A história de uma cidade não se escreve apenas com os factos do passado, com as pedras dos seus monumentos ou com os documentos guardados nos arquivos; escreve-se, sobretudo, com a paixão, o rigor e a dedicação daqueles que consagram a vida a compreendê-la, a estudá-la e a preservá-la para as gerações vindouras. Joaquim Veríssimo Serrão (1925-2020) foi, indiscutivelmente, um desses homens raros. Mais do que um dos maiores e mais prolíficos historiadores portugueses do século XX, foi um filho devotado de Santarém, um intelectual de dimensão internacional que nunca, em momento algum da sua longa e brilhante carreira, cortou o cordão umbilical com a sua terra natal.
Nascido a 8 de Julho de 1925, na freguesia de Tremês, no concelho de Santarém, Joaquim Veríssimo Serrão construiu um percurso académico de absoluta excepção, pautado pela excelência e por uma capacidade de trabalho inesgotável. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra em 1948, tornou-se Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, instituição de referência da qual foi Reitor num período complexo, entre 1973 e 1974. Presidiu à prestigiada Academia Portuguesa da História durante mais de três décadas, marcando indelevelmente a instituição, e foi distinguido com galardões de enorme prestígio internacional, de que se destaca o Prémio Príncipe das Astúrias em Ciências Sociais, atribuído em 1995. Contudo, por trás do currículo brilhante e das honrarias académicas, estava sempre o homem profundamente ligado às suas raízes ribatejanas, o investigador incansável que encontrava na sua terra a força anímica para prosseguir.
Um Pioneiro da “Micro-História” e da Renovação Metodológica
Para compreender a verdadeira dimensão e o impacto da vasta obra de Veríssimo Serrão, é preciso olhar com atenção para a forma profundamente inovadora como abordou a disciplina histórica. O seu filho, Vítor Serrão, ele próprio um conceituado historiador de arte e Professor Catedrático Emérito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, recorda o pai como um autêntico visionário no seu campo de estudo. “O meu pai foi um historiador de vanguarda”, afirma com orgulho e convicção. “Numa época praticamente complicada da história de Portugal, teve o talento e a oportunidade histórica de poder modificar a metodologia de trabalho que vigorava.”
Fruto das suas inúmeras viagens de estudo e de uma visão profundamente cosmopolita, Veríssimo Serrão alinhou-se cedo com as correntes historiográficas mais modernas da Europa, nomeadamente com a célebre Escola dos Annales francesa. “Renovou profundamente a nível teórico e metodológico aquilo que antes dele já o Herculano tinha tentado, isto é, uma história com alma, uma história com gente, uma história microscópica e uma história capaz de entender o contexto olhando para o futuro”, explica Vítor Serrão, sublinhando a ruptura com a historiografia tradicional, muitas vezes excessivamente focada nas elites e nos grandes eventos políticos.
Esta nova abordagem, que hoje designamos comummente por “micro-história”, permitiu-lhe olhar para o papel de Portugal no mundo a partir de uma perspectiva regional e local, mas nunca periférica ou menor. “O meu pai foi um pioneiro a este nível, porque renovou, a partir de um olhar regional, aquilo que é o papel de Portugal no mundo”, sublinha o filho, destacando a capacidade do pai para cruzar a grande narrativa nacional com as dinâmicas locais.
A Obra Monumental e o Amor Incondicional a Santarém
A coroa de glória da sua notável carreira académica é, sem qualquer margem para dúvida, a monumental “História de Portugal”, uma obra de enorme fôlego e um feito absolutamente inédito e extraordinário na historiografia nacional. “Toda ela feita com grande probidade intelectual, com recurso exaustivo a fontes primárias, com o objectivo claro de convidar os leitores e o público em geral a investigar melhor determinados temas”, nota Vítor Serrão. O filho destaca ainda a ausência de uma componente ideológica fechada e o convite constante a novas investigações, visível na impressionante quantidade de notas de rodapé que caracterizam a obra e que, ainda hoje, espantam os investigadores pela sua minúcia.
Mas, paralelamente a esta obra de dimensão nacional, Veríssimo Serrão dedicou páginas fundamentais e apaixonadas à sua terra. Logo em 1947, no início do seu percurso, publicou o “Ensaio Histórico sobre o Significado e Valor da Tomada de Santarém aos Mouros em 1147”, e em 1951 lançou “Santarém, história e arte”. Estas obras, sucessivamente reeditadas ao longo das décadas, consolidaram a leitura da cidade como um espaço de memória histórica crucial e incontornável na construção da própria identidade portuguesa.
A ligação a Santarém era visceral, quase física. “Santarém é a paixão eterna”, confidencia Vítor Serrão, recordando os desabafos do pai. “Lembro-me muito bem em muitos momentos da vida, em Paris, em Lisboa, o meu pai referir repetidamente que queria voltar à terra natal. Como um Herculano que descobria a ‘Ítaca’ em Vale de Lobos. O meu pai procurava um lugar de refúgio cheio de identidade. Identidade plural, porque era a memória da família, era a história propriamente dita, era o embrião de onde tudo nascera e onde tudo criava futuro.”
O Legado Patrimonial e a Criação do CIJVS
O amor incondicional de Joaquim Veríssimo Serrão por Santarém não se esgotou, porém, nos livros e nos ensaios; materializou-se num gesto de extraordinária generosidade filantrópica e de visão cívica. Em 2009, decidiu doar à Câmara Municipal de Santarém o seu vasto e riquíssimo acervo pessoal e bibliográfico, acumulado ao longo de uma vida inteira de estudo. “Um espólio de cerca de 40 mil livros”, recorda o filho, “doados por inteiro de uma forma fraternal e filantrópica para apoio à leitura pública e à investigação”.
Este espólio inestimável deu origem, em 2011, à criação do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS). O CIJVS não é apenas um arquivo estático: é um espaço vivo e dinâmico de investigação, que preserva activamente a memória do historiador e continua a alimentar novas pesquisas sobre a cidade, a região e o país.
A par deste legado material incalculável, Veríssimo Serrão deixou também uma marca institucional forte e duradoura na cidade, tendo presidido, entre 1980 e 1984, à Comissão Instaladora do Instituto Politécnico de Santarém, desempenhando um papel absolutamente decisivo na fundação e consolidação do ensino superior público na região ribatejana.
O Homem por Trás do Académico: Afecto e Pedagogia
Para além do académico brilhante e do investigador incansável, Vítor Serrão recorda com emoção um pai “profundamente afectivo” e um pedagogo nato, capaz de cativar qualquer auditório. “O meu pai era um homem que também ligava imenso à arte. Muito pequeno, levou-me a Toledo ver o Greco, levou-me ao Louvre em Paris, levou-me também, ao mesmo tempo, a Tomar, a Abrantes, aos monumentos do Gótico Escalabitano. Eu, desde muito pequenino, aprendi a ver e a entender quão importante era o património histórico e artístico graças a ele.”
A cultura, para Veríssimo Serrão, era essencialmente um acto de partilha e de comunhão. “A cultura, para ele, não era algo fechado numa torre de marfim muito inatingível, muito académica e rígida, mas algo que era partilhável com toda a gente, porque acreditava que todos têm um grão de cultura empírica”, recorda o filho com saudade.
A distinção que agora lhe é prestada, no ano simbólico do seu centenário, é o corolário perfeito de uma vida inteira dedicada a pensar Portugal e a amar Santarém com todas as forças. Joaquim Veríssimo Serrão ensinou-nos, através do seu exemplo e da sua obra, que “é na história e no património que ela constitui que encontramos um território de diálogo pleno e unívoco”. O seu legado imenso é um convite permanente para continuarmos a descobrir, com rigor e paixão, os caminhos da nossa própria identidade colectiva.
