Barreiras colocadas para impedir a circulação têm sido repetidamente removidas. Travessia entre São Vicente do Paul e Vale de Figueira está escorada desde 2020, continua sem obra adjudicada e obriga a população a desvios de cerca de 15 quilómetros.
O estado da Ponte da Panela, que atravessa a Linha do Norte e assegura uma ligação entre as freguesias de São Vicente do Paul e Vale de Figueira, agravou-se e apresenta agora um nível de risco ainda mais elevado. O alerta foi feito pela Junta de Freguesia de São Vicente do Paul, depois de uma nova avaliação realizada no local em conjunto com a Protecção Civil Municipal de Santarém.
A travessia encontra-se encerrada ao trânsito, mas as barreiras colocadas para impedir a circulação têm sido repetidamente removidas, permitindo que alguns condutores continuem a passar sobre uma estrutura cujo estado é considerado perigoso.
Perante o incumprimento da interdição, a Protecção Civil deverá colocar um obstáculo físico que impeça definitivamente a passagem de veículos. A medida surge depois de os sucessivos condicionamentos não terem sido suficientes para evitar a utilização da ponte.
“Esta atitude é grave, irresponsável e coloca vidas em perigo”, advertiu a Junta de Freguesia, sublinhando que o encerramento não constitui uma recomendação, mas uma medida obrigatória de segurança.
O executivo da freguesia apela à população para que não retire nem desloque os obstáculos colocados nos acessos. “Nenhum incómodo justifica colocar vidas em risco”, reforça, reconhecendo, contudo, os transtornos provocados pelo encerramento.
Ligação cortada penaliza população e empresas
A Ponte da Panela constitui uma ligação habitual entre São Vicente do Paul e Vale de Figueira, servindo residentes, agricultores, empresas e instituições das duas freguesias. O encerramento obriga a percursos alternativos que podem representar cerca de 15 quilómetros adicionais, agravando os tempos e os custos das deslocações.
O presidente da Junta de São Vicente do Paul, Nuno Carriço, já tinha alertado para as consequências sociais e económicas da interdição, classificando a ponte como um ponto de ligação fundamental para a freguesia. O desvio afecta as deslocações para o trabalho, o acesso a serviços, a actividade agrícola e a circulação de viaturas de empresas instaladas na zona.
Entre as instituições atingidas encontra-se o Centro de Bem-Estar Social de Vale de Figueira, frequentado por utentes e famílias com ligações regulares às localidades vizinhas. Também as máquinas e viaturas agrícolas, que utilizavam aquela passagem para chegar a terrenos situados dos dois lados da linha ferroviária, passaram a enfrentar trajectos consideravelmente mais longos.
O agravamento do risco coloca as autoridades perante um equilíbrio difícil: manter fechada uma ligação importante para a vida quotidiana das populações, sem que exista ainda uma alternativa equivalente, ou permitir uma circulação incompatível com o estado da estrutura. A decisão, reiteram a Junta e a Protecção Civil, só pode ser a manutenção da interdição.
Ponte está escorada desde 2020
O problema não é recente. A Ponte da Panela foi escorada em 2020, com estruturas metálicas e elementos de madeira destinados a conter os muros laterais e a evitar um agravamento da instabilidade.
As imagens da travessia mostram há vários anos muros inclinados para o exterior, unidos por barras metálicas, e uma estrutura provisória de sustentação junto à plataforma ferroviária. A preocupação principal tem incidido nos encontros e muros laterais, cujo desalinhamento é visível, e não apenas no tabuleiro por onde circulavam os veículos.
Em Fevereiro de 2022, a Câmara de Santarém anunciou que a ponte seria requalificada no prazo aproximado de um ano e meio. A previsão apontava, por isso, para uma intervenção até ao segundo semestre de 2023. A obra, porém, não avançou nesse período.
Na altura, a Junta de Freguesia já falava num “risco iminente” e alertava para a passagem diária de veículos ligeiros, pesados e máquinas agrícolas numa estrutura concebida para cargas muito inferiores às actualmente suportadas. A ponte continuou aberta, embora condicionada, enquanto se aguardava uma solução definitiva.
Concurso lançado em 2025 não recebeu propostas
O Município de Santarém lançou em Maio de 2025 um concurso público para a requalificação da travessia. O procedimento terminou sem propostas, prolongando uma situação que já então se arrastava há cinco anos.
O concurso terá sido aberto com um preço-base próximo dos 300 mil euros. Já este ano, o presidente da Câmara, João Teixeira Leite, reconheceu que o montante ficou abaixo do necessário para despertar o interesse das empresas, tendo em conta a complexidade de uma intervenção realizada directamente sobre a Linha do Norte.
Segundo o autarca, o valor da obra poderá aproximar-se do dobro daquele que serviu de base ao primeiro procedimento. Qualquer intervenção terá ainda de ser articulada com a Infraestruturas de Portugal, responsável pela ferrovia, uma vez que os trabalhos implicam condicionamentos numa das principais linhas ferroviárias do País.
O fracasso do concurso levou a Assembleia Municipal de Santarém a aprovar, no final de 2025, uma moção recomendando o lançamento urgente de um novo procedimento e a definição de um calendário para a obra. A travessia entrou, assim, em 2026 sem empreitada adjudicada e apenas com as estruturas provisórias instaladas seis anos antes.
Após o encerramento, a Câmara de Santarém avançou com trabalhos de beneficiação de um percurso alternativo para assegurar a ligação entre as duas margens da ferrovia. A solução, porém, não elimina os desvios nem restitui a ligação directa proporcionada pela ponte.
O encerramento acentuou também as queixas sobre o estado geral da rede viária naquela zona rural do concelho. A Junta de São Vicente do Paul tem chamado a atenção para a degradação da Estrada Nacional 365-4, entre a sede da freguesia e Pombalinho, onde as reparações se têm limitado à colocação pontual de alcatrão nos buracos de maiores dimensões.
