A integração de crianças em grupos e ranchos de folclore é ainda hoje matéria que suscita alguma controvérsia, o que até parece estranho dada a existência de muitos grupos folclóricos infantis, como é o caso do Grupo Infantil de Dança Regional, de Santarém, fundado por Celestino Graça no já longínquo ano de 1956.
Defendem os mais fundamentalistas em termos conceptuais, que as crianças não deveriam usar trajos de adultos e dançar ou cantar as modas e cantigas que outrora eram cantadas de forma espontânea pelos seus antepassados, estribando esta sua opinião na circunstância de muitas destas expressões sociais e culturais estarem associadas a atitudes e comportamentos mais consentâneos com pessoas em idade adulta.
Na maioria dos casos os grupos e ranchos de folclore portugueses adequam os seus quadros etnográficos e os respectivos reportórios a circunstâncias de trabalho ou aos bailaricos, que tanto poderiam ocorrer em espaços públicos das aldeias e vilas ou em espaços mais ou menos preparados para o efeito, como eram, na nossa região ribatejana, as casas da brincadeira.
Deste modo, e no entendimento destes folcloristas mais puristas, as crianças deveriam apenas apresentar-se com indumentária própria de crianças e reconstituir publicamente algumas brincadeiras e jogos adequados a este nível etário. Teoricamente até poderemos estar de acordo com esta opção, porém, o que é importante é que não percamos de vista a realidade social, económica e cultural do tempo que se pretende representar.
A maioria dos grupos e ranchos folclóricos dizem representar um período temporal compreendido entre as últimas décadas do séc. XIX e as primeiras do século passado. Esta opção vale o que vale, naturalmente, mas convém estarmos atentos a que esta não é, também, uma opção consensual, na medida em que tal parece impor a representação de um tempo já demasiado longínquo, impedindo o impacto da representação de fenómenos sociais tão importantes como os que decorreram de uma mudança de regime, da monarquia para a república, da Grande Guerra mundial, da instauração do Estado Novo, da massificação crescente do uso da bicicleta, da motorizada e do automóvel, da reforma da legislação laboral, do aparecimento da telefonia sem fios, do cinema e da televisão, entre tantas outras inovações que tiveram um significativo reflexo na vivência popular.
Quando se fala da vivência das crianças somos tentados a encarar este assunto à luz da actualidade, um tempo em que, felizmente, as crianças são tratadas como tal, e como, em boa verdade, devem ser, consignando-lhes direitos que facilitam o acesso à instrução obrigatória e salvaguardando um quadro social que lhes permite usufruir de conforto e bem-estar. O mais possível, mas, nem sempre foi assim…
Antigamente, as crianças, especialmente as que viviam nas zonas rurais, pouco frequentavam a escola, iniciando-se muito cedo no trabalho. Assim o confirma o adagiário português – O trabalho do menino é pouco, mas quem o desperdiça é louco! De facto, segundo pesquisas que pudemos efectuar e que confirmam o conhecimento generalizado sobre a época que nos interessa aprofundar, as crianças começavam a trabalhar ainda antes dos dez anos de idade. Mal vestidos e mal calçados, aproveitando-se as roupas e as botas que deixavam de servir aos pais ou aos irmãos mais velhos, ou que já estavam mais gastas, as crianças começavam a acompanhar os pais nos trabalhos agrícolas e a pouco e pouco iam-se integrando na vida profissional.
Nas praças das jornas, rapazes com doze ou treze anos começavam a procurar patrão, ganhando metade da jorna de um homem e mais tarde, quando deitavam mais corpo e já dominavam as técnicas dos diversos trabalhos, passavam a ganhar tanto como um adulto, pelo que tinham de “pagar a patente”, autêntico rito de passagem de criança para adulto.
Então as crianças tornavam-se adultas muito cedo, pelo que é adequada a sua integração no quadro etnográfico dos grupos e ranchos de folclore, respeitando-se, naturalmente, a especificidade da sua vivência no seio da respectiva comunidade. Este é um assunto complexo, a que voltaremos em próxima oportunidade.
Quando pesquisamos a vivência popular nos finais do séc. XIX e no dealbar do século passado damo-nos conta de uma diferença social, cultural e económica abismal. Nem parece estarmos a analisar o mesmo país, e isto por força da evolução ocorrida à escala mundial, a que então aludimos.
Após a instauração da República, os governantes desta época tiveram a preocupação de ensinar às crianças jogos, brincadeiras e cantigas que pudessem fazer esquecer o que eram as práticas lúdicas do tempo da monarquia. Este investimento cultural nas crianças teve grande impacto, mesmo sabendo-se que a maioria das crianças não frequentava regularmente a escola, porém, nas brincadeiras com as outras crianças sempre haveriam de partilhar algumas das novidades ali aprendidas. Muitos desses jogos infantis estão na origem das populares e singelas modinhas de roda, que actualmente são apresentadas, em diversas variantes, pelos grupos e ranchos de folclore de todo o país.
Como bem sublinhou Soeiro Pereira Gomes, na dedicatória do seu livro “Os Esteiros” aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”, neste tempo as crianças eram roubadas aos bancos da escola para serem aproveitadas no trabalho, posto que, então, a legislação não contemplava este tipo de preocupações sociais.
Porém, as crianças tornavam-se adultas muito precocemente e mesmo as que não trabalhassem ainda por conta de outrem não deixariam de colaborar nas tarefas domésticas da própria família, fosse nas regas, nas mondas das hortas ou no corte de pasto para os animais, que muitas vezes as próprias crianças apascentavam. Iam ainda pelos matos em busca de lenha e de acendalhos para a fogueira, onde se cozinhava a alimentação e a que se aqueciam nos longos serões de inverno.
Ora, estas crianças despertavam para a vida adulta com a curiosidade própria de quem tem tantas coisas para desvendar e o seu principal desejo era o de se tornarem adultas, mal sabendo quantas vicissitudes e contrariedades haveriam ainda de ter por companhia diária. De toda a vida…
Estas crianças devem estar representadas nos quadros etnográficos dos actuais grupos e ranchos de folclore, no pressuposto de que estes agentes culturais hão-de ter por objectivo a contextualização da realidade social, cultural e económica da época representada, período em que a comunidade era integrada por pessoas de todos os escalões etários. Logo, também, as crianças devem integrar esse mesmo quadro etnográfico, podendo, inclusivamente, entrar nas rodas onde se dançava horas a fio para alívio das amarguras de uma vida pobre, difícil e pouco esperançosa.
Deste modo, o que poderá estar mal é a forma como por vezes se vestem as crianças e a missão que se lhes incumbe. Crianças de nove ou dez anos não deverão fazer o papel de noivos, como já vimos fazer, do mesmo modo que nos grupos e ranchos de folclore as pessoas idosas também não o deverão fazer. As crianças não deverão dançar modas agarradas com pessoas adultas, salvo se forem familiares muito próximos, pois, tal não era consentido socialmente, até porque as modas agarradas quase só tinham lugar nos bailaricos de casa, que aconteciam ao serão em casas particulares ou na casa da brincadeira.
São estes aspectos que deverão ser devidamente ponderados pelos responsáveis dos grupos e ranchos de folclore, para que a sua representação seja séria, credível e digna. Ainda há muito a fazer para melhor representação dos tempos dos nossos avós…
