O livro “O Passado É para Sempre”, crónicas de José do Carmo Francisco, todas elas publicadas no Correio do Ribatejo, foi apresentado ao final da tarde do passado dia 13 de Maio, na Biblioteca Histórica da Escola Secundária de Camões, em Lisboa, com a presença do autor e da editora On y va.
Para além desta foram ainda apresentadas outras três obras: “Albufeira”, de Ana Sofia Brito (contos, em segunda edição); “A Praia”, de António Manuel Venda (poesia); e “O Império das Ostras”, de Rodolfo Miguel Begonha (romance).
A sessão foi moderada por António Souto, professor da Escola Secundária de Camões, que fez uma abordagem critica das quatro obras, “de quatro tipologias diferentes, mas com um traço comum: a poesia”, observou.
Sobre o livro de José do Carmo Francisco, o professor disse serem “crónicas que contam histórias”.
“Fiquei deliciado com todas. Histórias pequenas, com memórias, coisas do quotidiano com reflexões de carácter social, com alguma ironia à mistura”, notou.
Segundo o docente, o livro de José do Carmo Francisco lembra-nos um “passado que não se apaga”, recuperado com uma “função didáctica”.
“O tempo, a justiça, a honra, a honestidade, coisas que hoje começam a tornar-se superficiais, mas que no passado tinham um peso enorme. Há a recuperação desses valores que passam por estas crónicas,” sublinhou António Souto sobre a obra de José do Carmo, onde a consciência social está muito presente, tal como a dimensão autobiográfica, que reflete a sua vida, difícil, e o jornalismo.
No livro o autor assina uma nota final na qual dá conta que “sendo o mundo actual uma terrível fábrica de esquecimento, compete ao autor de um livro de crónicas transformar o caduco em perene”.
“Tal como o poeta num poema, o que o cronista procura na crónica é alcançar o equilíbrio precário entre a canção e a reflexão, entre a balada e o proveito e o exemplo que é a moral adjacente a todas as histórias”, lê-se na mesma nota.
A capa de “O Passado É para Sempre”, de José do Carmo Francisco, reproduz uma obra da pintora Tereza Arriaga, – “Zé Clara” -, colecção do Museu do Neo-Realismo e fotografia de Helena Seita.
Tereza Arriaga (1915-2013), pintora neo-realista, professora e resistente antifascista, desenvolveu enquanto docente, experiências pedagógicas que iam no sentido de uma precursora prática educativa pela arte e de expressão artística com os alunos. Ela própria desenhava, criando esboços de firmes traços, representações mais ou menos acabadas, mas sempre expressivas, daquelas crianças de corpos doídos, de olhar entristecido, de mãos calejadas e rostos queimados pela temperatura dos fornos. É a expressão desses «catraios» da Marinha Grande, que muitas vezes iam trabalhar com cinco anos, que Tereza Arriaga mostrou pela primeira vez no Ateneu Comercial do Porto, na «I Exposição da Primavera» (Junho de 1946). Logo no mês seguinte, na «I Exposição Geral de Artes Plásticas», na Sociedade Nacional de Belas-Artes, expôs «Zé Clara», retrato de um dos «moços que parecem homens e nunca foram meninos».
Sobre o desenho que ilustra a capa da obra, José do Carmo Francisco contou ao Correio do Ribatejo que foi “em boa hora descoberto por António Manuel Venda, responsável pela Editora «On y va»”.
“O título é «Zé Clara» e faz parte de uma série de retratos de meninos operários numa fábrica de vidro da Marinha Grande. Meu pai nasceu em 1927 e começou a trabalhar com sete anos como criado de lavoura. Eu nasci em 1951 e comecei a trabalhar com quinze anos no pessoal menor de um Banco. Num certo sentido estamos ambos na dedicatória do livro «Esteiros» de Soeiro Pereira Gomes (1909-1949). Não tenho grandes riquezas materiais para deixar aos meus três filhos e seis netos, mas este desenho de Tereza Arriaga que vem enriquecer o meu livro de crónicas autoriza-me a dizer alto e bom som: «Sou filho de um homem que não foi menino». Afinal como o Zé Clara, esse menino operário do desenho da capa do meu livro de crónicas”, concluiu José do Carmo Francisco.
Nascido em 13 de Fevereiro de 1951, em Santa Catarina (Caldas da Rainha), José do Carmo Francisco estreou-se no livro colectivo Lugar de Ser, de 1971. Iniciais, o seu primeiro livro individual (1981), foi distinguido com o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Poeta, jornalista autor de contos, crónicas e biografias, organizou duas antologias: O Trabalho (1985) e O Desporto na Poesia Portuguesa (1989). No livro de entrevistas As Palavras em Jogo (2009), reúne uma memória e trinta conversas com figuras das artes, das letras, da rádio, do desporto e da política. Em 2005, Ruy Ventura publicou José do Carmo Francisco – uma aproximação (com nota introdutória de António Cândido Franco). José do Carmo Francisco colabora com a revista Filamentos, da Universidade Estadual da Califórnia (Fresno, Estados Unidos), e com os jornais Diário Insular (Angra do Heroísmo), Correio do Ribatejo (Santarém), O Casapiano (Lisboa) e Milénio Stadium (Toronto, Canadá). Integra os corpos gerentes da APE e da Associação Portuguesa dos Críticos Literários. Na On y va publicou além deste O Passado É para Sempre o volume de poemas Afinal (2021), assinalando cinquenta anos de vida literária, e o volume de crónicas A Pátria da Chuva (2024).
O livro “O Passado É para Sempre” está disponível para compra no Wook, livraria online.
JPN

