João Costa e Carolina Marques, os “Moços do Campo”, decidiram colocar mãos à terra e construir, de raiz, uma iniciativa empresarial na área agrícola que agora começa a dar passos mais firmes, pretendendo comercializar produtos biológicos de alta qualidade aliando uma componente turística.

Como surgiu este vosso projecto?

Os Moços do Campo é um projecto que nasce da estreita relação entre o espírito empreendedor da Carolina e a necessidade de interacção de uma forma mais direccionada. Isto é, chegou a uma certa altura da nossa vida que quando achávamos que sabíamos tudo sobre “o viver no campo” aparecia sempre mais um desafio, mais um problema, mais uma necessidade.

Então achámos que devíamos mostrar de forma transparente o que é realmente viver no campo. Criou-se uma página nas redes sociais e fomos crescendo como “agroinfluencers” (palavra que acabei de inventar).

Qual o papel dos jovens agricultores neste sector?

Os jovens têm um papel importantíssimo no sector agrícola na medida em que podem e devem desenvolvê-lo, inová-lo e acima de tudo preservá-lo. As alterações climáticas e a insustentabilidade ambiental, social e económica que o rápido crescimento populacional está a causar é evidente e é a nossa geração tem de mudar essa tendência ou acaba por sofrer com ela. Esta geração é uma geração formada e informada e deve usar essa capacidade para inverter a tendência à qual assiste todos os dias. Já muito está a ser feito e cada vez mais e melhor, mas muito ainda há por fazer. E se isso implicar mudar apenas um mau hábito ou uma técnica mais convencional então que todos mudemos um desses hábitos para que juntos façamos algo mudar de vez.

Que desafios tem, actualmente, um jovem agricultor?

Acreditamos que, hoje em dia, para se ser agricultor também se tem de ser gestor. A pressão para uma agricultura cada vez mais “perfeita” pode ser um grande desafio para um jovem iniciante. Existe uma enorme exigência e controlo sobre uma produção agrícola e o agricultor já não é aquele que planta mais uma couve porque já sabe que os caracóis vão aparecer, o agricultor é aquele que calcula milimetricamente todos os passos que vai dar, todas as despesas que vai ter e todo o lucro que vai conseguir.

Acham que estamos a perder qualidade nos produtos em função da quantidade?

A resposta é muito fácil, sim! A relação qualidade e quantidade na agricultura é maioritariamente negativa. É muito obvia a fraca qualidade dos produtos quando provamos os produtos “caseiros” que não cresceram com os “idas” (pesticidas, insecticidas, fungicidas…). Não se pode comparar a produção caseira à produção industrial em ponto nenhum, nem em qualidade nem em quantidade, mas a verdade é que o factor qualidade é o mais apreciado por quem presa por uma alimentação saudável e ambientalmente responsável.

Que papel atribuem às novas tecnologias para o modelo de negócio que estão a criar?

A revolução tecnológica foi o ponto de viragem na história do sector agrícola. Para além de extremamente útil é desenvolvida de forma muito estratégica e direccionada para o agricultor. No nosso caso a tecnologia mais avança não será utilizada porque não irá fazer sentido. Lá está, voltamos ao mesmo ponto, apenas produções industriais merecem um investimento de tal envergadura. Para além da questão dimensional e financeira queremos preservar algumas tradições típicas da nossa cultura.

Vêm-se a fazer isto para o resto da vida?

Com o abanão que levámos nos últimos dois anos é muito difícil definir o que queremos fazer para o resto da vida. A verdade é que nos sentimos genuinamente felizes a fazer o que fazemos e gostamos de ter o nosso pequeno habitat natural onde conseguimos criar um microambiente esperançosamente sustentável, onde não existe destruição, desperdício ou morte. Se tivéssemos de responder, sim ou não, a resposta mais acertada e provável seria sim, porque neste momento é o que queremos fazer e fazê-lo com gosto.

Que projectos futuros têm para a vossa exploração?

A imagem dos Moços do Campo é conhecida como o casalinho que tem umas ovelhas, e umas galinhas, fez um vinho tinto e partilha tudo no Instagram. Então este será o plano, vamos continuar a ter animais como as ovelhas, as galinhas, os patos, os porcos e os burros, vamos produzir mais e melhor vinho tinto e branco e vamos partilhar, incentivar e sensibilizar os nossos seguidores para uma vida mais sustentável e saudável. Temos como principais valores a sustentabilidade ambiental e a preservação da natureza, a partilha de conhecimentos e incentivo à criação dos próprios alimentos e, particularmente, a conservação das raças autóctones portuguesa e todo o contexto que a engloba.

Que mensagem deixariam aos jovens que se queiram instalar na agricultura?

Muita forcinha nas costas e creme nas mãos no final do dia. Comprem uma cinta e desfrutem das coisas boas que o campo nos traz para não desmotivarem. É tão bonito ver a natureza crescer sozinha. Aprende-se muito a observá-la e acreditamos que a maior lição que a natureza nos pode dar é aprender a respeita-la.

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