O livro “A Quinta da Gafaria – Razões Históricas de um Topónimo D’Além Tejo” foi apresentado ontem, ao final da tarde, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Santarém, em mais uma sessão do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, responsável pela edição da obra.
Da autoria do investigador António Monteiro o livro procura desmistificar a história da Quinta, até aqui assente numa designação que atravessou séculos e alimentou uma convicção enraizada na memória colectiva.
Só que a investigação conduzida por António Monteiro aponta noutro sentido: a Quinta da Gafaria, no concelho de Almeirim, nunca foi um espaço de acolhimento de leprosos. No seu terceiro livro, o autor revisita fontes documentais que remontam à Idade Média para desmontar um equívoco histórico e explicar a verdadeira origem de um topónimo ligado ao Hospital de S. Lázaro de Santarém, numa obra que cruza investigação arquivística, história local e identidade regional.
Em entrevista ao Correio do Ribatejo, António Monteiro reconhece que durante muito tempo, a designação “Gafaria” esteve associada à ideia de um espaço de acolhimento de leprosos, mas a sua investigação aponta noutro sentido: “Hoje em dia pode dizer-se, taxativamente, que a dita “Quinta da Gafaria”, nunca em tempo algum, foi uma Gafaria ou Hospital para leprosos. O topónimo “Quinta da Gafaria” foi sendo designado durante séculos porque as casas e terras, pertenciam desde tempos imemoriais à dita “Gafaria”, localizada no Cerco de S. Lázaro, em Santarém. A investigação prova isso mesmo”, assegura o autor, explicando ainda o que o levou a centrar-se na Quinta da Gafaria e neste topónimo em particular: “em Outubro de 2019, fui contactado como responsável pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Santarém pela Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva porque tinham na sua posse para restauro, três pinturas de grandes dimensões que tinham sido descobertas na Quinta da Gafaria, aquando das obras de requalificação de uma das dependências do edificado, obras de arte que haviam estado emparedadas durante séculos”.
Dado que a Gafaria localizada no Cerco de S. Lázaro até meados do século XIX, havia sido administrada pela Misericórdia de Santarém e tendo a Santa Casa um Arquivo Histórico com bastante documentação sobre esse hospital, poderia existir ali referências à encomenda ou compra das ditas telas, o que deu início ao processo de investigação do autor.
“Tempos mais tarde iria perceber que a Misericórdia nunca tinha encomendado as pinturas nem nunca tinha estado relacionado com elas.
Também mais tarde percebi que a única coisa que liga a Quinta da Gafaria à Misericórdia, é o facto de a Santa Casa ter sido administradora, não só do Hospital de S. Lázaro (ou Gafaria), como de todos os seus bens de raiz, desde 1611”, afirmou António Monteiro ao Correio do Ribatejo.
A sua investigação assenta em profundas fontes documentais que compõem a bibliografia. As mais importantes resumem-se a uma dezena de códices. Neles se incluem alguns livros do Tombo do Hospital de S. Lázaro (com datas de 1496 e 1500), livros de Notas de Tabeliães (séculos XVII e XVIII), de alguns livros de Foros da Santa Casa (século XIX), e ainda o livro mais antigo deste fundo arquivístico designado como “Treslado de Documentos Eclesiásticos concedendo privilégios aos Leprosos (1231-1501)”.
A obra foi apresentada pelo Mestre Luís Mata e a sessão contou com a presença de muitos historiadores e amigos de António Monteiro que quiseram assinalar a edição de mais uma importante obra que o investigador oferece à cidade.
(Ler notícia desenvolvida na edição impressa do Correio do Ribatejo de 24 de Abril de 2026).

