Fernanda Borsatti, foi uma artista de largo espetro cénico, comediante nata, atriz dramática e figura pioneira no pequeno ecrã, deixou um legado artístico MEMORÁVEL, que traduz fielmente a transformação do Teatro, do Cinema e da Televisão em Portugal, ao longo de sessenta anos de carreira artística.  A atriz totalizou dezenas de espetáculos e vinculou-se a mais de dez elencos e empresas teatrais, com passagens marcantes pela Companhia Laura Alves, Companhia Raul Solnado, Teatro Maria Matos, Casa da Comédia, Companhia de Teatro da RTP e a Empresa Vasco Morgado.

Fernanda Borsatti nasceu no dia 1 de setembro de 1928, em Évora, o seu pai, José Faustino Ramiro da Fonseca Júnior, era violoncelista, e a mãe, Elvira Borsatti da Fonseca, era natural de Milão, Itália. A atividade musical do pai e a origem italiana da mãe contribuíram para um ambiente familiar ligado à cultura, no qual se formou a sensibilidade artística que mais tarde orientaria toda a sua vida profissional.  O seu percurso artístico teve um dos seus marcos iniciais em 1948, no Teatro-Estúdio do Salitre, ao participar no “Espetáculo essencialista”, um programa constituído pelas peças “Inês, ou O Túmulo Imperfeito”, “Fábula do Ovo”, “Isolda e A Menina e a Maçã”. Esta experiência inseriu-a no movimento renovador promovido pelo Teatro-Estúdio do Salitre, uma instituição fundamental para a renovação das artes cénicas em Portugal no pós-guerra, assinalando o ponto de partida de uma carreira que se estenderia por cerca de sessenta anos.

Em 1951, Fernanda Borsatti assinalou a sua passagem pelo elenco do Teatro Nacional D. Maria II, na produção “Os Novos Patrões”, dividindo o palco com os intérpretes Costa Ferreira, Armando Cortez e Joaquim Rosa. O seu percurso subsequente integrou um vasto conjunto de obras. Teve particular relevo o seu desempenho em “O Milagre” de Ana Sullivan, contracenando com Eunice Muñoz e Guida Maria, a par da sua participação na Revista “Ai Venham Vê-las” no Teatro ABC, onde contracenou com Mariema, no quadro “Gémeas” de grande êxito. No Cinema, mesmo com um ritmo menos intenso do que no Teatro e na Televisão, deixou a sua marca em várias épocas da produção nacional. Estreou-se em 1956 com “Perdeu-se um Marido”, de Henrique Campos, e participou no sucesso “Sangue Toureiro”, de Augusto Fraga. Trabalhou com autores de diferentes quadrantes, incluindo Artur Semedo, José Fonseca e Costa e Jean-Louis Benoît. O seu último filme foi “A Corte do Norte” (2008), de João Botelho (baseado em Agustina Bessa-Luís), no qual interpretou a personagem de “Alice” com 81 anos.

A relação mais perene e institucionalmente significativa da sua trajetória cénica consolidou-se no Teatro Nacional D. Maria II, a cujo corpo de atores fixo pertenceu de 1978 a 2001. Naquele emblemático palco, a atriz integrou os elencos de peças de relevo. A este reportório acrescem peças como “Não Digas Nada”, “Conversas Secretas” e a célebre Revista-Musical “Passa por Mim no Rossio”, com encenação de Filipe La Féria. Esta última produção, levada à cena em 1991 como tributo ao passado e aos vultos daquela instituição, vinculou indissociavelmente o nome de Fernanda Borsatti à identidade e ao imaginário público da mais importante sala de espetáculos nacional.  A sua valiosa dedicação às artes cénicas foi perpetuada com a inclusão do seu nome no Salão Nobre do Teatro  Nacional  D. Maria II, onde figura ao lado de outros grandes vultos da cultura nacional. A par do seu trajeto nos palcos, Fernanda Borsatti integrou o grupo pioneiro de intérpretes responsável por impulsionar a ficção televisiva em Portugal. O seu verdadeiro legado baseia-se na enorme regularidade com que se dedicou ao ofício, testemunhando profundas mudanças políticas, socioculturais e tecnológicas no país, sempre com uma lealdade inabalável ao universo teatral.

A relação entre Teatro, Cinema e Televisão caracterizou toda a sua trajetória: não abandonou o palco quando se tornou popular no pequeno ecrã, nem tratou as participações cinematográficas como simples extensões da celebridade televisiva, mantendo em cada meio uma identidade de atriz de composição e de elenco. À medida que o panorama televisivo em Portugal se reconfigurava, a intérprete moldou o seu registo aos novos formatos de séries, comédias de situação e produções de longa duração, fidelizando sucessivas gerações de espetadores. Do seu portefólio mais célebre constam títulos de relevo, como a novela “Paz dos Anjos” onde desempenhou o papel da “Condessa Olímpia de Alencastre”, onde contracenou, entre muitos com o inesquecível Luís Aleluia, que interpretava “D. Fernando de Alencastre”, o “Fernandinho”. A sua retirada gradual dos ecrãs ficou assinalada em 2009 na obra biográfica “A Vida Privada de Salazar”, onde assumiu a representação histórica da rainha D. Amélia de Orleães

O reconhecimento oficial da sua carreira consolidou-se a 27 de Março de 2007, nas comemorações do Dia Mundial do Teatro, data em que lhe foi outorgada a Medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro, pela autarquia de Lisboa. Fernanda Borsatti faleceu aos 86 anos, no dia 14 de Setembro de 2017. Atriz multifacetada, Fernanda Borsatti distinguiu-se em múltiplas vertentes cénicas, designadamente na Comédia, no Drama e no Teatro de Revista. A sua plasticidade interpretativa, viabilizou a transição entre o repertório clássico, e a dramaturgia contemporânea.

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