“Serei folclorista até à hora da minha morte.” A frase é de João Gomes Moreira, notável Colaborador deste Jornal desde a década de 50 do século XX. E a fria hora chegou, a 7 de Dezembro de 2017, pondo termo a uma relação estreita com os nossos leitores que viam nele um bom contador de histórias, um “plantador de sonhos e guardador de memórias”, na visão do jornalista António Valdemar.

O ‘Correio do Ribatejo’ dedica a presente edição a este seu generoso Colaborador, figura eternizada na nossa Galeria de Notáveis, mas, mais ainda, nas nossas páginas, desde o ano de 1950, pelos eloquentes artigos que relatam acontecimentos, contam a história de instituições da cidade e das inúmeras viagens deste ‘Cidadão do Mundo’. “João Moreira gostava muito de escrever, e fazia-o na perfeição, pelo que desde 1950 começou a colaborar em jornais e revistas, designadamente no ‘Correio do Ribatejo’, onde plasmou em páginas encantadoras tantas histórias de interesse regional, que hoje constituem imprescindíveis fontes de informação, ou defendeu causas que levou muito a peito, como foram os casos da descaracterização do Moínho de Fau ou do Jardim da República”, recorda Ludgero Mendes.

“Comecei a escrever para jornais e revistas, a partir de 1950, sobre temas de cultura e história da minha cidade e do Ribatejo. Foi entusiasmante. Foram muitos anos. Em 2011, por exemplo, escrevi o artigo “A Procissão do Senhor dos Passos não se realiza há 46 anos”. Em Abril de 2016 (no número comemorativo dos 125 anos do Correio do Ribatejo) ainda escrevi o longo artigo «O que Santarém deixou de ter…» e em Setembro escrevi “Evocação de um baile no Taborda nos anos 50”, lembra João Gomes Moreira nas suas memórias passadas a papel.

Foram mesmo muitos os textos, escritos ao sabor da sua vivência e de lágrimas apaixonadas de emoção, redigidos por quem tinha um coração generoso.

Na sua escrita, João Moreira não esquecia o mais ínfimo pormenor o que enriquecia a narrativa. Recordamos outros exemplos (entre muitos) aqui impressos que ficam para a posteridade: “Ao sr. Carlos Mendes, distinto amador dramático e encenador foi prestada homenagem no Círculo Cultural Scalabitano” (CR 11-07-1959), “Os palhaços portugueses “Irmãos Campos” (CR 07-05-1960), “Tomar – Santarém, calorosa recepção à embaixada scalabitana” (CR 28-05-1960), “A Comissão Organizadora da Feira do Ribatejo homenageada em Lisboa, por iniciativa da Casa do Ribatejo” (CR 23-07-1960), “Grupo Infantil de Dança Regional obteve grande êxito na sua exibição em Valladolid” (CR 05-08-1961), “Em Barcelona e em Madrid depois da triunfal digressão por França o Grupo Infantil de Dança Regional obteve o mais clamoroso sucesso…” (CR 26-08-1961), “A Orquestra Típica Scalabitana e a sua Fundação” (CR 31-12-1981), António Cacho – O Cidadão exemplar” (CR 05-06-1992), “Deslocação da Orquestra Típica a Macau” (CR 02-06- 1995), “O Presidente da República e o Prof. Veríssimo Serrão distinguidos em Oviedo, com o Prémio ‘Príncipe das Astúrias’” (CR 10-11-1995), “Notável Conferência que António Cacho proferiu sobre a ´Santarém de há meio século’” (CR 14-05-1999), “Reunião dos Antigos Alunos do Velho Liceu Nacional Sá da Bandeira” (CR 04-06-1999), “Preciosos documentos científicos do Prof. Dr. Carlos Cacho” (CR 08-10-1999), “As Comemorações dos 25 Anos da Morte de Celestino Graça” (CR 21-01-2000), “O 15.º

Aniversário do Grupo ‘Guitarra e Canto de Coimbra’” (CR 09-06-2000), “A Minha Homenagem à Memória de Amália Rodrigues” (CR 03-08-2001), “Os Grupos Infantil e Académico de Santarém dançaram para a Princesa Margarida, em 1959, na cidade de Tomar” (CR 22-02-2002), “Ainda Bernardo Santareno” (CR 08-06-2007), “O Natal do Bombeiro e o quartel dos Voluntários” (CR 17-01-2014), “Cafés e Restaurantes do Largo do Seminário nos Anos 40 e 50” (CR 21-02-2014)…

O próprio salienta que a sua ligação a órgãos de comunicação social da região o estimularam imenso, por exemplo o convite para fazer parte da equipa da ‘Rádio Ribatejo’, em 1951, uma iniciativa do Capitão Jaime Varela Santos, que o levou, admite, “para um mundo desconhecido que me enriqueceu muitíssimo”.

“Foram cinco anos de trabalho árduo, noitadas, gravações, escrever programas, fazer entrevistas, muitos contactos, mas esforcei-me por cumprir com o que se esperava de mim. E fiquei amigo de toda essa malta!”, lembra João Moreira nas suas memórias.

Este número pretende “sacudir o pó” desta vasta arca de registos para assinalar com a merecida dignidade o I Centenário de Nascimento de João Gomes Moreira que se comemora na próxima segunda-feira, dia 22 de Agosto, e se prolonga pelos próximos dias, com um conjunto de iniciativas entre as quais destacamos já esta sexta-feira, 19 de Agosto, esta Edição do Suplemento Especial do Correio do Ribatejo, dedicado à Memória de João Moreira; dia 21 de Agosto, em Vila Nova de São Pedro, Missa Evocativa do Centenário de João Moreira; a 22 de Agosto, em Santarém, Igreja de São Nicolau, Missa Evocativa do Centenário de João Moreira; dia 26 de Agosto, em Santarém, no Centro Etnográfico Celestino Graça, Sede do Grupo Académico de Danças Ribatejanas, sito no Campo Infante da Câmara: às 20 horas, visita ao Espaço Museológico e Arquivo dedicado a João Moreira; às 21h30, Conversa de Amigos à volta de João Moreira; dia 7 de Dezembro de 2022, no Cemitério de Vila Nova de São Pedro, colocação de Lápide evocativa da Homenagem ao Amigo João Moreira.

Recordamo-lo, hoje, com o contributo de outros colaboradores que com ele privaram, e que têm como denominador comum a admiração que por ele nutriam.

João Moreira sempre gostou de escrever. De eternizar os actos e os gestos de uma vida plena nas linhas direitas das folhas onde guardava as suas memórias.

Mesmo quando a vida lhe trouxe algumas “dificuldades materiais” que o próprio admitiu, e teve necessidade de ir trabalhar para Lisboa, numa firma de produtos farmacêuticos, onde permaneceu três décadas, manteve sempre presença regular nas páginas deste semanário que o ligava à sua amada Santarém.

“Quando olho para trás, assim, em jeito de balanço da vida, o que me ocorre? Muitas coisas, naturalmente. Muitos factos, situações, projectos não realizados… Mas, – é bom para mim afirmá-lo – certos momentos que vivi ficaram de tal modo pegados à minha memória que os considero a minha tábua de salvação quando me pergunto se a vida, para além da vivida profissional e familiarmente, teve algum sentido positivo. Penso que sim”, deixou escrito João Gomes Moreira.

A Empresa “Verdade das Palavras – Comunicação Social, Lda.”, proprietária deste Jornal, reconheceu, a 9 de Abril de 2018, 123 dias depois da sua morte, “o elevado mérito de João Gomes Moreira – O Amigo do Mundo” que durante várias décadas foi presença assídua nas páginas deste Jornal, onde ficou plasmada uma vida intensa em favor da cultura ribatejana, projectada a nível internacional.

“Pela imensa e qualificada acção cultural e artística desenvolvida ao longo de toda a sua vida devotada por inteiro a Santarém e às suas Associações, ao Ribatejo e à sua Cultura Tradicional, e a Portugal, de que foi um autêntico Embaixador a nível internacional, o ‘Correio do Ribatejo’ tem a subida honra de o homenagear, a título póstumo, no âmbito da comemoração do 127.º aniversário deste Jornal Regionalista”.

João Moreira nunca desistiu de intervir na cidade, sendo presença assídua em espectáculos e outras iniciativas culturais e artísticas. Atento e crítico estimulava todos a fazerem mais e melhor, pelo que era, naturalmente, uma voz respeitada e lida nas páginas deste Jornal Centenário.

Apaixonado pela leitura – de livros e de jornais – , reuniu, a partir de 1982, mais de dez mil volumes na sua casa de Vila Nova de S. Pedro. Uns adquiridos na sua passagem por Lisboa, outros, muitos, deixados pelo seu pai.

Uma biblioteca que colocou à disposição dos jovens estudantes da aldeia que necessitavam de livros para os seus estudos e para mais gente que a ela recorreu para satisfazer o desejo de ler.

“Durante mais de 20 anos, todos os sábados, depois da catequese e aos domingos depois da missa, o velho “Solar dos Moreiras” enchia-se de jovens que iam buscar ou entregar livros. Até havia fichas de leitores e tudo… E muitas vezes acompanhava-os pela aldeia chamando-lhes a atenção para as velhas chaminés e portas de postigo ainda existentes, aconselhando-os a não colocarem portas de alumínio como os seus pais estavam fazendo”, memorizou João Moreira.

Os últimos dez anos de vida foram penosos pela dificuldade que sentia em deslocar- se e pela falta de visão que o entristecia, por lhe roubar velhacamente a paixão de ler e de escrever que classificava como “uma necessidade premente”.

“Tenho imenso desgosto não poder ler, reler os nossos poetas e escrever… Já não consigo escrever direito e depois ler. Uma decepção! Tenho, felizmente, três amigos, os Drs Ludgero Mendes, Nelson Ferrão e João Luis Madeira Lopes que, atentos, me levam muitas vezes a ver um espectáculo – que sabem que me agrada -, ou ao Círculo Cultural Scalabitano, ao Centro Cultural Regional de Santarém, ao Teatro Sá da Bandeira, à Casa do Campino ou ao S. Francisco.

Como lhes fico agradecido, amigos! Também o Dr. José Manuel Nogueira me vem buscar quando dos almoços mensais da malta do Liceu. Mas o que custa mesmo a suportar é subir 50 degraus para regressar a casa. Paciência, muita paciência. Não consigo resolver este problema!”, deixou escrito.

Nas derradeiras linhas que escreveu sobre o seu percurso de vida, João Moreira admite: “reli este texto e cheguei à conclusão de que valeu a pena trabalhar por Santarém, cidade que nada me deve e de que me orgulho de ser a minha terra, porque nela nasci em 22 de Agosto de 1922, bem no centro histórico, no Beco das Cortezes, nº 5, 1º andar (primeiro bêco a seguir à ‘Pastelaria Bijou’). Disse”.

E o que “disse” João Moreira é hoje aqui recordado neste I Centenário de boas memórias, de “um Homem que abraçou o Mundo, eternamente apaixonado pela Vida”, Colaborador de Mérito do ‘Correio do Ribatejo’ e figura ímpar da Cultura Scalabitana. Faleceu na madrugada de uma fria quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017, aos 95 anos de idade.

JPN

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