Notícias recentes dão conta que SIC e TVI vão acabar com programas de comentários desportivos baseados no confronto de opiniões de representantes dos três principais clubes desportivos portugueses.

Consideram o formato esgotado. De facto, surpreende até porque não tomaram a decisão mais cedo. Ter comentadores que estão obrigados a defender o seu clube torna qualquer discussão previsível, redundante e pouco elucidativa. Diz o ditado que “da discussão nasce a luz” mas não é o caso. A sã discussão do contraditório entre opiniões, de onde pode nascer algo novo e progresso na informação e conhecimento dos telespetadores, é substituída por uma coreografia de gestos e retóricas baseadas em lealdades clubísticas que mais confundem do que elucidam. A luz só nasce de discussões isentas, fundamentadas e credibilizadas pelo conhecimento e/ou experiência de quem argumenta.

Audições e inquéritos parlamentares são muitas vezes vítimas do mesmo tipo de guião, cujas lealdades partidárias se substituem à procura da verdade e ao apurar de responsabilidades. Instala-se o mesmo nível de coreografia, a deixar uma sensação de entretém mais do que de responsabilidade. Quando os inquiridos entram dentro do espírito coreográfico atingem-se apogeus; o caso mais emblemático terá sido a gargalhada de Joe Berardo em pleno parlamento, em maio, como um ator que acrescenta um toque pessoal ao guião que outros escreveram. Do inquérito e da gargalhada sobrou apenas, até ao momento, impunidade e entretenimento.

Com o alastrar da pandemia de COVID-19, os decisores sobre as medidas de prevenção do contágio e mitigação dos efeitos precisam da informação que só os peritos e técnicos lhes podem oferecer. Apenas peritos e técnicos independentes, isentos e credíveis, poderão aconselhar com seriedade de modo a tornar as decisões apropriadas e eficazes. Caso os decisores ouçam apenas titulares de órgãos de nomeação e outros peritos confiscados por deveres de lealdade institucional, nunca serão devidamente informados e nunca informarão devidamente a população. Também aqui, neste ponto, a informação dará lugar ao entretenimento. Mas a gravidade da pandemia e seus efeitos não é matéria com que se brinque ou esbanje tempo.

Miguel Castanho – Investigador em Bioquímica

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