Mesmo em criança, na escola primária ou durante os pequenos afazeres campestres, já se acentuavam algumas tendências afectuosas entre rapazes e raparigas, o que sempre originava algumas brincadeiras dos membros mais velhos da família ou da comunidade. Era frequente, quando alguém chegava de fora, perguntar às crianças: Então, já namoras? Ainda hoje esse hábito perdura em muitos lugares da nossa região.

 Em regra, as famílias tinham muitos filhos e as condições do lar iam diminuindo à medida que a filharada crescia, pelo que o casamento era uma saída muito comum para os que entravam na idade de procurarem novo rumo para a sua vida. Casamento, apartamento…

Convém termos em conta que antigamente um rapaz ou uma rapariga com quinze anos de idade já era uma pessoa adulta, quer pelas suas atitudes e obrigações para com a família, como para o trabalho, pois muitas crianças eram roubadas aos bancos da escola e começavam a trabalhar logo aos seis ou sete anos.

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Também por isso, talvez, o namoro começava muito prematuramente, ao contrário do que acontece nos nossos dias, em que os primeiros namoricos não são levados a sério, até por força de uma certa liberalidade, que outrora não era consentida, sobretudo em relação à rapariga.

 Os arrufos de namorados, que hoje sucedem, por tudo e por nada, constituem meros pontos de chegada e de partida para um novo relacionamento, do que, em regra, não resultam quaisquer sequelas, algo que antigamente não era bem visto, nem pela família dos jovens envolvidos, nem pela própria comunidade, que não se dispensaria de censurar a rapariga como “uma cabeça de vento, namora com qualquer um”, enquanto o rapaz também não era poupado, dizendo-se a seu respeito que “não tem tino nenhum, qualquer uma lhe serve”.

O cancioneiro popular, como autêntico repositório do saber das gentes do povo, não poderia deixar de contemplar algumas destas situações. Em relação à necessidade de recato da rapariga, lá cantariam as vozes avisadas das mais velhas: “Não me ponha a mão na cinta, / diga daí o que quer, / Não perde você, que é homem / perco eu que sou mulher.” Os rapazes mais atrevidos também não eram poupados ao remoque: “O Tejo quando vai cheio / no meio ajunta a espuma, / Rapaz que namora duas / Não tem vergonha nenhuma.”

Lá mais perto dos vinte anos, as coisas já eram vistas de outra maneira, quer pela necessidade de dar seguimento à vida, quer porque já se notava mais maldade nas intenções dos namorados, especialmente, como era assumido, por parte dos rapazes, sempre prontos a uma relação mais escaldante.

Sobre a cabeça da mãe pendia a tremenda responsabilidade de acautelar a honradez da filha e o bom nome da família, onde o pai não tolerava abusos de confiança, chegando ao extremo de desafiar à paulada o rapaz que lhe constasse não respeitar uma filha. E a mulher, como é natural, cumpria tão zelosamente quanto possível essa responsabilidade, pois, caso contrário tinha de se haver com a severidade do marido, que muitas vezes, com um copo a mais ou com um copo a menos, descambava em agressões físicas, o que, infelizmente, era muito comum em tempos idos.

Fosse em que circunstância fosse, a mãe não consentia “larguezas” à filha namoradeira. No caminho do trabalho ou no regresso a casa, na ida à fonte ou à mercearia, e muito menos ainda no bailarico, em casa ou no terreiro da aldeia, a mãe não perdia a filha da vista, pois, às vezes o diabo tem tentações, como diziam, lamentando-se de alguma guarda menos conseguida.

Nas casas da brincadeira[i] registava-se uma grande separação entre os homens e as mulheres. Os homens, casados ou solteiros, ficavam de pé do lado do “bufete” –  espaço improvisado com um balcão onde iam beberricando uns copitos de vinho ou uns “calços” de aguardente, cuja venda ajudava a pagar as despesas com o tocador – e as mulheres ficavam sentadas na zona destinada ao bailarico. A fila da frente era ocupada pelas raparigas solteiras, atrás de quem se sentavam as mães ou avós, que decidiam, com o poder da autoridade materna, se a rapariga podia aceitar o par que a convidava, ou se, ao invés, lhe daria tampa.

Quando a rapariga já namorava com autorização dos pais apenas dançava com o seu conversado, salvo se fosse convidada por algum familiar íntimo ou por alguma pessoa ilustre da terra, mas, ainda assim os olhares da mãe ou da avó não largavam o par, não fosse o caso de haver algum aconchego excessivo, o que era pouco apreciado pelas mais velhas, e que, a acontecer, ditaria logo ali o termo do baile e o regresso a casa a toque de caixa, sob a ameaça de que ao próximo baile já não iriam.

Um dos factores que sempre impedia a realização dos casamentos era o cumprimento, ou a dispensa, do serviço militar, pelo que quase sempre se esperava que o noivo fosse às “sortes” e tivesse esta situação resolvida para marcar a data da boda. Entretanto, a rapariga, com a ajuda das mulheres da família, entre as quais a mãe e as irmãs, ia fazendo o enxoval, constituído por umas peças de roupa para a cama, normalmente em linho, uns naperons bordados e umas toalhas para a mesa e pouco mais, porque a mobília também era escassa, tanto como o dinheiro para a comprar. O rapaz, com a ajuda dos pais e os irmãos, ia tratando da casa onde o casal haveria de viver após a celebração do casamento.

Pelo meio, as famílias dos noivos iam criando uns carneiros, um porco e umas galinhas para a festa do casório, para a qual se convidariam os parentes mais próximos e alguns amigos mais chegados. (Continua)

[i] Casa onde antigamente decorriam os bailes nas aldeias, por empréstimo dos seus proprietários.

Ludgero Mendes

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