Seja a correr pelas ruas da cidade com a t-shirt amarela dos Scalabis Night Runners, a fazer rir o público num palco de forma improvisada ou a lutar pela honra do Vitória Clube de Santarém, Nuno Fradique é um homem dos sete ofícios. Recém-chegado do Europeu de Jiu-Jitsu com a medalha de bronze ao peito, o atleta e ator faz o balanço de um percurso pautado pelo dinamismo e onde o lema ‘Correr, Comer e Beber’, convive harmoniosamente com a disciplina da alta competição e dos palcos. 

Nuno Fradique conquistou a medalha de bronze no Campeonato Europeu de Jiu-Jitsu 2026, que se realizou no Pavilhão Multiusos de Odivelas, na categoria “Azul, Leve, Master”, no final do mês de Janeiro. Uma competição que serviu de experiência e aprendizagem para o atleta. 

“Foi um processo fantástico. Quando estás lá em cima sentes que valeu a pena os treinos, os treinos com colegas e os treinos que fazes extra”, descreve Nuno Fradique. 

O contacto com a modalidade surgiu em 2022, tendo iniciado o seu percurso na modalidade como faixa branca sendo actualmente faixa azul.

“Eu sempre gostei de desportos de contacto. Já tinha praticado rugby e depois polo aquático. Entretanto houve esta oportunidade do jiu-jitsu, porque tinha amigos que praticavam no ginásio onde eu andava e eles já me tinham desafiado algumas vezes para ir fazer um treino”, conta. 

Após vários treinos, Nuno Fradique foi “ganhando o bichinho” da modalidade tendo conquistado, para além 3.º lugar no Campeonato Europeu, também o 3.º lugar no Campeonato Português de Jiu-Jitsu em 2023. Com as medalhas, veio a vontade de fazer mais e melhor. Os treinos intensificaram-se e tornaram-se mais exigentes. Surgiu a vontade de participar em mais competições e a ambição foi crescendo dentro da modalidade. 

“Espero continuar no jiu-jitsu até conseguir chegar à faixa preta. É esse o objectivo. Depois estas competições vão surgindo e são um desafio”, refere o atleta. 

Pertencente aos quadros do Vitória Clube de Santarém, Nuno Fradique faz um balanço da modalidade na cidade. 

“Houve um grande boom do jiu-jitsu. O Europeu teve um recorde de inscrições que esgotaram. O jiu-jitsu está talvez na moda. As pessoas começaram a descobrir a modalidade aos poucos e a praticá-la um pouco por todo o país, porque se começou a ver os benefícios que o jiu-jitsu tem, enquanto desporto e filosofia que se pode transportar para o dia a dia”, afirma. 

Com as recentes tempestades que assolaram a região, as instalações desportivas do clube onde Nuno treina ficaram danificadas. 

“Neste momento, numa parte dos tatamis, estamos a fazer jiu-jitsu aquático. Porque com estas últimas chuvas tivemos infiltrações e neste momento temos a sala a meio gás. Houve alguns treinos que não pudemos fazer”, revela. 

“Tenho várias famílias”

Para além do jiu-jitsu, o desporto continua presente na vida de Nuno Fradique através de outras modalidades como a corrida, outra “das suas famílias”. 

“Comecei a correr um pouco mais a sério em 2009. Comecei a participar em provas, a querer fazer mais corridas e a perceber melhor o que era isto de correr”, relembra. 

Essa descoberta levou-o a ser um dos fundadores do Scalabis Night Runners, uma associação composta inicialmente por um grupo de amigos que corriam à noite, ao final dos dias de trabalho, e que actualmente organizam um dos eventos desportivos mais relevantes da região e do próprio país. 

“Acho que esta prova é um cartão de visita de Santarém. As pessoas conhecem a cidade e o espírito scalabis night runner. Apostamos muito em receber bem as pessoas, com a nossa bifana, o nosso pampilho. Temos os ranchos folclóricos e os campinos por todo o percurso. É uma corrida e é uma festa”, evidencia.

A presente edição da Scalabis Night Race 2026 irá decorrer no dia 18 de Abril e as inscrições já se encontram abertas. 

“Numa semana já vamos nos 1000 inscritos. O que quer dizer que as inscrições estão a voar rapidamente e vão esgotar em breve, se continuarmos com esta velocidade”, adianta. 

Apesar das grandes proporções que a prova tomou, a tradição do grupo de reunir-se às quartas-feiras para “correr, comer e beber”, mantém-se. 

“A quarta-feira é o dia sagrado da corrida. Às 21h00, na sede dos Scalabis Night Runners, partimos a correr pela cidade de Santarém com a nossa t-shirt amarela. O nosso lema é ‘Correr, Comer e Beber,’ e levamos isso muito a sério. Acho que o que se leva daqui são os amigos. Tenho grandes amigos agora que não os conheceria se não fosse com a corrida”, salienta. 

“Sempre percebi que gostava das artes cénicas e performativas”

Apesar das múltiplas paixões ligadas ao universo desportivo, foi na representação que Nuno Fradique encontrou o seu rumo profissional. 

“Eu sempre percebi que gostava das artes cénicas e performativas. E depois as coisas vão acontecendo. Tu tens isso dentro de ti e acaba por começar a mostrar-se na escola e começas a ser desafiado para fazer coisas”, reconhece.

O seu percurso começou a nível amador, com pequenos happenings (performances espontâneas de teatro, artes visuais ou música) em bares, por intermédio de várias de Associações Culturais de Santarém.

“Tínhamos o “ContrÁCultura”, em que fazíamos pequenas intervenções em bares, pequenos sketches humorísticos e chegámos a ter um programa numa rádio local, que era o Guia do Cidadão Exemplar, que dava aos domingos e era em directo. Era uma maluqueira!”, confidencia. 

A “brincadeira” e a experimentação deram lugar a projectos mais sérios em vertentes desde o teatro, a séries humorísticas como o ‘Pionés, um prego ridículo’, curtas-metragens, a participações pontuais em novelas, locução e dobragens de desenhos animados, sempre com a comédia e o improviso em grande plano. 

“A maior parte do tempo estou ligado à comédia. Como actor trabalho muito em comédia, embora goste de ser versátil e ir fazendo um bocadinho de cada coisa”, aponta.

O gosto em fazer os outros rir, levou Nuno Fradique a ser um dos fundadores da companhia ‘Instantâneos’ dedicada ao teatro de improviso e que celebrou recentemente 15 anos. 

“Não havia muita divulgação sobre esta técnica do improviso. Nós na altura fizemos um workshop, chamámos um professor que nos veio dar as bases desta técnica”, relembra. 

Com as bases da técnica aprendidas e estudadas, o grupo de actores da companhia foi sempre procurando aperfeiçoar cada vez mais o seu teatro de improviso, seja através de formações, ou através da vinda de nomes internacionais a Portugal, o que levou à criação do ‘Espontâneo’ (Festival Internacional de Teatro de Improviso). Um festival que pretende mostrar que o improviso não é só comédia.

“Existem outros espectáculos de improviso que são diferentes e nós queremos mostrar isso”, vinca. 

Para além da comédia, Nuno Fradique criou também espectáculos para o público infanto-juvenil, que eram estreados na Expo Criança no Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA), por intermédio da Triarte, composta por si, por Carlos Oliveira (Chona) e Paulo Patrício. 

“Além de bons amigos entendíamo-nos muito bem em palco, aprendi muito com os dois”, evoca. 

Actualmente, o actor é agenciado pela ‘Buzico!’ que lhe tem aberto “algumas portas” no mundo da representação.

“Sempre que há uma oportunidade que tenha a ver com as minhas características a Buzico! apresenta-me. Além de te aconselhar se deves ir mais para aqui ou para ali ou sobre formações que por vezes nos passam despercebidas”, declara.

O desporto e a cultura como áreas complementares

Com vários interesses e focos de actividade nas áreas do desporto e da cultura, é comum interrogarem Nuno Fradique sobre como consegue conciliar estas duas vertentes, à partida distintas. 

“Um actor tem de cuidar da voz e do corpo e uma das maneiras de cuidar do corpo é fazer desporto. Está tudo interligado”, defende.

Para além dos benefícios físicos, também a nível psicológico existem benefícios comuns às duas vertentes. 

“Uma das coisas que tanto aprendes no jiu-jitsu, como também no mundo da representação é o conseguires controlar a ansiedade e relaxar. Estares num clima de grande tensão, como uma luta ou um espectáculo, e conseguires estar ali presente no momento e fazeres o teu melhor”, explica.

Questionado sobre como gostaria de ser lembrado no futuro, Nuno Fradique responde que espera sempre vir a conseguir evoluir, destacando-se cada vez mais no desporto e na cultura. 

“Gostava de ser lembrado como um scalabitano do desporto e do teatro”, conclui. 

Ricardo Santos Pereira

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