Foto: Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio Carregueirense Vitória (SFIRCV)

Na Chamusca, a música resiste mesmo quando lhe fecham a casa. Seis anos após a única filarmónica do concelho ter sido empurrada para salas improvisadas, Maria Eduarda Caetano tenta conduzir o regresso a um edifício que já não aguenta remendos.

Entre músicos que vêm de palcos nacionais para tocar por puro afeto e crianças que atravessam a aldeia da Carregueira para aprender música, a presidente da Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio Carregueirense Vitória (SFIRCV) procura juntar os 150 mil euros que faltam para que a banda volte a ter um espaço digno para trabalhar e crescer.

Quando assumiu a direção, há dois anos, encontrou uma equipa plena de vitalidade, mas uma sede à beira da rutura.

“As instalações já se vinham a deteriorar há algum tempo. Por muita manutenção que se faça, chega uma altura em que são precisas obras de fundo”, explica à agência Lusa, referindo telhados, paredes antigas e fragilidades acumuladas ao longo de décadas. Foi essa degradação que obrigou, há mais de seis anos, ao encerramento do edifício.

Desde então, a banda principal ensaia numa antiga sala de aulas no Arrepiado, um espaço demasiado pequeno e acusticamente inadequado para um grupo que reúne cerca de 30 músicos.

“Costumo dizer que graças a Deus alguns trabalham por turnos, porque se fossem todos aos ensaios ao mesmo tempo nem cabíamos na sala”, comenta Maria Eduarda.

O orçamento inicial para requalificar a sede, rondava os 310 mil euros, dos quais a Câmara Municipal se comprometeu com 200 mil e a Junta de Freguesia com 30 mil, ainda em promessa verbal.

O restante (uma diferença de cerca de 80 mil euros) já era “assustador” para uma associação sem fins lucrativos, mas o cenário agravou‑se quando, durante a remodelação, se concluiu que o edifício, apesar de ampliado com novas salas de aula, não tinha condições acústicas aceitáveis. O necessário isolamento sonoro acrescentou 70 mil euros, elevando para 150 mil euros a verba a suportar pela banda.

“É um grande encargo para qualquer filarmónica, quanto mais para uma aldeia de 1.200 habitantes”, sublinha a presidente.

Para fazer face às despesas, a SFIRCV lançou a campanha “Voltar a Casa”, procurando donativos que permitam completar a obra. O problema, reconhece, não é a boa vontade, mas “chegar às pessoas certas” e sensibilizá‑las para o valor cultural da banda.

Os constrangimentos logísticos atingem em cheio a formação musical. Atualmente, a escola de música funciona em três locais distintos da Carregueira, obrigando alunos e pais a deslocações constantes. Há crianças que têm formação teórica num edifício, aula de instrumento noutro e ensaio da banda juvenil no Arrepiado.

“É muito complicado para os pais. A nossa sede é o ponto central: deixam os filhos e sabem que eles estão ali”, explica a dirigente.

Hoje, esse centro não existe. Mesmo assim, a escola mantém 28 alunos, número que Maria Eduarda considera “muito bom”, tendo em conta o contexto: “Alguma coisa bem feita estamos a fazer, para conseguirmos isto dentro de tantas limitações.”

O ambiente, acredita, é a chave para manter os jovens motivados. Mas falta espaço, falta conforto, faltam condições condignas que ajudem a fixar e atrair novos aprendizes.

Quando as obras terminarem, espera que os pais deixem de fazer “piscinas de um lado para o outro” e que o número de alunos volte a crescer. O regresso à sede é mais do que uma necessidade funcional – é “uma questão de identidade”.

Atualmente, a banda reúne cerca de 40 músicos e mantém uma relação de continuidade invulgar. Muitos dos que iniciaram ali os estudos seguiram carreiras profissionais na música – são militares, maestros, instrumentistas de orquestras -, mas continuam ligados à Carregueira.

Alguns já regressaram como regentes convidados; outros aparecem sempre que é preciso, mesmo quando a sua agenda os leva a palcos muito distintos dos da aldeia. É o caso de um músico que trabalha com orquestras na zona de Lisboa e já pisou palcos como o São Carlos.

“Não tinha necessidade nenhuma de vir tocar connosco, mas vem sempre que pode”, diz Maria Eduarda, com orgulho, lembrando também outro músico da banda da Marinha que acompanha artistas populares e que, no dia seguinte a um concerto exigente, está de manhã na Carregueira para uma atuação local.

Entre os atuais alunos, dois já se encontram em escolas profissionais de música: uma jovem flautista na Covilhã e um trompetista em Aveiro.

A atividade da banda acompanha o calendário da região. O verão é a estação mais intensa, marcada por festas populares, atuações ao ar livre e concertos temáticos. Ao longo do ano, a banda participa em eventos municipais, no cineteatro da Chamusca e nas comemorações habituais, incluindo os concertos de Natal. Em média, realiza três atividades por mês, embora o número varie conforme as épocas.

Depois de dois anos de mandato, Maria Eduarda prepara-se para iniciar um novo ciclo. Reeleita em dezembro, sabe qual é a prioridade: concluir as obras.

“A sede tem que estar pronta”, diz, convicta, mesmo reconhecendo que o mais difícil não será apenas acabar a construção, mas garantir a sustentabilidade futura do edifício e de toda a estrutura associativa.

“Um instrumento são centenas ou milhares de euros”, lembra. Somam‑se palhetas, óleos, acessórios, consumíveis e a manutenção de 50 ou 60 instrumentos, entre alunos e banda principal. O desafio financeiro permanecerá “para quem vier a seguir”.

Ainda assim, a dirigente não desanima. Sabe que a força da banda está nas pessoas, nos 40 músicos que “estão ali de alma e coração” e na comunidade, que tem apoiado como pode, através de pequenos donativos, t-shirts, incentivos e presença.

A presidente pede que, para lá das fronteiras da aldeia, se olhe para uma filarmónica com 96 anos de história, que forma jovens, acolhe os mais velhos e mantém viva uma identidade que não se explica apenas com música.

“Precisamos de ajuda para regressar a casa”, resume. Afinal, na Carregueira, a banda é mais do que um conjunto de músicos: é uma instituição que continua a cumprir um papel central na vida da comunidade.

Texto: Lusa 

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