O movimento SOS Alcanena está a recolher assinaturas e a elaborar um histórico sobre os problemas de poluição no concelho para pedir à Comissão Europeia que actue e não deixe a população “entregue ao seu destino”.

Ricardo Rodrigues, um dos dinamizadores do “movimento informal” criado na sequência de uma reunião convocada através das redes sociais, realizada no passado dia 18 de Outubro, disse à Lusa que a “gota de água” aconteceu na sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Alcanena (Santarém), na qual as várias entidades (Câmara Municipal, organizações de industriais dos curtumes, Agência Portuguesa do Ambiente, Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente da GNR, delegado de saúde) voltaram a dar as suas versões dos factos e a deixar a população “sem respostas”.

“Vivo aqui há 30 anos e dos industriais e da autarquia já não espero nada. Andam há 40 anos para resolver o problema e cada vez está mais grave”, disse, salientando que o que as pessoas querem saber é quais são os efeitos na sua saúde de andarem a respirar sulfeto de hidrogénio, um “gás tóxico” produzido nos sistemas de esgotos.

“Estamos muito preocupados com o ar que andamos a respirar”, afirmou, acrescentando a convicção de que Alcanena vive não só um problema de poluição atmosférica, mas também um problema de saúde pública.

A petição, que desde finais de Outubro reuniu cerca de mil assinaturas, é dirigida ao comissário europeu para o Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas, Karmenu Vella, e visa não só o apuramento de responsabilidades, como também a garantia de que será feita uma “monitorização dos maus-cheiros e emissões de gases prejudiciais à saúde, nomeadamente sulfeto de hidrogénio, por um período de, no mínimo, cinco anos”.

Frisando que muitos dos investimentos do sistema de saneamento de águas residuais de Alcanena foram feitos com fundos comunitários, Ricardo Rodrigues entende que cabe à União Europeia fazer pressão para que os responsáveis nacionais cumpram as suas responsabilidades.

Até dia 06 de Dezembro, o texto da petição está em 35 espaços de 25 localidades, quase todas do concelho de Alcanena, mas também de outros afectados pelo problema, para a recolha de assinaturas, estando, ao mesmo tempo, a ser reunido o histórico de episódios e de ocorrências, atestados médicos, fotos e atas de reuniões, disse.

O objectivo é entregar a petição no início de 2020 e chegar às 4.000 assinaturas para que o assunto volte de novo à Assembleia da República, acrescentou.

Ricardo Rodrigues, jornalista na Abarca, um jornal local, salientou que o cheiro sentido nas últimas ocorrências (no verão de 2017 e de meados de Agosto último até há cerca de duas semanas) “é diferente do cheiro a ‘porcaria’ dos anos 90”.

“Agora é um cheiro químico”, disse, referindo os inúmeros casos de bronquite respiratória que conhece e que disse ter sido realçado na exposição feita pelo delegado de saúde na Assembleia Municipal.

“Ninguém está contra a indústria de curtumes, mas de que vale um emprego que mata?”, questionou, pedindo que se acabe com o jogo de “pingue-pongue”, se assumam responsabilidades e que se resolva de vez o problema.

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