Hóquei Clube ‘Os Tigres’ regressa à primeira divisão nacional com os olhos postos na manutenção

O HC “Os Tigres” está de regresso à primeira divisão nacional de Hóquei em Patins e tem como grande objectivo a manutenção. Recheada de jovens a equipa quer enfrentar o Campeonato e a Taça de Portugal com a mente sempre na vitória. O clube almeirinense passa por uma situação de estabilidade financeira e desportiva e quer com a visibilidade de estar entre os grandes trazer os jovens da cidade para a modalidade. O Correio do Ribatejo foi ao encontro do treinador André Luís e do presidente do clube, José Salvador, que do ponto de vista desportivo e financeiro fizeram a este jornal o ponto da situação de mais uma época, agora na 1.ª Divisão.

André Luís, treinador da equipa sénior do HC ‘Os Tigres’

“O objectivo primordial é a manutenção”

Vai para a segunda época como treinador principal e já está na primeira divisão. Este é o maior desafio da sua vida na modalidade?
Posso dizer que sim, é provavelmente o maior desafio da minha vida na modalidade. Até à época passada nunca tinha saído da “zona de conforto” que tinha construído em Turquel e decidi arriscar ao assumir um projecto como o de ‘Os Tigres de Almeirim‘, que tem sido um desafio constante todos os dias. Subimos de divisão e agora estamos no convívio dos grandes, no melhor campeonato do mundo, pelo que teremos de desfrutar, sempre com muita responsabilidade.

A equipa é recheada de jovens mas também de jogadores experientes. O que é que o HC “Os Tigres” pode fazer na primeira divisão e quais são os objectivos traçados para esta época?
Há muita juventude no nosso plantel, pois temos cinco jogadores na casa dos 19 e 20 anos, três jogadores com menos de 25 anos, um com 26 e só dois com 30, ou mais anos. Em Valongo estreámos nove jogadores na primeira divisão e apesar de todos os atletas do nosso plantel já terem alguma experiência em níveis competitivos elevados, a falta de vivências na primeira divisão pesa sempre um pouco. De qualquer modo nunca nos escudaremos com isso e realçaremos sempre a irreverência e a vontade de querermos lutar diante dos melhores, tendo sempre em mente a vitória em todos os jogos. O objectivo primordial é a manutenção, sendo que também queremos fazer uma boa campanha na Taça de Portugal. A equipa está preparada e o plantel tem qualidade para alcançar as duas metas traçadas.

Como é que avalia a pré-época?
No que diz respeito ao empenho e entrega dos jogadores nós, equipa técnica, não temos nada a apontar-lhes, foram inexcedíveis em todos os momentos e mostraram empenho e muita vontade de pôr em prática todos os conteúdos que lhes fomos passando. A nível pré-competitivo conseguimos bons desempenhos nos 14 jogos realizados em seis semanas e os jogadores passaram a acreditar mais neles próprios, percebendo que se podem “bater” com qualquer adversário do nível que vamos encontrar. Negativamente realçamos o facto de termos andado com a “casa às costas” durante duas semanas e meia, treinando em outros pavilhões que não o nosso, devido às obras de requalificação no Pavilhão Alfredo Bento Calado, em Almeirim, perdendo naturalmente alguma qualidade no treino, numa fase decisiva da nossa época. Felizmente essa situação já pertence ao passado e tentamos agora recuperar algum do tempo perdido.

Houve vários reforços no plantel esta época mas manteve algumas das peças fulcrais da temporada passada. É essencial ter jogadores que conheçam o clube?
É muito importante ter jogadores que conheçam o clube e que vão passando aos novos jogadores as vivências e a filosofia do clube. Cá dentro temos algumas regras e alguns princípios, dentro e fora do ringue, que devem ser cumpridos. O facto de termos atletas conhecedores daquilo que o clube pretende e também daquilo que a equipa técnica quer que se faça na quadra, é fundamental para ambientar, integrar e valorizar os atletas que chegam ao nosso convívio pela primeira vez.

Há 30 estrangeiros a actuarem em Portugal na primeira divisão, num universo de cerca de 150 atletas, mais coisa menos coisa. Ou seja, 20 por cento dos atletas são estrangeiros e não está em causa a sua qualidade (que é muita!), mas denota-se um “desinvestimento” no recrutamento do jovem jogador português, que por sua vez também acaba por ser um atleta “caro”

Como vê o campeonato português da primeira divisão de Hóquei em Patins?
Penso que a primeira divisão em Portugal tem qualidade individual acima da média nos plantéis das melhores equipas, e o profissionalismo de uns contrasta com o amadorismo de outros dentro do mesmo campeonato. Isso leva a diferenças avassaladoras no nível, nos métodos e condições de trabalho, só diminuídas pela qualidade das estruturas de algumas equipas ditas mais pequenas e também pela qualidade de trabalho dos treinadores dessas mesmas equipas. Para além disso, os clubes com maior poderio financeiro têm uma visão estratégica de curto prazo que assusta. Há 30 estrangeiros a actuarem em Portugal na primeira divisão, num universo de cerca de 150 atletas, mais coisa menos coisa. Ou seja, 20 por cento dos atletas são estrangeiros e não está em causa a sua qualidade (que é muita!), mas denota-se um “desinvestimento” no recrutamento do jovem jogador português, que por sua vez também acaba por ser um atleta “caro”. A bola de neve do investimento no jogador estrangeiro de qualidade acaba por alastrar para os clubes ditos mais pequenos, que vão ficando com as “sobras” dos grandes, mas muitas vezes essas “sobras” também são jogadores não oriundos do nosso país. Não quero ser mal interpretado, e espero sinceramente estar a fazer um juízo de valor errado, mas penso que Portugal em termos de Selecções ou da qualidade do seu campeonato a médio e longo prazo vai ressentir-se.

Quem para si pode vencer a competição?
Há quatro crónicos candidatos que são Porto, Sporting, Oliveirense e Benfica e o vencedor estará num desses quatro nomes. Depois do Porto ter sido campeão em 2018/2019, colocaria os azuis e brancos na linha da frente para renovarem o título, até porque sou grande apreciador do hóquei praticado. No entanto, as saídas de Hélder Nunes, Telmo Pinto, Nelson Filipe e Carles Grau colocam alguns pontos de interrogação no rendimento da equipa, dada a “renovação” e a entrada de muita gente nova. O Sporting parece manter a estrutura e reforçou-se a contento, pelo que penso que poderá ser o maior favorito a destronar o Porto. A Oliveirense parece estar a ter um início difícil, com resultados intermitentes nas competições já disputadas, mas tem um plantel assombroso, com grandes nomes do hóquei mundial e está também bem posicionada. O Benfica parece-me estar em renovação e a assimilar as ideias do Alejandro Dominguez que chegou a meio da época passada e acho que também poderá ter uma palavra a dizer, mas, dadas as circunstâncias e o enquadramento referido em cima, penso que o maior favorito será o Sporting.

Até onde pode chegar o HC “Os Tigres”?
O HC “Os Tigres” vai fazer o seu caminho, sendo que com adversários do “seu campeonato” não poderá desperdiçar muitos pontos em casa e terá de tentar conseguir ser competitivo o suficiente para poder ir buscar o máximo de pontos possíveis fora de portas. Será um campeonato bastante duro, com equipas muito equilibradas e com a segunda metade da tabela classificativa a lutar para não ficar numa das três últimas posições. Lutaremos pela manutenção e penso que podemos chegar ao décimo lugar, mas o objectivo, tal como já referi anteriormente, é ficar pelo menos na décima primeira posição, o que nos garantiria a manutenção no principal escalão do Hóquei em Patins português em 2020/2021.


José Salvador, presidente da Comissão de Gestão do HC ‘Os Tigres’

“Nunca vimos a subida de divisão como uma obsessão, mas sim como o corolário do trabalho desenvolvido”

Depois de cumprir um mandato como presidente da Direcção do HC “Os Tigres”, como é que avalia o trabalho feito até hoje?
Ao longo deste trajecto de quase quatro anos, a avaliação do nosso trabalho deverá ser sempre feita pelos sócios. Todavia, sabemos bem tudo o que foi feito, com muita coisa boa, outras menos bem, mas acima de tudo com um enorme sentido de dever cumprido.

Nesse período foi efectuada uma estabilização financeira e desportiva do clube que resultou na subida à primeira divisão. Qual é o caminho a seguir a partir daqui?
Era esse o nosso projecto inicial, sanear financeiramente o Clube ao longo do mandato e no seu terminus tentar subir de divisão. Fomos felizes, com mérito na subida, mas acima de tudo, o caminho deverá ser sempre no sentido de assegurar a sustentabilidade financeira do clube. Credebilizar uma imagem é algo que demora muitos anos. A aposta terá que passar pela formação para que possa ter sempre referências da terra na sua equipa sénior. O sucesso torna-se mais fácil quando se está bem financeiramente.

Nas últimas eleições não houve listas a concorrer à direcção do clube, estando neste momento em vigor uma comissão de gestão à qual preside. Como é que se gere um clube da dimensão do HC “Os Tigres” numa situação destas?
Não é claramente a situação ideal, mas é a possível. Seria preferível que surgisse alguém com intenção de continuar o trabalho desenvolvido e que pudesse elevar este legado. Mas nessa ausência teremos que ir gerindo o Clube, normalmente, sem loucuras.

Uma equipa na primeira divisão acarreta mais gastos. Que apoios tem o HC “Os Tigres” para enfrentar a época?
Nunca vimos a subida de divisão como uma obsessão, mas sim como o corolário do trabalho desenvolvido. Chegados ao patamar máximo do hóquei patinado, sabiamos que a fasquia ficaria muito alta. Os custos disparam exponencialmente este ano e sem um maior apoio do Concelho e mesmo do Distrito, torna-se muito difícil. Sabemos que somos provavelmente o orçamento mais baixo da 1.ª Divisão mas, mesmo assim, com custos mais elevados este ano. Deste modo temos procurado outras fontes de receita, para um projecto que não deve ser só nosso, mas sim de toda uma região, até pela visibilidade e notoriedade que traz ao Ribatejo.

Sendo o desporto de pavilhão da cidade com mais adeptos, espera ter mais gente nas bancadas esta temporada devido à presença entre os grandes da modalidade?
Tal como lhe disse anteriormente, temos previsto um conjunto de actividades para dotar o Pavilhão Alfredo Bento Calado de mais assistência em todos os jogos. Por exemplo, vamos lançar o cartão de época para sócios e igualmente para empresas, com condições priveligiadas para toda a época até porque precisamos da ajuda de todos.

Neste momento estamos inseridos num processo de gestão administrativa e esperando que possam aparecer em futuras assembleias novas direcções com vontade de assumir os destinos do Clube, com o seu projecto definido.

A formação de atletas é também uma vertente do clube mas os jovens de Almeirim olham de lado para este desporto. Que trabalho faz a direcção para contrariar esta tendência?
Não concordamos com essa afirmação. Poderemos não ter a mesma visibilidade que o futebol, por exemplo, mas a gente nova de Almeirim também gosta e pratica Hóquei em Patins. Agora, sabemos que somos um desporto com uma grande especificidade, pois não pode ser praticado em qualquer lado e com custos de material bastante elevados comparativamente a outros. Ora, aproveitando o facto de sermos, ao nível das selecções nacionais, Campeões do Mundo, de irmos ter em Almeirim os melhores jogadores do Mundo, com transmissões televisivas em alguns jogos, teremos de aproveitar esta involvência para implementar mais acções de captação de jovens para a modalidade, mesmo sabendo que se torna dificil.

A renovação do piso do pavilhão pode ser um chamariz para atrair atletas?
Mais do que um chamariz era uma necessidade antiga e um sonho tornado realidade. Com melhores condições para trabalhar continuaremos a evoluir mais ainda.

Quais os objectivos da direcção para o futuro?
Neste momento estamos inseridos num processo de gestão administrativa e esperando que possam aparecer em futuras assembleias novas direcções com vontade de assumir os destinos do Clube, com o seu projecto definido. Por isso, para nós, esta fase será de manter o clube com uma gestão administrativa equilibrada e seguindo o trabalho anteriormente delineado. Relembro apenas um dos projectos que ainda não foi possível concretizar e que se traduz na existência de uma sede própria para o Clube.
Por fim, não poderia deixar de aproveitar a oportunidade, para antes de mais agradecer ao Correio do Ribatejo e pedir às gentes da Região que gostam de Hóquei em Patins que nos venham apoiar nos nossos jogos.

DANIEL CEPA

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