Trabalho publicado na revista científica “Science Advances” analisou 149 estudos realizados em 27 países e concluiu que uma maior diversidade de plantas pode favorecer o controlo natural de pragas nos sistemas agrícolas.
O docente e investigador Filipe Madeira, da Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS), integra a equipa internacional responsável por um estudo que demonstra que o aumento da diversidade de plantas pode contribuir para o controlo biológico de pragas e para a criação de sistemas agrícolas mais sustentáveis.
O trabalho, intitulado “Plant diversity modifies multi-trophic interactions in croplands, grasslands and forests”, foi publicado na revista científica Science Advances e reúne investigadores de vários países. Filipe Madeira, que desenvolve actividade científica no Centro de Estudos de Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade (CERNAS), figura entre os co-autores do artigo.
A investigação assenta numa meta-análise global, através da qual foram cruzados os resultados de 149 estudos de campo realizados em 214 locais, distribuídos por 27 países de cinco continentes. O objectivo foi perceber de que forma a diversidade vegetal altera as relações entre as plantas, os animais herbívoros e os inimigos naturais destes últimos, como insectos predadores e parasitóides.
As conclusões mostram que o efeito da diversidade vegetal não é igual em todos os ecossistemas. Nos campos agrícolas, a existência de uma maior variedade de plantas favoreceu o aumento relativo dos inimigos naturais dos herbívoros, contribuindo para reduzir a pressão exercida pelas pragas sobre as culturas.
Este resultado reforça a possibilidade de a diversificação das culturas ser utilizada como uma medida preventiva de protecção das produções agrícolas, diminuindo a dependência exclusiva de intervenções posteriores para combater os organismos prejudiciais.
Efeito mais expressivo na agricultura biológica
Os investigadores analisaram separadamente os sistemas agrícolas biológicos e não biológicos. Nos campos de agricultura biológica com maior diversidade de plantas, a relação entre a abundância de inimigos naturais invertebrados e a presença de herbívoros aumentou 846 por cento.
Nos sistemas agrícolas não biológicos, o aumento registado foi de 148 por cento. Os autores consideram que estes dados são compatíveis com um mecanismo de controlo exercido do topo para a base da cadeia alimentar: o crescimento das populações de predadores contribui para a diminuição dos herbívoros que atacam as culturas.
Na prática, a presença de espécies vegetais diferentes num mesmo espaço agrícola poderá criar condições mais favoráveis para a instalação e sobrevivência de insectos e outros organismos que se alimentam das pragas.
A diversificação pode assumir várias formas, desde a utilização de culturas de cobertura à associação ou rotação de espécies, à manutenção de faixas floridas ou à criação de áreas com vegetação capaz de fornecer alimento e abrigo aos inimigos naturais das pragas.
O estudo não apresenta, contudo, uma solução única aplicável a todas as explorações. Os efeitos dependem das culturas instaladas, das espécies presentes, das condições ambientais e do tipo de gestão adoptado.
Os resultados globais apontam, ainda assim, para a diversificação das culturas como uma via relevante para gerir preventivamente as pragas e reforçar a sustentabilidade agrícola.
