Vasco Granja ficou eternizado como o “Pai da Pantera Cor-de-Rosa”, um MEMORÁVEL cognome, ganho devido aos programas de animação que conduziu na RTP ao longo de mais de quinze anos. A sua atividade de difusão cultural moldou o percurso de múltiplas gerações em Portugal, transformando-o num marco essencial na literacia visual e no reconhecimento das artes artísticas. ocupa um lugar central na história dos media, da educação e da arte, como um dos nomes mais influentes da cultura contemporânea portuguesa. sendo fundamental para elevar a nona arte (banda desenhada) e a animação a disciplinas merecedoras de estudo e reconhecimento.

Vasco de Oliveira Granja nasceu em Lisboa no dia 10 de Julho de 1925. O entusiasmo de pelo Cinema, Artes Gráficas, Ilustração, Literatura surgiu cedo. O pai comprava-lhe as revistas juvenis daquela época, que apresentavam histórias aos quadradinhos como “O ABC-zinho”, “O Tic-Tac” e “O Senhor Doutor”. Ainda antes de aprender a ler, começou a juntar estes exemplares que, segundo as suas próprias palavras, ajudaram na sua aprendizagem da leitura. Os familiares motivaram o seu gosto pela sétima Arte desde muito cedo, enraizando essa rotina. Naqueles moldes, as salas de projeção careciam de classificação etária. Assistir a um filme representava um evento essencialmente de convívio, permitindo que o pequeno Vasco consumisse produções de todos os estilos. Na adolescência, frequentava os espaços cinematográficos do Chiado e explorava os diversos cinemas de Lisboa, acompanhando avidamente as sessões contínuas.

Estudou na Escola 12 do Bairro Alto, e na Escola Industrial Machado de Castro, que deixou na adolescência para trabalhar nos Armazéns do Chiado, onde começou nas amostras e passou à publicidade pelo seu talento no desenho e caligrafia.  Seguiu-se a “Foto Áurea”, na rua do Ouro, onde trabalhou como assistente de fotografo, na venda de lotarias na “Casa Travassos”, rotina que o aproximou dos intelectuais e escritores que frequentavam o Chiado. Mais tarde, ingressou na “Editora Arcádia” e na “Livraria Bertrand”, dedicando cerca de 30 anos à coordenação editorial, revisão e ligação com autores, tradutores e designers. Totalmente autodidata, via no Cineclubismo a sua grande escola.  A partir de 1950, envolveu-se totalmente nos cineclubes portugueses através da organização de sessões, debates, legendas e divulgação cinematográfica. O Cineclubismo era então, um polo cultural e um centro de oposição intelectual ao Estado Novo. Devido à sua militância, e a ações vistas como subversivas pela ditadura, foi preso pela PIDE em 1954 e em 1963. Cumpriu mais de dois anos de pena nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche. Mesmo face à repressão, nunca abandonou o seu combate pela Cultura, pela liberdade de expressão e pela abertura do Cinema a todos.

Pioneiro na divulgação da Banda Desenhada em Portugal, escrevendo centenas de artigos para jornais nacionais e estrangeiros. Ajudou a fundar a revista francesa “Phénix”, dirigiu a edição portuguesa da “Tintin”, e coordenou a segunda série da “Spirou” no país. Esteve ainda ligado, à abertura da primeira livraria portuguesa especializada em Banda Desenhada. Ao liderar coleções dedicadas à nona Arte e marcar presença regular em festivais internacionais como “Angoulême”, tornou-se o maior especialista português na área.  Foi na RTP que ganhou projeção nacional, entre 1974 e 1990, apresentou mais de mil programas de Animação que marcaram gerações de espetadores. Mais do que passar Desenhos Animados, Vasco Granja teve uma missão pedagógica: explicava as técnicas, apresentava realizadores e estúdios, formando o público. Embora muito associado à inolvidável “Pantera Cor-de-Rosa”, o seu trabalho abriu portas a um universo vasto. Com Vasco Granja, os portugueses descobriram que a Animação é Arte e não apenas distração infantil. Em 1975, fundou uma das primeiras formações em Portugal voltadas para o Cinema de Animação. Este projeto acabou por impulsionar o nascimento da futura “Associação Portuguesa de Cinema de Animação” e o aparecimento de novos criadores nacionais. Mais tarde, entre 1997 e 1999, ensinou a disciplina na Escola Profissional de Imagem (EPI), em Lisboa, mantendo vivo o seu papel de passar o testemunho às gerações mais jovens.

Foi detentor de múltiplos galardões nacionais e internacionais que consagraram o seu mérito no domínio da difusão cultural. No ano de 1972, foi agraciado em Bruxelas com o reputado “Prix Saint-Michel”, em virtude do seu valioso contributo para a emancipação da Banda Desenhada. Seguiu-se, em 1988, a atribuição do Troféu “O Mosquito” por parte do Clube Português de Banda Desenhada. Adicionalmente, em 1991, foi condecorado com a Medalha de Honra do Município da Amadora, edilidade historicamente indexada à evolução da nona Arte em Portugal. Em 1996, recebeu o Troféu de Honra no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e, no ano de 2003, o Festival de BD da Amadora homenageou-o com a retrospetiva “Vasco Granja – Uma Vida… 1000 Imagens”.

Faleceu aos 83 anos, em 4 de Maio de 2009. O seu nome ficou gravado na história de Portugal como um dos maiores divulgadores do Cinema de Animação e da Banda Desenhada. Em 2009, numa homenagem póstuma, foi-lhe outorgado o “Prémio Pró-Autor” pela Sociedade Portuguesa de Autores. O seu legado permanece vivo nas gerações que cresceram a vê-lo na RTP, mostrando o valor artístico da Animação Mundial, através do seu tom sereno e entusiasmado. Muito mais do que um rosto da Televisão, foi um pedagogo, e uma ponte cultural que defendeu a imaginação, a liberdade criativa, e o acesso ao saber. O seu impacto foi além dos Desenhos Animados, revelando-se premente para alçar a nona arte e o cinema de animação ao estatuto de matérias legítimas de investigação e prestígio.

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