Miguel Maat: “Ao aprender a tocar Didgeridoo assumi uma mensagem ecológica que me tem acompanhado

Miguel Maat é o nome artístico de Miguel Sereno, um músico multi-instrumentalista Ribatejano que reside no Entroncamento e que viveu até aos 22 anos na localidade de Vale da Pedra, no Cartaxo. Tem no Didgeridoo (instrumento aborígene Australiano) o seu instrumento de eleição. Segundo Miguel, este é um instrumento que tem potencialidades musicais, terapêuticas e transmite uma mensagem ecológica aos espectadores.

Como é que aparece a música na sua vida? Sempre fez parte da minha vivência. A minha mãe era uma apaixonada pelo piano e ensinou-me os primeiros acordes quando eu andava no jardim infantil. Mais tarde, já com 14 anos, o meu pai comprou-me a primeira guitarra eléctrica e respectivo amplificador (uma Ibanez S-Series preta com um Marshall Valvestate VS-100) e a partir daí soube que era um caminho que nunca iria abandonar.

O Colégio Militar foi importante para a sua formação musical? Certamente. Pertenci durante oito anos ao Coro do Colégio Militar e participei em todos os eventos durante esse período, com destaque para os encontros de coros com o Instituto de Odivelas e os Pupilos do Exército. Para além disso foi com 12 anos nas camaratas do Colégio que aprendi a tocar viola. Aos 14 já pertencia à banda Rock da Instituição e comecei a tocar em eventos internos, festas de Escolas Secundárias e na Freguesia de Carnide.

O que é o Didgeridoo e como surge a paixão por este instrumento? O Didgeridoo é um instrumento aborígene Australiano considerado o instrumento de sopro mais antigo do mundo. Os instrumentos tradicionais designados Yidaki, foram introduzidos em cerimónias rituais, desde tempos imemoriais, pelo povo Yolngul sendo considerado um instrumento sagrado. A sua técnica mais característica consiste na respiração circular, que permite manter um fluxo contínuo de ar de forma a não interromper o som enquanto se respira. A primeira vez que tive contacto com as sonoridades deste instrumento (para além do tema de abertura do clássico filme Crocodilo Dundee de 1986) foi no Festival Sudoeste, creio que pelas mãos de Winga Kan dos Blasted Mechanism. Muito mais tarde em 2012 senti que a minha música necessitava de um instrumento que se relacionasse com uma mensagem ecologista e de defesa do planeta e foi assim que contactei a Associação Portuguesa de Didgeridoo que me indicou um músico em Lisboa. Foi com o Rúben Branco que dei os primeiros passos na prática e na construção dos instrumentos, sendo uma pessoa que merece todo o meu respeito pela dedicação que tem mantido ao longo destes anos na sua divulgação. E assim, aquilo que começou como um simples complemento musical, rapidamente se tornou numa paixão e a partir daí comecei a andar com Didges para todo o lado!

Também dá formações e workshops com Didgeridoo. Qual é o objectivo? Talvez faça mais sentido começar pela construção. Em determinado momento e porque é um instrumento muito particular (uma nota base característica) tive necessidade de construir alguns Didgeridoos para combinar com os temas que compunha (na altura os Slides-Didges ainda estavam em evolução e os que existiam eram muito dispendiosos). Posso dizer que talvez 25% da minha evolução tenha resultado de todas essas experiências de construção (curiosamente no início tinha de pedir à minha mulher para os tocar para verificar se estavam afina
dos, pois nunca conseguia tirar sons à primeira). Entretanto senti que face às suas potencialidades musicais e terapêuticas tinha a responsabilidade de partilhar com outros este instrumento que mudou significativamente a minha música e mesmo a minha vida. Foi assim que surgiu numa primeira fase a Escola de Didgeridoo – Didge Creature e posteriormente o projecto Relax”Vibr”ation, dedicados respectivamente à formação e terapia do som. Pelo caminho, algumas experiências em Escolas do 1º e 2º ciclos mostraram que a partilha deste conhecimento é um processo que vale realmente a pena manter. Considero que outros 25% da minha evolução resultaram da vontade de querer explicar aos outros como fazer aquilo que eu já sabia, mas que não sabia explicar. É realmente um prazer chegar ao fim de um workshop e ver a felicidade na face daqueles que inicialmente diziam não ser possível. E aqui parafraseio um músico de Didgeridoo português com o qual tive alguns encontros e que inclusive me apoiou no início da descoberta deste instrumento – Rodrigo Viterbo – que diz que a expressão correcta é “ainda não consigo”.

Já lançou três álbuns e uma EP, como é que se inspirou para cada um deles? O meu primeiro álbum “No silêncio dos teus olhos” lançado em 2012 foi uma colectânea de algumas das músicas que havia feito até ao momento. Considero que é um álbum com uma identidade distinta dos demais e que marcou o início de um complexo processo de evolução musical. Este trabalho em concreto roda em torno das minhas experiências de vida, sendo que diversas letras foram também escritas pela fantástica musicista e escritora Ana Cláudia Domingos. Nesse mesmo ano decidi aprender a tocar Didgeridoo e em 2014 lancei um EP homónimo com integração deste instrumento e onde assumi uma mensagem ecológica que desde então me tem acompanhado. Embora a minha música continuasse a evoluir este foi um marco fundamental e um ponto sem retorno. Em 2016 lancei o álbum ANAK-BAUK, um álbum com uma plena consciência ambiental que flui pelos campos da World Music e que apoia a Survival International, uma Instituição que se dedica à protecção das Tribos e Populações Indígenas ao redor do mundo, incluindo o povo Aborígene Australiano. Já em 2018 com o álbum Elektrum Fantasy, a mensagem ambiental cresce de tom e faz referência à necessidade de agir urgentemente em defesa do nosso planeta, ao mesmo tempo que faz uma reflexão sobre a coragem de assumir as nossas diferenças e utilizar essas diferenças em prol do nosso futuro. Lá para o fim de 2019 será lançado um novo álbum…

Já deu vários concertos, qual é a receptividade das pessoas à sua música? Eu sinto-me bem e acho que é reflexo de que o público se sente bem. Antes dos concertos é habitual ouvir aqueles comentários: “mas… o que é que ele vai fazer com aqueles paus?”, ou para aqueles mais conhecedores “será que o didgeridoo fica bem com aqueles instrumentos?”. Eu acho divertido e faz o desafio subir de tom. No final dum concerto a sensação é a do dever cumprido. Do palco acompanho com um carinho especial a transformação dos rostos que muitas vezes evoluem de incrédulos, a surpresos e por fim rendidos! E aqui deixo um agradecimento especial a todos os que já partilharam comigo estes momentos de entrega musical e que contribuíram para a minha vontade de continuar este trajecto.

O Miguel não está somente ligado à música, envolvendo-se em projectos ambientais. Que importância tem para si este assunto? É claramente um tema que merece toda a nossa atenção e envolvimento. Nessa área tenho-me envolvido em duas temáticas principais: uma mais direccionada para o factor humano, no âmbito da protecção das tribos e populações indígenas que considero serem os verdadeiros defensores do seu território, e uma mais direccionada para a protecção das espécies animais, especificamente através de uma parceria com a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) cuja actividade representa uma mais-valia no contributo para um mundo mais sustentável.

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