Justina Pereira frequentou a escola apenas durante dois dias. Tal como a maioria das crianças da sua idade e na sua terra, Alpiarça, o destino seria o campo. No seu caso, para a frente das mulas, nos trabalhos das vinhas. A sua aprendizagem seria, assim, noutra escola, na chamada «escola da vida».

“Encontrei um homem, maioral das mulas, falou-me para eu ir p’a frente das mulas e eu fui, meteu-me inveja as outras irem também a cavalo nos carros das mulas, e eu fui mais elas e levei a mala”. Tinha apenas 7 anos.

Naqueles tempos as dificuldades económicas eram tais que, para os seus pais, em vez de ficarem zangados com aquela decisão, foi uma graça vinda dos céus. “Ficaram todos contentes, apareci-lhes com dinheiro ao sábado”.

Em 1950, aos 12 anos, com mulheres já feitas, umas casadas, outras viúvas, iria para fora do concelho, para a zona de Ulme, mondar arroz, nas célebres maltesarias em Paíres, ficando por lá à semana, a dormir em barracões. Sacrifício que se fazia porque a féria [ordenado] era melhorada.

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Sacrifício a juntar a outros do dia a dia. “Não tínhamos água canalizada e na zona onde é a Casa do Povo e a Escola Secundária de Alpiarça é que a gente ia à água, estava lá um poço. Mas a gente para lá ir tínhamos que saltar a um valado cheio de silvas, que existia de propósito para as pessoas não entrarem nas propriedades. Quando o guarda da propriedade estava ao almoço é que a gente ia às escondidas, roubar água ao poço. Levávamos um balde e uma quarta. Havia lá também um barroco cheio de barro, aí íamos lavar a roupa no tempo das cheias no campo”.

Depois de quase cinco anos de namoro, aos 19 anos iria partilhar a vida com um jovem alpiarcense, Álvaro Brasileiro, órfão de pai e com um padrasto arisco.

Justina, com Álvaro Brasileiro, em Alpiarça, numa festa com militares de Abril.

Quando já tinham conseguido arranjar umas poupanças e construído a sua casa, estavam a estreá-la, “numa noite ouvimos passos no quintal, na areia e pedra que lá tínhamos para construir um poço. Desconfiámos que eram eles e eram. Na outra noite o Álvaro foi ficar num pocilgo de uma vizinha, estava cheio de carqueja, já tinha morto o porco. Ficou lá umas noites. Isto foi antes de Outubro”.

Álvaro Brasileiro viria a ser preso mais tarde, em 12 de Outubro de 1963, num lagar em Alpiarça, onde trabalhava, por desenvolver “actividades subversivas” e ser membro “da organização denominada partido comunista português”.

Quando Álvaro foi detido, “levaram-no tal e qual como andava a trabalhar, descalço, andava a pisar a baganha, dantes não era as roupas como é agora, tinha umas calças chapadas e a camisa, todo sujo, e assim é que ele esteve, já em Lisboa, no Aljube.

Quando soube aonde é que ele estava, levei-lhe roupa lavada. Nunca lha deram, esteve quinze dias naquele traje de trabalho”.

Justina, em solteira, não tinha ideia nenhuma se o seu namorado estava envolvido em actividades políticas, apercebendo-se, contudo, de algumas reuniões. Já em casada é que se começou a partilhar mais cumplicidades.

“Mas eu não sabia se ele realmente andava por bom caminho, se não andava. Isso não sabia, que eu era realmente contra o regime, porque era uma ditadura, éramos exploradas, isso era”.

Os tempos anteriores à prisão do seu companheiro, a detenção e tudo o que viria a seguir-se abrir-lhe-ia portas para uma melhor compreensão do que se vivia em Portugal e, decerto, para a justeza do caminho que Álvaro já trilhava.

Se esta foi a primeira marca da repressão que, em Alpiarça, a GNR e a PIDE lhe deixava de forma directa, o ambiente claustrofóbico na pequena vila ribatejana já muito o sentia, quer devido a outras prisões, quer pelos acontecimentos daquele fim de dia 4 de Junho de 1950, que marcaria milhares de alpiarcenses, particularmente os homens e as mulheres do campo.

“Estávamos na «praça de jorna» a lutar por um aumento da féria, quando foi aquela confusão, depois começaram aos tiros [a GNR] e o Alfredo [Lima] estava lá encostado à parede e, então, foi quando o apanharam com um tiro. Caiu logo para o chão, ele até morreu com a boca cheia de pevides, estava a comer pevides, coitadinho. Depois foi uma confusão danada, tudo a gritar”.

As prisões, para além dos efeitos económicos que causavam (nessa altura o homem ganhava o dobro da mulher e tinha mais dias de trabalho), resultavam em autênticas torturas psicológicas às mulheres e companheiras. A maioria delas, afora de Alpiarça, conheciam Santarém e a feira da Piedade, Paíres e os campos de Salvaterra, Benavente ou de Vila Franca, onde faziam meloais. Ir-se a Lisboa era uma verdadeira odisseia.

“Quando o Álvaro foi preso, fui à procura dele ao posto da Guarda. Disseram-me que tinha sido levado para Santarém. Quando lá cheguei, disseram-me que já estava em Lisboa. Vou para a sede da PIDE, na António Maria Cardoso, e “quem é que a senhora procura? É o Álvaro Brasileiro. Então, mas é brasileiro ou é no nome?, parece que ainda gozavam. É no nome, mas toda eu tremia. Então porque é que não vai ali ó Aljube à procura dele? E eu fiquei-me, nem sabia o que era o Aljube. E diz: Como vêm logo aqui direito! Alpiarça precisava era de uma bomba para a arrasar. E eu cheia de medo dele. E, depois, disse-me: Está aí, está! Mas ele não vai ter visitas tão depressa. As vezes que eu caminhei, para saber quando é que ele tinha visitas, eu sei lá. Uns dias chegava lá, para perguntar a quem é que ele estava entregue, que era ao Mortágua [inspector da PIDE]. Chegava lá à PIDE e perguntava pelo Mortágua. Respondiam-me: Olhe, ele ainda não veio, mas deve estar a chegar. Aguentava dias assim e eles a enganar a gente. Dias inteiros, sem nunca falar com ninguém”.

Aguentaria também durante os dezasseis meses em que o seu marido esteve preso o trabalho agrícola nos seus bocaditos de charneca, em Alpiarça e, em 1964, na lezíria vila-franquense o meloal, aí com a solidariedade de companheiros.

Nesses tempos de escuridão Justina chegaria a ser abordada por companheiras de trabalho, militantes do PCP, para aderir ao proscrito partido. “O Álvaro não esteve de acordo em eu entrar. Não gostou que aquela abordagem tivesse sido tão aberta, sem cuidados conspirativos, não achou seguro”.

Libertado Álvaro Brasileiro, este depressa se envolveria em diversas actividades políticas, sendo as de maior relevo a participação na organização local do PCP, a organização de uma cooperativa de seareiros de melão (a Associação dos Agricultores de Alpiarça), no início da década de 70, a discussão e elaboração, com um grupo de camponeses de Alpiarça, de documento («As condições dos assalariados, sua combatividade e Democracia») a ser presente ao 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro e na campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, como candidato a deputado por Santarém (estes dois últimos acontecimentos em 1973).
Justina não aderiu então ao PCP mas, naquela casa alpiarcense, as conivências e apoios eram o pão nosso de cada dia, naturalmente com muitos receios à flor da pele, não só pela actividade directa de Álvaro, como na colocação da sua casa à disposição do aparelho clandestino para reuniões, como uma em que participou António Gervásio, do comité central.

Não tivesse, entretanto, ocorrido o 25 de Abril, Álvaro Brasileiro já tinha o destino traçado: uma nova prisão. A GNR, depois de andar a rondar a casa, foi à sua procura. De imediato foi dado o alarme e um estafeta de mota seguiu para os campos de Vila Franca de Xira a dar o alerta. O alpiarcense passou a pernoitar em barracas de outros meloeiros.

Mas naqueles tempos outras formas de luta eram frequentemente usadas para fazer chegar mensagens ou comemorar datas importantes para os trabalhadores, como reuniões nos ranchos agrícolas ou a realização de piqueniques.

“Uma vez, no 1º de Maio tivemos um lanche à borda da vala. A gente andava a trabalhar e no rancho, a Maria Albertina [posteriormente falecida na clandestinidade por complicações pós-parto], a Conceição Carlos e a Adelina Arranzeiro, olha, amanhã vamos comer um lanche à borda da vala. Mas à PIDE não lhes passou assim por despercebido, porque não fomos trabalhar, apareceram lá, a perguntar o que é que a gente estava a fazer. Olha, estamos aqui a comer um lanche!”

Costuma dizer-se que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Nestas duras vidas, em que não havia heróis, mas sim seres humanos comuns, empenhados na luta por uma vida justa, os homens e mulheres caminharam ombro a ombro, cada qual com a sua missão. E com muitas cumplicidades.

Ricardo Hipólito

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