um projeto de raiz, na Península de Setúbal: a Herdade Canal Caveira.

“Tentamos fazer os nossos vinhos ao gosto do cliente final. Mas todos os anos fazemos uma coisa diferente, em pequenas quantidades, para testar mercado e sabermos se é ou não viável comercialmente”, revelou.

Em última análise, o sucesso de um vinho muitas vezes depende da capacidade do enólogo de equilibrar as suas próprias sensibilidades e conhecimentos técnicos com as expectativas do mercado, segundo Abel Codesso: “estamos sempre condicionados pelo mercado”.

“Os enólogos podem ter um papel criativo e artístico na produção de vinho, mas a sua principal preocupação é sempre satisfazer o paladar do consumidor, adaptando-se às preferências em constante mudança do mercado”, completou.

No final desta Tertúlia, os convidados foram instados pelo moderador a partilharem os seus projectos futuros: todos foram unânimes ao dizerem que pretendem evoluir e fazer melhor.

“Procuramos sempre fazer melhor. E eu quero fazer o melhor champanhe do mundo (risos)”, declarou Abel Codesso.

Também Vanda Paiva quer “fazer o melhor com aquilo que a vinha nos dá”, revelando que, neste momento, está a desenvolver na quinta um projecto de enoturismo.

“Sinto-me um privilegiado por fazer aquilo que gosto”, afirmou, por sua vez, Rui Reguinga que assume “o desafio” de cada vez ir mais longe. E esse longe, segundo disse, pode bem passar por fazer um vinho na região de champagne (França) onde, curiosamente, em 1990 foi enólogo estagiário.

A Verónica Pereira faltam-lhe fazer ainda “muitos vinhos e uma viagem à Nova Zelândia”. Pedro Gil não descarta viagens mas o seu foco futuro é “fazer mais, melhor e potenciar o que já foi feito”.

Já Joana Silva Lopes, enóloga do ano 2018 na região Tejo e que já realizou vindimas na Austrália, Africa do Sul e Chile, acalenta o desejo de vinificar um Porto e de regressar à Austrália.

Esta sessão contou ainda com um apontamento musical, a cargo do fadista João Chora, acompanhado à guitarra portuguesa por Pedro Amendoeira e terminou com uma prova de vinhos, produzidos pelos enólogos participantes neste Encontro, que explicaram as características e singularidades de cada um dos vinhos, que os cerca de cem participantes do evento tiveram a oportunidade de degustar.

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