Mais de uma centena de militantes do BE de Santarém anunciaram hoje a sua desvinculação do partido, criticando a estratégia política pós-geringonça e acusando a direção de afastar críticos e adoptar práticas que “envergonhariam muitos patrões”. 

Numa carta enviada à comunicação social, cerca de 110 aderentes do BE da concelhia de Santarém, nos quais se inclui o ex-deputado à Assembleia da República Carlos Matias, defendem que o partido “há muito se afastou da opção de construir um forte polo à esquerda, alternativo ao rotativismo do bloco central” e argumentam que a geringonça, “uma opção adequada numa conjuntura específica, impregnou irremediavelmente a linha estratégica do BE”.

“As propostas políticas são sistemática e convenientemente buriladas, quando não metidas na gaveta, na esperança de virem a ser aceites pelo PS”, criticam estes bloquistas, que também defendem que “a luta dos trabalhadores como fundamental em qualquer transformação de fundo foi substituída por agendas identitárias e parciais, importantes sem dúvida, mas de limitado alcance”.

Considerando que “o gume cortante da intervenção inicial do BE há muito embotou”, estes militantes notam que ao longo dos últimos anos têm levado as duas críticas aos órgãos máximos do partido, mas “a maioria da direção do Bloco de Esquerda rejeita-as sistematicamente”.

“Está no seu direito. Mas, depois, nunca assume a responsabilidade pelas sucessivas derrotas eleitorais, foge aos balanços, justifica-se sempre com as dificuldades da “conjuntura””, lamentam.

As críticas à coordenação, liderada por Mariana Mortágua, continuam, com estes bloquistas a acusar a direção de desencadear “um processo de progressiva centralização das decisões, afastando vozes incómodas ou não controladas pelo aparelho”. 

“A diversidade do BE, outrora vista como uma riqueza, hoje é encarada como uma ameaça”, lê-se no comunicado. 

Estes bloquistas afirmam ainda que os funcionários do partido “são vítimas de práticas que envergonhariam muitos patrões” e que o caso das recém-mães que foram despedidas em 2022 e que abalou o partido “não é único”.

“Quadros com provas dadas são destratados pela intriga de corredor. Quando tal não basta, recorre-se a insinuação difamatória ou inventa-se um processo disciplinar interno”, é acrescentado.

Na opinião destes militantes, “o Bloco de Esquerda vem deslizando placidamente para o velho centralismo democrático, castrador e sem democracia”. 

Nesta nota, os militantes afirmam ainda que “a escolha dos candidatos a deputados pelo distrito, estatutariamente da competência das Assembleia Distrital, só é acatada quando o escolhido é de um dos grupos que dominam o partido”, que a constituição de núcleos “é ferreamente controlada pelo aparelho”, que “órgãos estatutários, como a Comissão Política, são esvaziados por órgãos não estatutários, como o Secretariado Nacional” e que a distribuição de recursos e funcionários pelas organizações distritais depende da fidelidade ao centro único e à “linha oficial”.

Apesar das críticas, este grupo de bloquistas diz ter defendido, durante anos, “a unidade na diversidade, traço matricial do BE, e propondo alternativas políticas que evitassem o colapso crescente”.

“Infelizmente, chegámos a um ponto em que consideramos definitivamente bloqueado qualquer esforço regenerador. Por isso saímos”, sustentam.

Em fevereiro, também um outro grupo de cerca de 70 militantes do BE anunciou a sua intenção de se desvincular do partido, por divergências com a direção nacional e algumas das mesmas críticas hoje deixadas por estes militantes de Santarém.

Nas eleições legislativas antecipadas deste mês, os bloquistas obtiveram o seu pior resultado de sempre em eleições legislativas, com menos 154.818 votos face a 2024 e passando de cinco parlamentares para uma deputada única: a líder, Mariana Mortágua, cabeça-de-lista por Lisboa.

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