Maria Sidónio foi a assinatura adotada por Maria Sidónio Baracho Damião, uma das figuras mais ecléticas do panorama cultural luso do século XX. Consagrou-se como intérprete musical, profissional do espetáculo e artista plástica, legando um espólio aclamado tanto nos palcos e na Rádio como na escultura. Das ondas radiofónicas aos palcos do Teatro ligeiro, da sétima arte às sonoridades brasileiras e, por fim, à arte do barro, edificou um espólio eclético que permanece na memória tanto dos entusiastas da música e do espetáculo como dos colecionadores da sua obra escultórica. Destacam-se nesta última vertente os singulares “Santo António” e os presépios que modelou até aos seus anos derradeiros.
Maria Sidónio nasceu e cresceu na capital portuguesa, onde demonstrou desde muito jovem a sua inclinação criativa, iniciando um percurso que se estenderia por várias décadas e múltiplas formas de expressão. A sua trajetória começou a ganhar projeção em 1943, ao fazer testes para a Emissora Nacional, onde foi admitida de imediato no corpo artístico da estação. Marcou presença assídua em vários programas radiofónicos, com ênfase nos populares “Serões para Trabalhadores”, que formavam uma das principais atrações de entretenimento da rádio portuguesa da altura. O talento vocal e a postura em palco permitiram-lhe seduzir rapidamente o público, impulsionando o seu percurso no teatro de revista
Brevemente a seguir, reuniu-se com o escritor Aníbal Nazaré, relevante autor de teatro de revista, com quem contraiu matrimónio. Este vínculo teve um impacto crucial no progresso do seu percurso teatral, viabilizando a sua entrada em elencos que se exibiam nos palcos do Parque Mayer, o coração da revista portuguesa.
Integrou o elenco de variadas produções de grande repercussão, incluindo ‘Há Festa no Coliseu’, estreado em 1944, consolidando-se como uma das artistas mais admiradas do género. No decorrer das décadas de quarenta e cinquenta, colaborou com alguns dos maiores nomes do teatro ligeiro nacional, notabilizando-se pela elegância, simpatia e talento performativo, atributos que lhe asseguraram os elogios do público e da crítica. Ao mesmo tempo, marcou presença em inúmeros espetáculos de caridade e em tournées artísticas por todo o país, fomentando a expansão da música popular portuguesa e brasileira
Em 1945 deu os primeiros passos no cinema através da longa-metragem “A Noiva do Brasil”, dirigida por Santos Mendes, onde fez parte do grupo de atores dessa obra cinematográfica portuguesa, vivência que veio enriquecer a sua atividade artística, ainda que o teatro e a rádio continuassem a ser os palcos prediletos da sua trajetória. O seu portefólio musical passou, a pouco e pouco, a focar-se na interpretação de canções brasileiras, um género que se transformou numa das suas marcas identitárias e que lhe rendeu especial simpatia junto do público português.
Depois do rompimento com Aníbal Nazaré, começou um duradouro vínculo amoroso e profissional com o cantor Tony de Matos, uma das vozes mais icónicas da música ligeira portuguesa. No fecho da década de 1950, o casal mudou-se para o Brasil, onde fixou residência por perto de sete anos. Em 1959 criaram, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, o restaurante ‘O Fado’, um local voltado para a divulgação da cultura e da música portuguesa junto da comunidade residente e do público brasileiro. Tony de Matos exibia-se com frequência naquele estabelecimento, ao passo que Maria Sidónio garantia a coordenação artística e a supervisão do espaço, numa etapa da sua vida que sempre recordou com especial afeto e entusiasmo.
Foi durante a estadia no Brasil que realizou um curso de cerâmica, revelando um novo talento artístico que viria a moldar significativamente a segunda metade da sua vida. De volta a Portugal, na década de 1960, focou-se quase exclusivamente na produção cerâmica, promovendo a sua primeira exposição em Lisboa e estruturando um estilo muito singular que em pouco tempo cativou admiradores e colecionadores. Tornaram-se particularmente célebres as suas figuras de Santo António sem rosto, vistas como o selo de identidade da artista, bem como os presépios, estatuetas tradicionais, baianas, representações do “Pão de Açúcar”, das favelas do Rio de Janeiro e diversas personagens inspiradas na Cultura portuguesa e brasileira.
As suas peças harmonizavam simplicidade estética, forte expressividade e um profundo cunho tradicional, sendo hoje valorizadas como exemplos muito singulares da cerâmica artística portuguesa contemporânea. Durante várias décadas manteve o seu oficina/ateliê no Pátio Alfacinha, local carismático vocacionado para as tradições lisboetas, onde criava e expunha as suas obras. Em simultâneo, participou de forma ininterrupta na Feira Popular de Lisboa até ao fecho definitivo daquele recinto, em 2003, tornando-se uma figura muito popular entre os frequentadores, que ali adquiriam as suas esculturas em barro e tinham ocasião de conversar diretamente com a artista. O carácter inédito da sua obra e a trajetória singular que reunia teatro, música e artes plásticas conduziram-na a participar em múltiplas emissões de televisão, onde muitas vezes exibia o método de manufatura das suas peças e relembrava memórias da sua longa caminhada artística.
Em Junho de 2005 fixou residência na Casa do Artista, em Lisboa, entidade voltada para o acolhimento de profissionais das artes na reforma. Foi nesse local que passou os seus dias finais, permanecendo conectada ao meio cultural e perpetuando a memória do seu percurso multifacetado. Maria Sidónio partiu aos 86 anos. Personalidade artística MEMORÁVEL, e vulto de relevo no panorama cultural português, notabilizou-se por uma trajetória que cruzou diferentes disciplinas e por um raro talento de autotransformação.
