Opinião/Pedro Santos: O quadro do tempo

Acessório de moda ou de prestígio para instrumento de rigor e de precisão para outros, o relógio permite enquadrar o tempo no quotidiano ocidental.Entre os séculos XIV e XV, algo terá aconteceu no velho Continente para que se fabricassem inúmeros relógios mecânicos. Muitos destes exemplares, com níveis de perfeição surpreendentes, ainda resistem à erosão do tempo encontrando-se publicamente expostos.

As habilidades tecnológicas dominadas pela civilização chinesa souberam combinar o conhecimento das artes mecânicas com o saber astronómico. Tradicionalmente preocupados com a ciência dos astros, os chineses associaram às clepsidras do Oriente autênticos reguladores hidráulicos que lhes permitiram colocar mecanismos únicos ao serviço dos imperadores. Paradoxalmente, e ao invés do seu precoce interesse no manuseio do metal no fabrico de peças de artilharia, o despertar do Ocidente relojoeiro deu-se tardiamente através do desenvolvimento das ordens religiosas (especialmente a de Cister) e do nascimento das cidades industriais. A preocupação dos relógios europeus nunca foi a de expressar o tempo dos astros mas antes a do tempo dos homens.

Os monges e os habitantes das cidades cedo compreenderam que não podiam medir o tempo apenas pelo pôr-do-sol. Era preciso medir os tempos intermédios. No caso dos monges, a medição destes tempos permitia-lhes saber, com precisão, as horas de oração durante o dia ou durante a noite. Por outro lado, o comércio e a indústria impulsionaram a construção de relógios mecânicos capazes de medir o tempo de trabalho. Nos mosteiros e nas cidades, o artifício do tempo contrastava com o que acontecia no campo, ainda regido pela trajectória do Sol. Sabendo que o ritmo do trabalho apenas podia ser medido com uma medida de tempo artificial, surgem então no Ocidente os relógios mecânicos que, induzidos pelo advento das novas tecnologias e pelo pulsar económico, introduzem novos conceitos associados à pressão e à eficácia. Enquanto se construíam sinos e campanários e se fabricavam complexos mecanismos capazes de mover aqueles carrilhões, a acção do pêndulo afastou por completo os mecanismos baseados no fluxo da água. Ainda assim, a acção de um peso pendurado numa corda enrolada a um eixo apresentava o mesmo problema das clepsidras: sem freio, o tempo fluía e o seu movimento contínuo não permitia desagregar o tempo numa sucessão de fragmentos à qual hoje chamamos minutos e segundos.

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A invenção de reguladores capazes de desagregar o fluxo contínuo (primeiro os pesos e depois as molas) foram o ponto de partida para transferir os relógios grandes e pesados das torres em pedra para as paredes das casas e depois para os aparadores das habitações e, posteriormente, para os bolsos das pessoas para acabarem, finalmente, nos nossos pulsos. A par com o processo de monitorização encontramos uma procura incessante pela precisão.

Olho para o relógio do meu telemóvel e retenho-me a pensar nos relógios atómicos presentes nos satélites que orbitam a Terra e que definem,com uma exactidão sem precedentes, o tempo no mundo. Desprezarmos a importância da medição do tempo é ficarmos do lado de Fora da Caixa.

Pedro Santos – Estudante de Medicina na FMUL

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