A apresentação do mais recente livro da autoria de António Rocha Pinto, “Naquele tempo”, decorreu na tarde do passado sábado, dia 9, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, em Santarém. A obra retrata Portugal entre os anos 1959 e 1975. 

“Quando se lê bastante acabamos por construir também as nossas histórias, vemos como conseguiríamos “historiezar” a nossa realidade, os nossos sonhos, ou a nossa vontade”, afirma.

Depois de em 2021 ter lançado o romance “Improvável”, editou agora “Naquele Tempo”. Que tempo é esse que retrata no seu segundo livro?

O livro tenta retratar um tempo em que a realidade foi mudando, de transição, no mundo, mas em particular no nosso país. O livro pinta um retrato, pelo menos assim espero, do país na passagem do tempo entre 1959 e 1975.

Existem traços comuns nas duas obras? Quais?

Bem, o principal é terem o mesmo autor (risos), o segundo é que cada “escrevedor”, como no título de Mário Vargas Llosa, tem o seu ritmo de escrita, a sua métrica, o seu “estilo” digamos. Depois o espaço, ambos se passam em Portugal e nas antigas colónias e finalmente o tempo que é em parte coincidente. 

E razões para publicar esta obra no nosso tempo?

A origem, o pecado original, foi a canção do Aznavour, La Bohème, o poema diz que quem tem menos de vinte anos não pode conhecer a realidade que ele conheceu e pensei que os de menos de 50, 60 anos, também não conheceram a nossa realidade, a que antecedeu o nosso equador e o tempo imediatamente posterior. 

Como é o seu processo criativo?

Muito variado, começa com uma pequena epifania, neste caso foi a música do Aznavour, e depois vai-se construindo, em locais e tempos diversos. E lentamente as peças vão-se encaixando, como num puzzle. As ideias aparecem na maioria das vezes sem pré-aviso, tenho sempre um pequeno caderno comigo para esses momentos que não conhecem dia ou hora. 

Nesta obra envolve-nos nas vivências dos portugueses do século XX num Portugal Ultramarino que gosta de caracterizar. Que vivências foram essas?

Muitas e variadas, não minhas, mas o escritor também é um fingidor. Nós eramos muitos “portugais”. As colónias eram muito mais liberais, desde os costumes à arquitectura, os diversos estratos da sociedade também tinham formas de vida muito diferenciadas. O país, o continente, “a metrópole” era pobre, ou muitos dos seus habitantes eram. A imigração era uma realidade, nos mais pobres para tentarem uma vida melhor, em alguma elite para fugir à guerra.

Dedica o seu novo livro a seus pais. Foi com eles que descobriu a paixão pela escrita?

Devo aos meus pais muito ou quase tudo o que sou. Da genética a que não podemos fugir, à educação. Uma constante eram os livros, não a escrita, mas a leitura. Sempre me foi concedido um grande “crédito” para a compra de livros, sobre tudo, da banda desenhada, aos romances passando pelos romances históricos e, claro, os clássicos. A minha mãe era uma leitora compulsiva, quando pegava num livro e eu herdei essa característica dela. O meu pai tinha lido todos os clássicos, era um homem muto calado, mas foi-me passando esse conhecimento em pequenos “capítulos”, às refeições, aos serões em doses homeopáticas que me aguçaram o apetite. A escrita é uma consequência da leitura. Quando se lê bastante acabamos por construir também as nossas histórias, vemos como conseguiríamos “historiezar” a nossa realidade, os nossos sonhos, ou a nossa vontade.

Que leitura faz do Mundo e de Portugal do nosso tempo?

Há uma maldição chinesa, “que vivas tempos interessantes”, penso que estamos a viver esses tempos. A vida, a economia, desenrola-se em ciclos sinusoidais, traduzo, em ciclos de subida a que se seguem outros de descida. Neste momento estamos num tramo descendente. Ataca-se o conhecimento, inventam-se teorias, criam-se “narrativas”. Tentam espartilhar a linguagem, formatar as pessoas. Chamam-lhe “cancelamento”, mas é censura. Guerras em curso, cujo fim não se antevê. Uma crise habitacional, um maior distanciamento entre o cidadão comum e as autoproclamadas elites. O ataque à religião, ou às religiões, quando o Homem é um ser religioso. Desinformação nos meios formais de comunicação. Vejo sobretudo muita desorientação.

Tem outros projectos em carteira que gostaria de dar à estampa?

Tenho, um que está a nascer e outros dois que estão há anos em stand by, um livro de contos para crianças e uma peça de teatro. 

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