Rui Manhoso completou recentemente 80 anos de idade. O futebol corre-lhe nas veias e começou na rua, em plena Avenida dos Combatentes. Mais tarde, foi um dos fundadores do Atlético Clube da Avenida, chegou a jogar federado nos Leões de Santarém e no União de Santarém, clube que, anos mais tarde, viria a dirigir.

No próximo dia 12 deste mês, emprestará o nome a uma artéria da cidade (junto à Escola Alexandre Herculano). Uma homenagem que o próprio agradece: “Tenho consciência de como scalabitano ter tentado sempre não negar a minha origem e colaborar no que me é solicitado.

Se isto valeu ser lembrado, bem hajam pelo reconhecimento”, refere nesta entrevista. Presidente da Associação de Futebol de Santarém durante 24 anos foi convidado para vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, cargo que hoje ocupa, supervisionando os torneios que se realizam na base associativa, como é o caso do ‘Torneio Lopes da Silva’ que, considera, continua a ser uma boa ‘montra’ do futebol de formação no nosso país.

Sobre o ‘desporto rei’ que se pratica na actualidade, deixa a mensagem: “O ideal é que o futebol seja jogado sempre no respeito pela verdade”.

O futebol corre-lhe nas veias: ainda jovem, foi um dos fundadores do Atlético Clube da Avenida, em Santarém, chegou a jogar federado nos Leões de Santarém e no União de Santarém, clube que, anos mais tarde, viria a dirigir. Que memórias tem desses tempos?

Ao nascer na Avenida dos Combatentes, local onde muitos jovens brincavam e jogavam o chamado “futebol de rua”, o entusiasmo desse vasto grupo levou-nos a criar o Clube citado, em que a modalidade prioritária sempre foi o futebol.

Mais tarde, inscrevemo-nos na Associação de Futebol de Santarém, utilizando o Campo Chã das Padeiras. Lembro-me de ter gostado desta minha nova faceta, mas longe de pensar que um dia poderia ser Dirigente Desportivo.

Durante 24 anos, Rui Manhoso foi presidente da Associação de Futebol de Santarém (AFS), cargo que deixou de exercer no início de 2012. Considera que saiu pela “porta grande”?

É sempre difícil fazer essa afirmação, já que a quem me dediquei poderá ter essa opinião melhor do que eu, mas estou consciente que foram dos melhores períodos da minha vida e dos inúmeros amigos que me acompanharam. A AFS conheceu nessa altura elevados momentos de grande significado, tais como, a realização do Portugal – Espanha, em Torres Novas, em Selecções A. As jornadas de amizade entre Santarém e Covilhã com a colaboração de um saudoso amigo Vitor Baeta, entre outros. O maior torneio da região que durante anos, a nível nacional, se disputou em todo o distrito, o “Torneio Vale do Tejo”, com bons resultados desportivos e financeiros para a AFS. Aqui destaco uma colaboração muito especial de todo o pessoal da Associação e de Alfredo Silva, no marketing.

Aos sábados, na cidade de Santarém, um programa que foi um êxito no Teatro Rosa Damasceno, durante muitos meses, “A visita do Agapito” e não posso deixar de destacar o papel de José Ramos, bem conhecido encenador e actor do Teatro em Santarém. Talvez por isso e muitas outras organizações feitas, as minhas direcções eram dominadas por: “A direcção dos miúdos”.

Ao longo das mais de duas décadas em que dirigiu o futebol distrital foram muitos os momentos que certamente o marcaram. Quer destacar algum deles?

A minha saída da Associação com a aceitação do convite do Presidente da Federação, Dr. Fernando Gomes, para fazer parte do elenco da Federação. Se é certo que anteriormente tive possibilidade de o ter feito, esta foi a hora que aceitei, mas fiquei muito feliz pelo meu amigo Francisco Jerónimo ter aceite ocupar a responsabilidade desse lugar.

Rui Manhoso assumiu há cerca de dez anos uma das vice-presidências da FPF. Que balanço traça dessa sua actividade?

Penso que a responsabilidade deste cargo se ficou a dever e muito à minha maneira de ser e à amizade que tinha com todos os dirigentes associativos, numa altura em que o relacionamento entre Associações e a Federação não era o melhor.

Esse objectivo foi facilitado por um Presidente da Federação que ficou mais atento para os problemas que existiam e disposto a ouvir os meus ex-colegas.

É responsável pelos torneios que se realizam na base associativa, como é o caso do ‘Torneio Lopes da Silva’. Continua a ser uma boa ‘montra’ do futebol de formação no nosso país?

Sem dúvida alguma. É uma experiência interessante que conhecia da parte associativa e tentei, com pequenas alterações, rever alguns aspectos no seu todo. Actualmente, este Torneio tem como ponto fundamental a observação dos técnicos distritais e dos seus departamentos na procura dos melhores em cada região e termina com a observação dos técnicos nacionais presentes, escolhendo 60 jovens que no início da época são chamados ao nosso centro de estágios. Será desse lote, aproximadamente, 20 serão a base da nossa Selecção Sub-15. Há também um trabalho interessante feito pelo Conselho de Arbitragem Nacional pelos árbitros jovens. O bom exemplo deste torneio iniciou outros torneios distritais com as mesmas finalidades no futebol feminino e no futsal.

É defensor de uma nova mentalidade no futebol, sem rivalidade, onde todos possamos jogar, sem batota, com as mesmas condições. Acha verdadeiramente que isso é possível? Ou é mais uma miragem?

O ideal é que o futebol seja jogado sempre no respeito pela verdade.

Muito se fala sobre a reestruturação dos campeonatos. Nomeadamente ao nível da redução do número de clubes a disputá-los. A verificar-se valorizaria as diferentes competições?

É possível que se venha ainda a fazer algumas alterações, mas penso que as últimas introduzidas já significam uma melhoria acentuada.

Considera as Associações de Futebol o ‘braço armado’ da Federação. Como define o seu papel na defesa dos clubes seus associados e a rivalidade existente entre elas?

Se elas são o “braço armado” da Federação, é indiscutível o seu papel. Para isso muito tem contribuído a Federação, no apoio à sua organização, para melhor servir os Clubes. Rivalidades entre elas são agora menos evidentes, mas sem dúvida que temos dois grupos bem distintos, as chamadas pequenas Associações e as grandes. Contudo, o nosso tratamento é igual.

O futebol dito amador continua a ser o “parente pobre”?

Em minha opinião tem-se tentado diminuir essa afirmação, mas em consciência há ainda muitos clubes com organizações muito difíceis em que a carolice de um ou outro dirigente impera. Os clubes têm de ser constituídos por dirigentes, se possível jovens, com novas ideias no seu desenvolvimento.

Fala-se num país dividido entre o Norte e o Sul, também ao nível do futebol. Acha que esse fosso está cada vez mais cavado? E o clima de ‘guerrilha’ que se vive entre os chamados ‘três grandes’ cava cada vez mais esse fosso?

Em relação ao desporto sente-se muito esse problema, mas outras causas, em minha opinião, estarão na origem dessa situação: a fuga dos jovens para os grandes centros, a falta de condições para quem fica nessas localidades e tudo se acaba por ressentir. Quanto à comparação dos grandes, penso que não tem expressão. Ela é importantíssima se todos os simpatizantes e sócios dos clubes defendessem que as vitórias surgem a quem merece nesse momento e nada mais.

Na sua opinião que contributo dão os diferentes canais de televisão para a promoção do futebol em Portugal, nomeadamente no que respeita aos programas com diferentes painéis de comentadores?

Como o meu grande canal de desporto é o Canal 11, penso que está crescendo, fazendo um excelente trabalho.

Quando vejo os outros e como temos a facilidade de ter um comando na mão, quando discordo com algumas das matérias ditas, carrego no comando…

Todos os anos os clubes se reforçam. Quase todos vão mais além do que a sua realidade aconselha. Concorda com esse endividamento no país que temos?

Não. Os clubes têm de ser como as nossas casas. Os nossos orçamentos devem ser executados sem alterações. Pessoas ou clubes que pensem o contrário é um arrastar dos seus problemas e às vezes nos clubes leva-os à falência.

Entristece-o o facto de não estarem designados árbitros portugueses para o Mundial do Qatar? Isso deve-se a quê?

A que se deve não tenho dados para poder responder com verdade. Que tenho pena, sim. Todos nós, portugueses, sentimos essa situação.

O futebol feminino é hoje uma boa realidade no país. E na região de Santarém? O que achou do comportamento da nossa selecção no Europeu de Inglaterra?

Ainda não é realidade, mas tenho a certeza que o vai ser muito me breve. A liberdade da mulher portuguesa poder escolher sem oposição e com a colaboração dos pais vai ser um factor importante.

O comportamento da Selecção Portuguesa foi óptimo e muito vai contribuir para esse desenvolvimento.

Que balanço faz da primeira época da Liga 3? Foi como se disse no seu arranque uma montra para os mais jovens, ou foi mais um espaço para colocar antigas ‘estrelas’ agora numa idade mais avançada?

Altamente positivo. Serviu para o lançamento de jovens, para valorizar todos os outros e especialmente a organização nos clubes que a disputam com o cumprimento integral das suas responsabilidades.

Rui Manhoso vai, em breve, ser nome de rua em Santarém. Como é que vê essa homenagem. Será o tardio reconhecimento por uma longa carreira?

Ao que sei foi aprovado em Assembleia Municipal uma proposta da União de Freguesias de Santarém. Obviamente que fico reconhecido às entidades oficiais que assim o entenderam. Tentei sempre, em todos os locais em que trabalhei, para qualquer das muitas organizações, dar o meu melhor e contribuir sempre para o desenvolvimento das mesmas. E tenho consciência de como scalabitano ter tentado sempre não negar a minha origem e colaborar no que me é solicitado. Se isto valeu ser lembrado, bem hajam pelo reconhecimento. Santarém continua a ser a sua cidade.

Como vê a prática desportiva no concelho?

Gostaria talvez que pudesse haver uma melhoria nas infraestruturas, mas sinto que há empenho e apoio a muitos dos clubes, não só nesta modalidade de futebol, mas um grande desenvolvimento em número de praticantes nas diversas modalidades. Isso dá-me um certo orgulho. E acreditar que é salutar praticarmos a modalidade que gostamos.

Queria só referir, sem menosprezo para com todos os clubes do nosso distrito, o papel de um pequeno clube da nossa cidade, o “Vitória Clube de Santarém”, que, dedicando-se ao futsal, é hoje uma referência de relevo a nível nacional.

Completou 80 anos de vida no passado mês de Julho. Se tivesse esse condão, o que mudaria na sua vida e o que teria feito diferente?

Ninguém deve sentir-se realizado enquanto tiver força e saúde para poder dedicar- se áquilo que sempre gostou.

Sobre a pergunta feita, certamente com a evolução tão rápida nesta vida, haveria situações que não as repetiria, mas sinto que na globalidade defendi sempre com clareza os meus pontos de vista, bem aceites por muitos. Portanto, não mudaria muito.

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