Podemos rever a MEMORÁVEL atriz Isabel de Castro, na novela “A Grande Aposta”, novamente no ar na RTP Memória, no inesquecível papel de “Babiette”. Uma das muitas personagens a que o seu legado subsiste, como um testemunho de excelência, rigor e devoção à Arte Dramática, O seu percurso singular atravessou gerações, notabilizada pela sua postura cénica, densidade interpretativa, e flexibilidade perante as estéticas do palco e do ecrã, Isabel de Castro, permanece na nossa reminiscência coletiva, com profunda admiração e estima.
Nascida em Lisboa a 1 de Agosto de 1931, Isabel Maria Bastos Osório de Castro e Oliveira consagrou-se no panorama artístico como Isabel de Castro. Considerada uma das mais insignes personalidades da representação portuguesa do século passado, edificou um percurso de rara longevidade e ecletismo. A sua carreira, que se estendeu por mais de cinco décadas, moldou de forma profunda a história do teatro, do cinema e da televisão nacionais. Oriunda de uma linhagem de forte pendor intelectual, a atriz era filha de José Osório de Castro e Oliveira e da soprano Raquel Soares Bastos. O seu ambiente familiar incluía a avó Ana de Castro Osório, figura de proa da Literatura e do Feminismo português do início do século XX, bem como o seu irmão, o escritor João Osório de Castro. Este contexto familiar foi determinante na maturação da sua vocação e no seu despertar para a atividade artística.
Isabel de Castro estreou-se no grande ecrã na adolescência. Com 14 anos, sob a direção de Jorge Brum do Canto, integrou o elenco de “Ladrão, Precisa-se!” em 1946, abrindo portas para o mercado internacional. O seu talento levou-a rapidamente a Espanha, onde participou em várias produções e revelou uma capacidade de adaptação extraordinária para as atrizes da sua geração. Esta bagagem internacional acabou por consolidar o seu estatuto e enriquecer o seu trajeto artístico em solo português. A sua filmografia estende-se por aproximadamente cinquenta produções cinematográficas, resultantes da colaboração com realizadores de distintas gerações. Estas obras figuram atualmente como referências incontornáveis do património fílmico português, a sua mestria artística alcançou particular relevo no Cinema de autor, merecendo rasgados elogios pela contenção e subtileza interpretativas. Da sua vasta galeria de personagens, sobressai a sua atuação em “Viagem ao Princípio do Mundo” (1997), uma longa-metragem de Manoel de Oliveira. A obra adquiriu um estatuto singular no panorama cinematográfico europeu por constituir o testamento fílmico do prestigiado ator italiano Marcello Mastroianni. Ao encarnar uma camponesa idosa com extrema autenticidade e densidade humana, Isabel de Castro consolidou o seu prestígio internacional e deu provas da superior maturidade artística decorrente de um longo percurso profissional.
A par da sua atividade cinematográfica, desenvolveu um percurso profícuo nos palcos teatrais, servindo textos de dramaturgos clássicos e contemporâneos. Paralelamente, a sua presença regular no meio televisivo — através de séries e ficção seriada — consagrou-a como uma figura familiar junto de sucessivas gerações de espectadores. A Televisão funcionou como um vetor de massificação do seu talento, sobressaindo a sua participação no formato de sucesso “Duarte & Companhia” e, no crepúsculo da sua carreira, no elenco da telenovela “Anjo Selvagem”, uma das suas últimas aparições no pequeno ecrã.
A consagração do seu percurso profissional traduziu-se na atribuição de múltiplos galardões e honrarias, testemunho do elevado prestígio de que desfrutava junto da comunidade artística e da crítica especializada. O seu papel no desenvolvimento do panorama teatral e cinematográfico português foi amplamente reconhecido, fixando o seu nome como uma figura fundamental da arte dramática. Aos 74 anos, Isabel de Castro faleceu em Borba, no dia 23 de novembro de 2005, deixando o panorama artístico sem uma das suas grandes referências cénicas, e uma das mais insignes atrizes portuguesas.
