O investigador Miguel Castanho considera que, pela transmissão minoritária em Portugal, não há motivo para uma preocupação acrescida com a variante Delta Plus do novo coronavírus e os dados indiciam que pode não ser tão contagiosa.

Embora tenha sublinhado que, comparativamente à variante Delta (associada à Índia), com maior prevalência em Portugal, sobre a variante Delta Plus (mutação detectada no Nepal) “não existem estudos tão abundantes”, o cientista referiu que esse dado pode indicar que, “em relação à Delta, em si, não é tão transmissível”

“Pelos dados disponíveis até agora, creio que não é motivo para preocupação acrescida”, disse, em declarações à agência Lusa, o investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

O professor catedrático de bioquímica acentuou que a preocupação a ter é a progressão dessa variante e perceber se está em expansão, para se avaliar a sua perigosidade na interacção com as células humanas e com os anticorpos.

“Para efeitos de análise de maior transmissibilidade ou perigosidade do vírus, Portugal é um caso em que se pode dizer que, de facto, a variante nepalesa não tem vantagem sobre a variante indiana, porque elas apareceram as duas em Portugal. A indiana está-se a tornar largamente dominante e a outra continua minoritária”, comparou o investigador.

Miguel Castanho explicou que a Delta Plus “tem uma mutação que já existia na mutação na variante da África do Sul (Beta), só que mutação nepalesa surge cumulativamente com as mutações da variante indiana”.

“Aparentemente ela não é tão distinta assim da variante Delta, porque tem uma mutação a mais, mas essa mutação não lhe conferiu uma grande alteração estrutural na proteína. Pelo menos, não tem efeitos de interacção com as células humanas, interacção com anticorpos”, acentuou o investigador, para quem, “é difícil dizer, à partida”, se é mais transmissível.

Segundo Miguel Castanho, a alteração na proteína, que origina a nova mutação, pode ter um impacto na interacção com as células humanas e com os anticorpos e pode, portanto, conduzir a infecções, “mas à partida nem é possível prever, na nossa perspectiva de humanos, se é para melhor ou para pior”.

Ter ou não mais uma mutação “não é muito importante”, mas sim o seu impacto e se essas alterações na forma da proteína “acabam por prejudicar a ligação dos anticorpos”.

“Se prejudicar a ligação dos anticorpos, se os anticorpos vierem da vacinação, quer dizer que as vacinas perdem um pouco de eficácia. Se os anticorpos vierem de uma infecção anterior, com outra variante, isso quer dizer que a probabilidade de reinfecção é maior”, acrescentou o professor catedrático de bioquímica.

O investigador referiu que “a mutação nepalesa, que aparece em conjunto com outras mutações, não é possível dizer se confere ao vírus características muito diferentes da Delta (indiana)”.

Miguel Castanho enfatizou ainda não ser possível, sem avaliar a sua expansão, “dar logo o salto do tipo de mutação para os efeitos sobre a doença”.

“Não se consegue prever que se ocorrer a mutação do aminoácido X para Y numa posição da proteína, o que é que isso vai querer dizer em termos de doença”, sublinhou o cientista.

De acordo com informação adiantada pelo INSA à Renascença, foram já detectados em Portugal 24 casos de infecção pela variante Delta Plus, que era anteriormente referida como a variante do Nepal. O INSA acrescentou ainda que esta mutação representa somente 2,5% do total de casos de infecção pela variante Delta, que já é dominante na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde constitui cerca de 70% do total de casos de infecção detectados.

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