Lima Rodrigues: “Só quero que estimem os meus livros e que os leiam”

Lima Rodrigues lança ‘A Casa Queimada’ na Póvoa de Santarém.

“Só quero que estimem os meus livros e que os leiam”. Foi desta forma que Lima Rodrigues agradeceu, de forma emocionada, a homenagem que foi alvo, na manhã do passado domingo, pela União de Freguesias de Achete, Azóia de Baixo e Póvoa de Santarém que decidiu dar o nome do escritor à biblioteca da instituição.

O momento serviu ainda para o contista e assíduo colaborador da Página ‘Correio Policial’ do Correio do Ribatejo apresentar o seu novo livro de contos, intitulado ‘A Casa Queimada’. Hoje com 85 anos de idade, Lima Rodrigues, natural de Torres Vedras, mas há muitos anos residente em Santarém, vive actualmente no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Santarém. Com uma enorme paixão pela escrita policial, o autor tem centenas de contos publicados.

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Revelando a sua paixão pela escrita, destacou os momentos de inspiração que o leva até a escrever em guardanapos, no café ou à mesa no restaurante, para não perder uma ideia. “Quem se alimenta dos sonhos envelhece mais tarde”, observou.

Numa mensagem final a todos os presentes, que enchiam a biblioteca da União de Freguesias, Lima Rodrigues deixou o conselho: “Confiem nos amigos, mas confiem a sério e para se confiar a sério é preciso também nós sermos sérios com os nossos amigos”.

Cinco mil volumes

A biblioteca da Póvoa de Santarém conta com cerca de cinco mil volumes doados por Lima Rodrigues e que constituem cerca de 80 por cento do seu acervo. Guida Botequim, presidente da União de Freguesias de Achete, Azoia de Baixo e Póvoa de Santarém, salientou, na sessão, que apesar de não ter nascido na freguesia, Lima Rodrigues “tem nesta sala parte do seu património”, pelo que “o nosso executivo não poderia ficar indiferente a esta iniciativa”, referiu a autarca.

“Para nós é um orgulho o lançamento do livro poder ser na nossa biblioteca”, reforçou.

Guida Botequim não esqueceu, na oportunidade, todos quantos cederam livros, nomeadamente, Martinha Rôxo que conseguiu apoios para equipar aquele espaço, inclusive equipamentos informáticos, numa “iniciativa crucial para o arranque desta biblioteca”, frisou.

Agradeceu ainda a Eurico Saramago os livros que também cedeu aquele espaço e a Eurico Ribeiro que recebeu os livros de Lima Rodrigues na biblioteca. A biblioteca da Póvoa de Santarém tem vindo a contar com outras ofertas, nomeadamente, de Ana Vieira, essencialmente livros destinados a crianças e do Sport Club Povoense, através do seu presidente, António João Montês e à Câmara de Santarém a cedência de uma enciclopédia.

Quase todos os livros existentes na biblioteca da Póvoa de Santarém estão devidamente catalogados, com a colaboração da Biblioteca de Santarém, faltando ainda cerca de 1.500, doados por Lima Rodrigues. Guida Botequim lembrou ainda a cedência de obras de arte por parte da pintora Filomena Custódio, residente na Póvoa e presente na homenagem.

Desportista, editor, “obcecado pela escrita”

Coube a Domingos Cabral, a tarefa de apresentar Lima Rodrigues. Ficou clara a versatilidade do escritor, com uma vida preenchida, dedicada aos livros e à leitura, mas também aos jornais e ao desporto.

Lima Rodrigues nasceu em Torres Vedras, foi desportista, destacando-se no atletismo, futebol e sobretudo no hóquei em patins, chegando a guarda-redes da Selecção Distrital. Nesta modalidade teve uma carreira longa, que terminou nos Belenenses, aos 40 anos.

Foi contabilista, editor-livreiro (Galeria Panorama), crítico literário, proprietário e director de Revista, coleccionador e negociante de antiguidades, director de Jornal, produtor pecuário, membro de uma Organização Defensora da Paz Mundial, que o levou a viajar por vários países.

“Escreveu o primeiro conto aos 10 anos, que foi publicado aos 12. Nos fins da década de 50, recomeça a escrever. E muito, com intensidade, em jornais, revistas, para programas de rádio, lembrou Domingos Cabral, com quem Lima Rodrigues, juntamente com Celestino Santos, Oliveira Beja e Ramiro Pires, funda, em Santarém, a Tertúlia Policial Ribatejana, “a primeira das muitas que nos anos subsequentes vieram a ser criadas por todo o país” e que tinha sede em sua casa.

Nos anos de 1960, 61 e 62 conquistou o 1º prémio na modalidade de Conto, no popular programa de Rádio, denominado “V Programa”, de que o não menos popular Inspector Varatojo foi responsável, durante 25 anos, na Emissora Nacional.

Entre muitas outras facetas, que foram cuidadosamente apresentadas por Domingos Cabral, Lima Rodrigues criou a Editorial Panorama onde editou “muitas centenas de livros, em várias colecções, das mais diversas temáticas”. E, também, a Galeria Panorama, onde expuseram muitos e conceituados artistas, e que registou a particularidade de ser a primeira a possuir um bar nas suas instalações, frequentado por figuras gradas da nossa literatura como Natália Correia, Dórdio Guimarães, José Carlos Ary dos Santos, entre outros.

Criou a Tertúlia do Livro, iniciativa editorial de mérito que editava preciosidades bibliográficas, apenas destinadas a assinantes. Foi director do Jornal do Oeste, de Rio Maior, cujo título ainda é hoje de sua propriedade.

Domingos Cabral não esqueceu alguns episódios vividos pelo homenageado e que o mesmo revelou na primeira pessoa: “Cheguei a fechar-me na casa de banho, nos tempos de estudante e já como empregado, para escrever na hora. Era uma coisa que me obcecava. Por vezes, estou num café e recorro a guardanapos para expressar as ideias. É um género de febre que a gente sente e que nunca se consegue aguentar. Não era capaz de viver sem escrever e sem ler”.

Antes da demorada sessão de autógrafos, Lima Rodrigues voltou a deixar bem claro a todos os presentes: “só quero que estimem os meus livros”.

JPN

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