Aos 18 anos são muitos os jovens que ainda procuram o seu caminho, mas Tomás Martins parecer ter encontrado o seu no mundo do ensino e do teatro. O jovem encenador e actor acaba de fundar a A-Se.te, academia que pretende formar jovens que nunca tiveram contacto com os palcos e ser um espaço onde os artistas possam criar algo seu. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o jovem scalabitano revela os motivos, os desafios e as ambições para este projecto, sediado na Sociedade Recreativa Operária de Santarém. 

Sendo tão jovem, o que é que te motivou a fundar uma academia de teatro em Santarém?

Desde que tenho contacto com o mundo artístico de Santarém, senti que era necessário criar uma academia que fosse, de facto, uma academia. Ou seja, sempre existiram núcleos artísticos, onde os jovens acabam por se conhecer e ter algum contacto com o teatro, mas nunca houve uma academia cujo objectivo principal fosse, de facto, formar jovens, integrá-los e dar-lhes uma base profissional, acrescentar algo ao seu trabalho.

O que sentias que faltava na oferta cultural actual da cidade para os jovens da região?

Santarém tem muitas oportunidades para os jovens, mas acaba sempre por existir uma lacuna muito grande entre um projecto amador e um projecto profissional. Por exemplo, a própria Sociedade Recreativa Operária, que conta com uma secção de teatro que produz espectáculos comunitários, não vem com o intuito de formar alguém ou de lhe dar algum tipo de formação na área. É sempre mais para ter a experiência de fazer uma peça.

Como é que a Sociedade Recreativa Operária surge como parceira neste projecto?

Eu comecei a trabalhar em 2024 com o Pedro Oliveira, foi ele que fez renascer a Secção de Teatro da SRO. Eu estava na época de estágio no meu curso e, entretanto, surgiu o convite. Juntei-me a ele e desde o início do projecto eu e o Pedro, mesmo com uma grande diferença de idades, sendo ele já actor profissional, sempre nos demos muito bem a nível artístico.

O Pedro Oliveira tornou-se presidente e eu simplesmente formalizei o projecto e apresentei-o à direcção da SRO, que achou que era um projecto que tinha pernas para andar.

A A-Se.te iniciou a sua actividade no dia 04 de Março. Como têm sido as primeiras sessões e o feedback inicial dos primeiros alunos?

O dia da inauguração foi apenas ao nível da apresentação do espaço. Ainda não existiram aulas no local. Nós apenas passámos por uma apresentação, falámos com alguns encarregados de educação e ainda estamos com inscrições abertas, a aguardar por mais alunos. As inscrições vêm com várias perguntas, entre as quais se a pessoa já esteve integrada em algum tipo de projecto artístico. Estamos abertos a formar jovens que nunca tiveram contacto com os palcos, que têm apenas o bichinho pelo teatro e querem de facto experimentar isto.

Um dos objectivos deste projecto é criar produções próprias. Já tens em mente algum texto ou tema que gostarias de levar aos palcos com os teus primeiros alunos?

Eu tenho a vontade de desenvolver esses textos com os alunos, em contexto de sala de aula. Nós vamos trabalhar quatro pilares globais: a interpretação, o movimento, a escrita dramática e a voz. Todo o processo de formação terá por base aquilo que eu sei, com base no meu curso de intérprete de actor/actriz e trabalhos que já fiz com outros encenadores e artistas. Queremos trabalhar vários tipos de texto, não só o dramático, mas também adaptações de textos narrativos para textos teatrais. E por mais que seja eu o formador, vou aprender também com eles.

Qual é a principal competência – para além da representação – que queres que os teus alunos levem para a vida, depois de passarem pela academia?

Acho que a partir do momento em que possam integrar a A-Se.te já têm a mensagem principal que é: não se deixarem levar pela conversa de que são muito novos. Se tiverem força de vontade vão conseguir fazer. O teatro mexe muito com o próprio interior da pessoa, daí que os principais que tentamos transmitir sejam a pessoa ganhar mais confiança e conseguirem-se dar com mais pessoas.

De que forma é que a A-Se.te pode ajudar a renovar o público do teatro em Santarém?

Pensamos não apenas em apresentações de peças de teatro, mas também noutro tipo de produções e eventos culturais. A A-Se.te quer firmar-se não só como academia, mas também ter outros projectos para coordenar. O foco em si é sempre dar prioridade a artistas da região, formar gente cá e fazer com que os artistas acabem por sobressair e dar-se ao público, ou seja, que a academia possa ser um espaço onde os artistas possam criar algo seu.

Quais foram os maiores desafios que encontraste ao fundar um projecto cultural aos 18 anos?

Acho que o maior desafio foi mesmo a idade. O projecto já tinha sido apresentado a outras instituições e acharam-no muito ambicioso, por ser jovem e o meu percurso artístico ser ainda pequeno.

Estás aberto a parcerias com escolas ou outras associações culturais da região?

É um dos principais objectivos também, criar laços entre as várias instituições. Eu penso em fazer de Santarém um grande ponto cultural, porque acho que deve existir mais diversificação e temos muito jovens talentosos que acabam por ser esquecidos.

Que conselhos darias a outros jovens de Santarém que tenham uma ideia, mas que sintam receio de a concretizar?

Acho que antes de tentarem convencer outras pessoas, devem convencer-se a si próprios de vão ser capazes de o fazer. Antes de falarem com mil e uma pessoas sobre a ideia e projecto que têm, convencerem-se a si mesmos que podem receber um não, mas que não podem desistir porque sabem que são capazes. Acho que esse é um ponto vital, não desistir e ter resiliência.

Como imaginas o futuro da A-Se.te no panorama cultural de Santarém?

Imagino a academia a integrar agendas culturais com projectos seus, com várias apresentações ao público e que se possa destacar como um elemento de formação da região. Que possa ensinar não só teatro, mas desenvolver o mundo artístico e as valências que cada artista deve ter. E que principalmente consiga conviver com as outras entidades culturais da região de mãos dadas, para que possamos fazer da cultura de Santarém algo mais rico.

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