“O Museu Diocesano de Santarém nasceu para ser um espaço vivo de memória e de diálogo com a arte”

O Museu Diocesano de Santarém assinalou o seu 5.º Aniversário na tarde do passado sábado. As comemorações incluíram a apresentação do ‘Filme Promocional’ e do ‘Guia do Visitante’ do Museu. Seguiu-se uma visita guiada à exposição permanente, agora remodelada, a cargo de Eva Raquel Neves.
O dia terminou com um concerto de cravo, no refeitório jesuíta, por Joana Bagulho, intitulado “Carlos Paredes em Cravo”. O ‘Correio do Ribatejo’ associa-se à efeméride com esta entrevista ao Padre Joaquim Ganhão para quem o Museu nasceu para ser “um espaço vivo de memória e de diálogo com a arte”. Este ano o Museu já ultrapassou os 5 mil visitantes, num total de 35 mil desse a sua abertura.

O que levou a diocese de Santarém a criar o Museu Diocesano de Santarém?
O desejo da criação de um Museu Diocesano é tão antigo quanto a nossa Diocese. Depois de uma tímida tentativa, ao tempo do nosso primeiro Bispo António Francisco, foi possível, com a renovação da Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja que implementou o Inventário do Património Móvel das paróquias da Diocese, bem como o diálogo com as instituições locais e a relação com o Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja e com a então Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, levar por diante várias dinâmicas que conduziram à criação do Museu Diocesano, integrado no projecto Rota das Catedrais.
O que levou a Diocese a criar este espaço foi a consciência séria de que o património que nos foi legado, muito dele votado ao abandono e ao esquecimento, quase irremediavelmente perdido, pode e deve servir a missão da Igreja. O Museu Diocesano nasceu para ser um espaço vivo de Memória e de diálogo com a arte, a fé e a cultura, onde se preserva não apenas o património material mas também muito do nosso património imaterial que, através das dinâmicas criadas em torno do Museu e do Arquivo Diocesano, se vai tornando cada vez mais acessível a todos.

Que balanço faz dos últimos cinco anos do Museu?
O balanço é não apenas positivo, mas muito desafiante. Como espaço vivo e acolhedor de todos. Penso que temos caminhado no sentido certo, sem pretensões megalómanas, mas com desejos grandes de caminhar passo a passo no sentido do cumprimento da missão, como bem consta no nosso estatuto orgânico.
 
O espólio do Museu foi enriquecido com algumas doações particulares. Quais as mais significativas?
A doação mais significativa foi o par de telas atribuído à escola de Bento Coelho da Silveira, oferecido pelo Senhor José Roque, as quais, pela remodelação que foi realizada no âmbito deste 5.º aniversário, numa das salas do museu, integram agora a exposição permanente, apesar de careceram ainda de uma intervenção de conservação e restauro que as valorize e dignifique.
Para além disso, o primeiro gesto de doação ao museu foi assumido pelo Dr. Martinho da Silva, que decidiu entregar ao Museu parte da sua biblioteca, sobretudo bibliografia e documentação que reuniu com temática alusiva a Santarém.
Mais recentemente, o Museu integrou uma doação significativa de peças de arte sacra, sobretudo esculturas e algumas pinturas, bem como a biblioteca integral do Dr. Raimundo Serrão e de sua irmã Marina Serrão.
A uma menor escala, mas igualmente significativa, contamos ainda com a doação de José Simões, sobretudo livro antigo de temáticas religiosa e alguns objectos referentes à Conferência de São Vicente de Paulo, e ainda, antecedendo a inauguração do museu, a colecção de artesanato de Carlos Gil.

O Museu também cede peças para exposições no exterior. Quais são as mais solicitadas?
Sim, o Museu e as diferentes paróquias da nossa Diocese são frequentemente solicitadas para cedência de peças, quer para exposições dinamizadas pelos municípios, quer por alguns museus nacionais, bem como departamentos congéneres de outras dioceses.
Não podemos afirmar que existe uma ou outra peça mais solicitada, dado que, pelos nossos registos, tem existido bastante variedade relativamente aos objectos que são solicitados.
Isto é um sinal positivo, na medida em que comprova a importância do conjunto existente em exposição, mas é principalmente uma confirmação da importância do resgate e valorização deste património, o qual só não era solicitado para este tipo de exposições ou estudos científicos, dado o seu estado incógnito e também de degradação. Daí o valor deste trabalho.

Das obras expostas, qual é aquela que suscita mais interesse aos visitantes?
Queremos acreditar que muitas das peças suscitam interesse dos visitantes, cada um na sua forma e gosto particular. Apesar disso, há peças mais emblemáticas pela sua expressividade e raridade, como no caso do Cristo do Montiraz.

A fim de complementar a exposição permanente, várias exposições temporárias ocorreram nestes cinco anos. Quer destacar as mais significativas?
Não podemos deixar de fazer referência às três exposições temporárias que assumiram maior escala, e que foram integralmente “montadas” por nós.
A primeira, a uma menor escala, mas que abriu portas a esta dinâmica, “São Frei Gil de Santarém 1265-2015 – Comemorações dos 750 anos da morte” (8 Dezembro de 2015 a 19 de Março de 2016); “A Beleza da Mãe de Deus – da infância ao dia em que o sol bailou” (26 de Maio a 16 de Outubro de 2017) (Neves, 2017) e “Ornaverunt Lampades: A Arte Cristã na Herança de Luiza Andaluz” (18 de Outubro 2018 a 8 de Abril de 2019) (Neves, 2018). Em todas elas se procura dar continuidade à fórmula de resgate patrimonial implementada, com intervenções de conservação e restauro em pelo menos uma peça das paróquias. Para além disso, destacam-se os empréstimos de peças de outras instituições (Museu Municipal de Santarém, Museu Municipal de Torres Novas, Seminário Maior de Viseu, Museu do Santuário de Fátima, Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, Museu Nacional de Arte Antiga).

Instalado em áreas também reabilitadas do antigo Colégio Jesuíta, o Museu reúne património podemos dizer “esquecido nas paróquias”, contando hoje com 42 paróquias representadas, através de esculturas e pinturas. Esse trabalho de recolha junto das paróquias continua a ser feito?
Todo o trabalho com as paróquias continua a ser realizado. Importa relembrar que o Museu é “apenas” a face visível de um vasto trabalho que desenvolvemos desde 2006, e que fundamenta a criação desta estrutura museológica, impulsionada pela oportunidade de implementação do projecto Rota das Catedrais. Continuam a existir peças que necessitam de “resgate”, e através do Museu tentamos que tal se possa concretizar, quer para contarem das exposições temporárias, como já referi, quer para representarem a sua paróquia na exposição permanente.
A remodelação que agora realizamos permitiu aumentar o número de paróquias representadas, o que muito nos orgulha.

Este Museu é também uma ferramenta da Diocese para reunir o inventário de obras da igreja na região e uma ajuda na conservação das mesmas. Como avalia o património espalhado pelas igrejas da Diocese de Santarém, a importância e estado de conservação?
Como referi, o Inventário é um dos processos basilares que antecede a criação do Museu, dinamizado pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja. Para além desta dinâmica, os serviços diocesanos vocacionados para o Património cultural, desenvolvem um conjunto amplo de eixos de actuação, dos quais destaco: o apoio técnico às paróquias e formação os vários agentes paroquiais para o cuidado deste património; parcerias e projectos com entidades locais, regionais e nacionais; acções de valorização e divulgação, por meio de estudos, publicações, comunicações.
Quanto ao estado do património da nossa Diocese, podemos afirmar que em 13 anos de trabalho consecutivo muito evoluímos. As comunidades estão mais atentas e sensibilizadas, os párocos confiam no trabalho da Comissão e procuram o seu apoio e acompanhamento. No entanto, há ainda muito trabalho para fazer. O património existente é muito e significativo. Há situações urgentes e outras que se arrastam no tempo. Não temos mãos a medir e por isso não podemos parar. O Museu assume também neste processo, um estímulo para a equipa, na medida em que nos vai mostrando diariamente que, com muito esforço e dedicação, é possível!

As parcerias que o Museu mantém com instituições da região têm constituído uma mais valia?
Sem dúvida. Seria um erro pensar que podemos percorrer um caminho sozinhos. Aliás, a região carece de muitas e boas parcerias, para todos podermos evoluir.

Podemos dizer que hoje, cinco anos passados sobre a sua abertura, Santarém percebeu a jóia que tem e a mais valia que ele significa para o turismo local?
É uma curiosa questão, à qual não sabemos dar resposta. No âmbito do programa alargado destas comemorações, e tendo em conta que existiram algumas dinâmicas diferentes que, por isso, chegaram a outros públicos, chegaram-nos pessoas de Santarém que nos interrogavam há quanto tempo existia o Museu, se estava aberto todos os dias, como podiam visitar? Simplesmente nunca tinham ouvido falar! Isto comprova que o trabalho é contínuo. Não podemos dizer que todos nos conhecem e perceberam o nosso valor. O que nos importa é tornarmo-nos cada vez mais conhecidos, dentro e fora de portas, e garantir a qualidade daquilo que colocamos à fruição pública e das dinâmicas que implementamos. Temos consciência que esta é uma grande responsabilidade.  

Quantas pessoas visitam o museu por ano e de onde provêm? É um número que tem vindo a crescer ao longo dos anos?
Este ano já ultrapassamos os 5 mil visitantes. Em média, por ano, podemos contar entre os 5 e os 7 mil visitantes, num valor total dos 5 anos de +/- 35 mil visitantes. A tendência que temos verificado é a do aumento do número total, a cada ano.

As escolas da região conhecem o Museu Diocesano? E visitam-no?
Há uma proposta diversificada de serviço educativo direccionado para as escolas, e que tem tido muito boa adesão, nos últimos anos, por parte das escolas do Concelho de Santarém, já que temos integrado a proposta de recursos educativos do Município. Num futuro próximo queremos alargar esta dinâmica a todos os municípios que constituem o território da Diocese.

O Museu já mereceu diversos prémios. Em 2014, a Entidade Regional de Turismo do Alentejo Ribatejo atribuiu o PRÉMIO INICIATIVA.  Em 2015, a Fundação Calouste Gulbenkian atribuiu ao projecto de recuperação da Catedral e criação do Museu o PRÉMIO VASCO VILALVA para a Recuperação e Valorização do Património e, um ano mais tarde, o mesmo projecto é agraciado com o PRÉMIO DA UNIÃO EUROPEIA PARA O PATRIMÓNIO CULTURAL/PRÉMIO EUROPA NOSTRA 2016, na categoria Conservação. É o reconhecimento pelo trabalho produzido? Esperavam mais?
Sem dúvida que é um grande reconhecimento e também uma grande responsabilidade. Reconhece e valida o esforço e empenho aqui empenhados, e estimula o trabalho futuro. O facto de termos no nosso palmarés estas distinções é ainda uma exigência acrescida, na medida em que não podemos baixar a fasquia da qualidade em tudo o que aqui fazemos. Ainda assim, devo dizer que, mesmo que não tivéssemos recebido prémio algum, este museu é um desígnio da Diocese, uma ponte de diálogo com a cidade e com as gerações presentes e futuras e, só por isso, já teria valido a pena. O prémio que esperamos todos os dias são os visitantes que queremos acolher sempre melhor e a quem desejamos oferecer uma experiência espiritual do bom e do belo que se pode viver neste espaço aberto a todos.

“O Museu não quer ser um espaço onde já se foi e está visto, mas sim um lugar de experiências e de encontros, de pessoas e culturas!” Esta vossa pretensão continua a cumprir-se todos os dias?
Claro que sim. Esta dinâmica da comemoração do 5.º aniversário é disso exemplo: novas iniciativas, diferentes tipos de públicos, remodelações na exposição permanente, novas peças, guia do visitante, vídeo promocional, ofertas educativas diversificadas.  

A Diocese tem em mente algumas mudanças na disposição do espaço do Museu?
À parte de ajustes pontuais que foram realizados ao longo destes anos de abertura, o 5.º aniversário celebrou também a maior remodelação que entretanto se realizou, permitindo assim um lugar de destaque para a escultura de Cristo do Montiraz, incluindo novas peças neste discurso, alargando, por exemplo, o núcleo da Eucarística, com a presença de alfais litúrgicas. Numa casa como a nossa, certamente que haverá sempre lugar para mais, desde que isso sirva a missão que nos é confiada.

Que futuro se pretende para o Museu Diocesano de Santarém?
Numa instituição como o nosso Museu Diocesano o futuro é sempre presente. Neste hoje do quinto aniversário, estamos já no futuro que queremos e desejamos mais e melhor: mais missão a acontecer; mais diversidade na oferta; mais dinâmicas inovadoras e inclusivas para todos, a começar pelas pessoas portadoras de deficiência; mais estudo e aprofundamento científico em torno do espólio presente no Museu; mais entusiasmo das comunidades paroquiais com o seu património a servir à missão da Igreja Diocesana; mais mecenas sensíveis à causa da preservação do património; mais públicos; mais… Certamente que a este mais corresponderá também a esperada publicação do Catálogo da Exposição permanente que, neste momento, empenha o esforço de muitos peritos e sábios e que a breve tempo esperamos apresentar. Aproveito para agradecer a todos os amigos, benfeitores e colaboradores do nosso Museu o caminho que nos permitiram percorrer até ao dia de hoje, e se algum presente de aniversário nos quiserem oferecer que seja o propósito de continuarmos juntos este caminho.


 

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