A Chef Lara Figueiredo foi distinguida com o Prémio de ‘Chef Pasteleira do Ano’ nos Prémios Mesa Marcada 2025. Natural de Vale de Figueira e a trabalhar no Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) a sua pastelaria nasce do encontro entre cozinha e arte, com ideias que mudam, experimentam e ganham forma à mesa. Em entrevista ao ‘Correio do Ribatejo’ a chef revela o significado deste prémio e desvenda paixões que vão além da cozinha. 

Acaba de vencer o prémio “Chef de Pastelaria do Ano 2025”. O que significa este reconhecimento nesta fase da sua carreira?

É literalmente um prémio por todo o trabalho árduo que têm sido estes anos no mundo da restauração e hotelaria, principalmente na vertente Michelin. Foram muitas horas, muitos sacrifícios, muita coisa para lidar desde cedo, mas este prémio comprova o que a minha intuição diz que é: Nós quando realmente temos os objectivos bem definidos e sabemos por onde queremos ir, mais facilmente chegamos a esses sítios.

Ganhou o seu primeiro prémio aos 16 anos. Olhando para trás, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu nessa fase na EPVT (Escola Profissional Vale do Tejo)?

Muitas vezes achamos que por estarmos num meio mais pequeno e não estarmos em Lisboa ou no Porto, que as outras escolas são melhores ou pensamos que vamos ter mais oportunidades nos outros sítios. A escola sempre me deu todo o apoio e nós tínhamos condições incríveis que as escolas de Lisboa e do Estoril não têm.

Quando é que percebeu que era na pastelaria o seu lugar?

Eu entrei para a escola tinha 15 anos e sempre disse que queria ser cozinheira. Todo o meu percurso foi feito com essa base, sempre fiz pastelaria e cozinha, mas dava mais ênfase à última. Entretanto, quando cheguei à Fortaleza do Guincho, em 2017, percebi que o meu lugar era trazer uma vertente diferente da pastelaria, unir cozinha a pastelaria e mostrar que tudo é possível.

No seu projecto actual no MACAM, como é que a pastelaria se relaciona com as obras de arte do museu?

Acredito genuinamente que quanto mais nós nos exploramos a nós próprios, no sentido de termos hobbies, experimentarmos coisas novas, ajuda esse processo criativo a ser muito mais fácil, porque as ideias surgem muito mais facilmente.

Ao relacionar a pastelaria com as obras, é um pouco não achar que nada é impossível e permitir que essa criatividade flua e não julgar esses pensamentos, mesmo que por muito ridículos ou por muito ousados que sejam.

Costuma descrever-se como “Fada do Ecossistema”. Como é que essa forte ligação à natureza se reflecte visualmente e no sabor das suas criações?

Eu cresci no campo e as minhas realidades sempre foram muito perto da natureza e procuro trazer esses ensinamentos também para a pastelaria. A hotelaria e a restauração conseguem tornar-se áreas que consomem muito da natureza e às vezes, se mudarmos uma pequena coisa, vamos fazer uma grande diferença em todo o ecossistema. Por exemplo, guiar-nos mais pela sazonalidade, não comprar produtos fora de época, se comprarmos que seja congelado, usar fornecedores que estejam mais perto de nós e produtos biológicos e regenerativos. Ou seja, não estarmos a contribuir para tipos de agricultura com uma grande pegada carbónica.

Que benefícios acredita que a agricultura biológica pode trazer à gastronomia?

A sustentabilidade para além do ramo da gastronomia, vai depender muito da educação do consumidor. Se nós comermos uma couve-flor que não é biológica, só temos quase 1% de nutrientes. Enquanto se for biológica já conseguimos 5%. É uma grande discrepância também ao nível nutricional e isso precisa de vir dos consumidores para que nós, chefes e hotéis, tenhamos mais consumidores conscientes que também possam consumir esses produtos. Ao final do dia, se não tivermos quem os consuma, não vale a pena.

Para além da paixão pela cozinha, também nutre um gosto pela apicultura. Como é que surgiu esse interesse na sua vida?

O meu tio tem várias colmeias em Vila Nova da Barquinha e o meu avô na zona de Almeirim. Eu não acompanhei esta ligação desde sempre. Entretanto mudei-me há cerca de seis anos para uma zona rural em Sintra e o meu avô disse-me logo assim que viu o sítio, que era muito bom para abelhas. Eu decidi pôr-me na aventura e ia falando com ele por telefone. Ele disse-me o que é que eu tinha de comprar e comecei a praticar, a estudar, a fazer muitas perguntas e a perceber. As abelhas são o primeiro indicador do ecossistema. Elas são tudo para o nosso equilíbrio e estar tão perto delas, poder ter o próprio mel, cuidar delas e do ecossistema, fascina-me desde o início.

Como é que a sua paixão pelas abelhas influencia a escolha dos ingredientes que utiliza e a narrativa que conta através das suas sobremesas?

No MACAM estamos associados ao Palácio Correio-Mor que tem 80 hectares e um apicultor que tem 40 colmeias. O mel que usamos aqui vem todo do Correio-Mor. Para mim isso é muito importante, porque para além de eu estar a ajudar um apicultor português, a ajudar e promover a apicultura em Portugal, eu também estou a entregar um produto aos clientes que é puro e que é exactamente aquilo que eu queria se eu fosse a um hotel. Portanto, também é ver também o lado do cliente, de consumir o que é português, de promover artes que se estão a perder como a apicultura.

Como alguém que “apostou cedo na pastelaria”, que conselhos daria aos alunos que hoje frequentam escolas de hotelaria e sonham chegar ao topo da pastelaria?

É focarem-se bem no objectivo, porque se quiserem chegar a uma posição reconhecida no mundo da gastronomia é preciso muita dedicação, saber gerir muita coisa, porque se nos chamam a atenção é porque nós estamos a fazer algo errado. É perceber que a culpa não está no outro, ou que o outro nos está a dizer isto para magoar, mas sim porque é preciso ensinar. Perceber que pelo menos os primeiros quatro anos vão ser muito duros, de muito sacrifício, mas o foco convém ser sempre em fazer currículo, aprender com o máximo de pessoas possível.

 

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