A Tauromaquia – aqui entendida não como o espectáculo que tanto nos fascina, mas, sobretudo, na expressão dos sentimentos e dos afectos que caracterizam os seus protagonistas – assume uma dimensão de grandeza maior pela nobreza de carácter da maioria dos artistas que cultivam esta arte e preservam esta cultura tão arreigadas nas tradições portuguesas.

São incontáveis os exemplos de abnegação e de valentia que definem a acção generosa e empenhada de tantos toureiros que se expõem ao risco da própria vida para ajudar alguém – pessoa ou entidade – que careça de auxílio e de apoio. O espírito de solidariedade nunca é palavra vã no coração destes valorosos homens.

Júlio André foi nos seus tempos de juventude um promissor novilheiro, que, contudo, não conseguiu concretizar o sonho de ser matador de toiros, tendo optado por seguir a profissão de bandarilheiro, onde alcançou estatuto de figura entre os seus pares. Trajando de prata serviu de forma competente e leal os que envergavam o ouro nos seus trajes, evidenciando, porém, os seus imensos atributos técnicos e artísticos.

A vida foi passando e Júlio André manteve sempre uma trajectória séria e digna ao serviço da Tauromaquia. Como todos sabemos a profissão de Toureiro tem muitas vicissitudes, desde logo pelo facto de ser uma ocupação sazonal e de apenas se ganhar quando se trabalha, pelo que o tempo de defeso é padrasto para a maioria dos Toureiros. A idade avança e os recursos físicos fraquejam, pelo que surge o tempo de dar lugar aos mais novos que aparecem com boas aptidões técnicas e muita ambição de vencer.

Muitos destes mais novos foram alunos de Júlio André, que na Escola de Toureio da Moita tem partilhado toda a sua experiência e o seu imenso saber para os fazer Toureiros dignos e competentes. Júlio André, tendo consciência de que a idade e especialmente a falta de saúde não lhe permitiam continuar a tourear ao nível do que sempre se esperava de si, teve a coragem e a honradez de abandonar a profissão.

Mas, mesmo doente nunca deixou de ensinar a sua arte aos miúdos que sonham ser toureiros, contudo a doença, traiçoeira e impiedosa, não perdoa. Atentas as dificuldades que tinha de enfrentar, alguns amigos, entre os quais dois dos seus discípulos – Nuno Silva “Rúbio” e João Prates “Belmonte” – organizaram um festival de homenagem, cuja receita reverteria a seu favor, com um cartel digno e interessante, composto à base de muita juventude.

Quis o destino que Nuno Silva “Rúbio” fosse colhido com alguma gravidade quando bandarilhava um novilho que foi lidado pelo matador João Diogo Fera. Nuno Silva foi assistido na enfermaria da praça “Daniel do Nascimento” e transportado depois ao Hospital do Barreiro, onde foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, da qual está a restabelecer-se. Já depois da intervenção, Nuno Silva confidenciou a alguns amigos que “a cornada por pouco não afectou a femoral, o que teria sido gravíssimo. Felizmente a operação correu bem, a cornada é limpa.”

Nem uma queixa, nem um azedume, apenas resignação pelo sucedido. E venham mais toiros e que o Júlio André possa viver mais uns tempos com alguma qualidade de vida.

Entretanto, já foram divulgadas as contas do Festival, tendo o homenageado recebido o montante de 15.400 euros, dinheiro que, certamente muito o confortará, mas, certamente o que mais o satisfará é que os seus alunos e colegas de profissão souberam ser-lhe gratos e reconhecidos. Assim se definem os verdadeiros Homens!

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