Este infeliz acidente ficou exclusivamente a dever-se a fatores externos e não à minha gata Kika, que é o bombo da festa sempre que por aqui aparece alguma coisa desaparecida ou partida, já que a sua curiosidade natural e o seu espírito aventureiro levam-na a ser protagonista na maioria dos casos.

Desta vez, a culpa vai inteirinha para os deputados constituintes pois, ao elaborarem o articulado da nossa constituição, deveriam ter-se lembrado de introduzir um artigo que proibisse que os governos se demitissem ou fossem demitidos no último trimestre de cada ano civil.

O que aconteceu agora, só tem inconvenientes, transtornos, faz mau dormir aos cidadãos, cria ansiedades inconvenientes, mas sobretudo, o que é pior, baralha os cerebelos da população que já anda tão ocupado com o preço do bacalhau e das couves, das prendas e dos embrulhos, contando os euros do décimo terceiro mês, que se escapam enquanto o diabo esfrega um olho e todos sabemos como nestas alturas em que não há governo, como é mau invocar o diabo…

Mas não nos deviemos do essencial. Vou tentar explicar como e porquê aconteceu este acidente doméstico. Todos os anos comprava um jovem pinheiro para o ornamentar na minha sala, junto à janela e ao lado do ecrã televisivo. Até ao dia em que os meus vizinhos me começaram a olhar com desprezo, quando o ia depositar na rua, ao pé do caixote, para ser recolhido. Apesar de não deixar rasto de pingos de resina pelo caminho, deixava uma pegada

ecológica, que ia no sentido da muda reprovação que recebia.

Pois então mudei para o de plástico e logo se voltaram a abrir os sorrisos, sinal de que estava no bom caminho dos urbanos.

Assim, este ano, recuperei o velho pinheiro feito na indústria chinesa, ornamentado com fios e bolas da mesma proveniência, mandei às urtigas a tradição de meus pais e avós e enfiei-lhe entre os ramos as trezentas luzes led que comprei, embora no segundo ano só funcionassem em dois modos de piscar e só 60% das luminárias. Tudo em nome da tal pegada e da boa e sã convivência.

E com isto tudo montado, o que aconteceu foi algo que eu não estava à espera. Com esta história das eleições marcadas para 10 de Março, os muitos candidatos e os putativos, começaram a debitar na TV as suas novas ofertas para o futuro. E então, não é que cada uma que era anunciada no ecrã, aparecia de imediato pendurada na minha árvore de Natal?

Aumento da prestação social para idosos; A regularização do pagamento do tempo de serviço dos professores; a actualização do vencimento dos médicos do SNS; idem para os enfermeiros; regime de 35 horas de trabalho semanal; extinção para breve das listas de espera nas cirurgias dos hospitais públicos e também médicos para todos os beneficiários do regime social de saúde. Houve até quem anunciasse que, se fosse governo punha o ordenado mínimo igual ao dos vizinhos espanhóis!!!

Estavam as abas dos ramos plastificados já a roçar pelo chão, ele já meio inclinado, quando caiu em cima da pobre representação nórdica, um novo aeroporto, mais uma ponte sobre o Tejo e um TGV entre Lisboa, Porto e Galiza.

Deu-se o inevitável. Um estrondo daqueles. As promessas todas espalhadas pela sala, algumas galgaram mesmo a janela e desapareceram, mas o pior de tudo ainda foi a gata Kika.

Pregou dois pulos, daqueles incríveis que os felinos sabem fazer, assustou-se a sério e há dois dias que está desaparecida, escondida decerto em qualquer roupeiro, com receio de ser acusada injustamente.

Se em outras alturas do ano já nos custa ouvir o que eles deitam da boca para fora como intenções, nos natais torna-se insuportável e reafirmo devia ser proibido.

Um Santo Natal para todos e lembrem-se que há vozes…. que nunca chegam ao céu.

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