Dois meses após a depressão Kristin, muitas empresas do distrito de Santarém continuam a enfrentar prejuízos elevados e recuperação lenta, com apoios públicos considerados insuficientes e atrasos nos pagamentos a agravar o risco de falências, alertou hoje a Nersant.
“A avaliação mantém-se: reconhecemos o esforço do Governo em lançar instrumentos de apoio, mas continuam a estar aquém da dimensão real das necessidades no terreno. O desequilíbrio entre a rapidez com que os prejuízos ocorreram e a lentidão na chegada dos apoios continua a ser demasiado grande”, disse à agência Lusa o presidente da Nersant, Rui Serrano.
A Associação Empresarial da Região de Santarém (Nersant), com sede em Torres Novas, no distrito de Santarém, representa cerca de 4.000 empresas associadas, num universo regional de aproximadamente 50.000, maioritariamente micro e pequenas empresas, que foram particularmente afetadas pelos danos em instalações, equipamentos e quebras de atividade.
Segundo o levantamento realizado em articulação com entidades regionais, os prejuízos globais no tecido empresarial ascendem a cerca de 60 milhões de euros, refletindo tanto danos diretos como perdas de produção e faturação, num cenário em que a recuperação permanece desigual entre setores e territórios.
“Dois meses depois, o impacto económico continua a fazer-se sentir de forma muito relevante, sobretudo em concelhos como Ourém e Ferreira do Zêzere. Passámos de uma fase de choque para uma fase mais silenciosa, mas igualmente séria, marcada pela avaliação de prejuízos, renegociação de contratos e dificuldades em retomar a normalidade”, explicou Rui Serrano.
Os setores da agroindústria, indústria transformadora, logística e armazenagem estão entre os mais afetados, a par da construção, comércio e serviços localizados em zonas industriais mais expostas, enfrentando ainda constrangimentos nas cadeias de abastecimento e dificuldades na reposição da capacidade produtiva.
“As empresas mais intensivas em capital, com maquinaria, instalações ou ‘stocks’ danificados, são as que continuam com maiores dificuldades, sobretudo quando dependem de cadeias de valor que ainda não recuperaram totalmente”, referiu o responsável.
Apesar das medidas entretanto anunciadas, a associação empresarial considera que os apoios continuam a não chegar de forma suficiente e abrangente ao tecido empresarial, apontando limitações nos critérios de acesso e na rapidez de execução.
“Chega, mas não chega a todos, e não chega com a rapidez desejável. Há empresas que conseguem beneficiar dos apoios, mas outras sentem-se excluídas, seja por critérios demasiado estreitos, seja pela dificuldade em encaixar a sua realidade nas tipologias existentes”, afirmou.
A burocracia associada aos processos de candidatura é outro dos entraves identificados, sobretudo para micro e pequenas empresas, que constituem a maioria do tecido empresarial da região e que têm menos capacidade administrativa para responder às exigências formais.
A linha SIFIC – Regiões afetadas por tempestades, recentemente lançada com foco na inovação, é vista como um instrumento positivo, mas insuficiente para responder às necessidades mais imediatas das empresas afetadas.
“A principal lacuna é o desfasamento entre aquilo que as empresas precisam agora – garantir sobrevivência e liquidez – e o tipo de instrumentos disponíveis, mais orientados para objetivos estratégicos de médio prazo”, explicou.
O atraso nos pagamentos de apoios já aprovados é outro fator crítico, que pode comprometer a própria sobrevivência de empresas viáveis e agravar endividamento de curto prazo, juros e incumprimentos com fornecedores.
“É absolutamente urgente que os pagamentos cheguem rapidamente. Uma decisão aprovada que demora meses a ser paga perde grande parte da sua eficácia. Em contexto de calamidade, o tempo é um fator económico crítico e pode levar empresas viáveis a fechar portas”, alertou Rui Serrano.
Para evitar que a crise se transforme numa crise estrutural do tecido empresarial, a associação sugere medidas concretas: reforço de apoios a fundo perdido, linhas de crédito com garantias públicas e períodos de carência alargados, e flexibilidade máxima na reprogramação de incentivos já em curso.
“Se não houver respostas rápidas e proporcionais, muitas destas empresas não conseguirão aguentar a pressão. A sua sobrevivência é essencial para comércio, indústria e serviços locais”, alertou Rui Serrano.
No plano estratégico, o presidente da Nersant sublinhou a necessidade de preparar o tecido empresarial do Médio Tejo e da Lezíria para fenómenos futuros, integrando risco climático, adaptação e prevenção nas decisões de investimento e na própria cultura empresarial.
