O Festival Literário de Alcanena (FALA), que começa hoje, coloca o minderico no centro da programação, numa aposta da autarquia para valorizar e divulgar esta língua ameaçada junto das gerações mais novas.
“Este ano, nesta edição do FALA, damos enfoque ao minderico, uma língua de Minde ameaçada de extinção”, afirmou à Lusa o vereador da Cultura da Câmara de Alcanena, Gabriel Feitor, destacando que o programa integra a apresentação de “O Principezinho” em minderico, uma oficina dedicada a esta variante linguística e um debate sobre o minderico e o mirandês.
O primeiro momento dedicado ao património linguístico local acontece hoje com a apresentação de “O Terraizinho Penostra”, versão em minderico da obra “O Principezinho”, de Antoine de Saint-Exupéry, numa sessão dirigida também ao público escolar, “de forma a dar também uma preservação deste nosso património junto das comunidades escolares e das gerações mais novas”, justificou o autarca.
Na sexta-feira, realiza-se um ‘workshop’ de introdução ao minderico orientado por Maria Alzira Roque Gameiro, investigadora que há vários anos se dedica ao estudo desta língua, seguindo-se, no sábado, um debate sobre “falas do território”, que colocará em diálogo o minderico e o mirandês.
Segundo Gabriel Feitor, a iniciativa pretende dar a conhecer uma língua que nasceu em Minde e que constitui um dos principais elementos identitários da comunidade local e que hoje tem poucos falantes.
“É necessário que esta língua, que este património, possa ir para fora de portas e que possa marcar o património e aquilo que é a identidade de uma comunidade”, afirmou.
O vereador reconheceu que o número de falantes diminuiu significativamente nas últimas décadas, mas defendeu a continuação dos esforços de divulgação e revitalização.
“É verdade que hoje já poucos o falam recorrentemente, mas ainda perdura nas gerações mais velhas de Minde”, declarou.
Associado inicialmente aos comerciantes e fabricantes das tradicionais mantas de Minde, o minderico surgiu como uma forma de comunicação usada entre profissionais da vila, evoluindo posteriormente para uma língua com características próprias.
“Era também uma forma de defesa dos comerciantes, que era a atividade principal dos homens de Minde”, explicou.
Os primeiros registos do minderico remontam ao século XVII, tendo surgido entre comerciantes e fabricantes locais como uma forma de comunicação reservada aos membros da comunidade.
Com o passar do tempo, o que começou por ser um socioleto (dialeto social) profissional desenvolveu vocabulário e estruturas próprias, evoluindo para uma língua autónoma.
Entre as expressões características do minderico encontram-se palavras como “atriar” (entrar), “terruja” (terra) ou “didi” (dinheiro), exemplos de um património linguístico que permanece praticamente incompreensível para quem não pertence à comunidade falante.
O autarca salientou o trabalho desenvolvido desde 2009 por investigadores ligados ao Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), que contribuiu para documentar e divulgar o minderico, bem como para aproximar novas gerações deste património imaterial.
“Estamos neste momento a querer retomar este trabalho e as iniciativas do FALA são prova disso”, afirmou.
Esse trabalho permitiu a documentação sistemática do minderico, a criação de programas de ensino nas escolas, a elaboração do primeiro dicionário bilingue minderico-português e o desenvolvimento de recursos digitais destinados à preservação da língua.
O município apoia ainda iniciativas de divulgação promovidas pela Casa do Povo de Minde e está a preparar, em articulação com o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (CAORG), novas ações dirigidas ao contexto escolar.
O minderico foi reconhecido internacionalmente em 2011 como uma língua autónoma e viva e, quatro anos mais tarde, a documentação produzida por investigadores portugueses integrou o Registo da Memória do Mundo da UNESCO.
Nessa altura, os estudos apontavam para cerca de 250 falantes ativos e mil falantes passivos, números que entretanto diminuíram.
Falado sobretudo em Minde, no concelho de Alcanena, o minderico é atualmente considerado uma língua ameaçada, sendo alvo de iniciativas de preservação e revitalização por parte de investigadores, associações locais e entidades culturais.
O FALA decorre até domingo em vários espaços de Alcanena, reunindo escritores, músicos, jornalistas e agentes culturais, numa edição que associa literatura, identidade local e participação comunitária.
