O prolongamento do prazo para a limpeza de terrenos até 30 de junho é uma forma de “dar tempo útil” aos proprietários num ano “particularmente sensível”, afirmou hoje a presidente da Associação de Produtores Florestais de Coruche, Rita Bonacho.

Em declarações à Lusa, a também dirigente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) considerou que o prolongamento do prazo para a limpeza de terrenos é uma resposta à necessidade de “dar tempo útil” aos proprietários numa conjuntura marcada por “condições meteorológicas adversas e maior carga de combustível nos espaços florestais”.

O prazo para limpeza dos terrenos para prevenir incêndios florestais na generalidade dos municípios, que terminava no domingo (31 de maio), foi alargado até 30 de junho para todo o território, anunciou hoje o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, numa entrevista à RTP.

Os prazos para os trabalhos de gestão de combustível na rede secundária, no âmbito das medidas de prevenção de fogos rurais, iam até 30 de junho apenas nos concelhos abrangidos pela declaração de calamidade, devido às tempestades de janeiro e fevereiro.

Rita Bonacho disse à Lusa presumir que “a extensão deste prazo resulte de dados concretos que apontam para a necessidade de mais tempo”, ressalvando não dispor de números nacionais sobre o grau de execução das limpezas.

No concelho de Coruche, indicou, a situação está “dentro do expectável”, com “esforço concertado entre proprietários, município e entidades envolvidas”, mas admite que o cenário poderá ser distinto noutras regiões mais afetadas pelas tempestades.

A dirigente sublinhou, contudo, que o debate não deve centrar-se apenas no cumprimento por parte dos proprietários, mas também do Estado, nomeadamente na execução das chamadas faixas de gestão de combustível.

“Muitas vezes, o Estado passa para o privado uma responsabilidade que também é sua”, disse, apontando para atrasos na implementação de faixas primárias, áreas onde a vegetação é reduzida ou controlada para diminuir o risco e a propagação de incêndios.

Segundo a responsável, estas faixas “foram estrategicamente pensadas para garantir a segurança do território”, mas “poucas estão concretizadas”, referindo os elevados custos associados como um dos entraves.

A dirigente disse ainda que as intempéries “vieram não só dificultar como aumentar os custos de limpeza”, ao mesmo tempo que provocaram “perdas significativas para muitos proprietários florestais”.

“Em situações de catástrofe todos perdemos”, frisou, defendendo um reforço das medidas de prevenção e da sensibilização das populações face ao risco de incêndio.

Rita Bonacho destacou ainda o papel das associações florestais e das equipas de sapadores na prevenção e primeira intervenção, sublinhando que, no caso de Coruche, estes meios chegam “em cerca de 80% das situações” antes de outros operacionais.

“A primeira intervenção é fundamental. Conseguir travar um fogo nos primeiros momentos faz toda a diferença”, afirmou.

Apesar das dificuldades, a dirigente acredita que existe um esforço generalizado para cumprir as obrigações, afastando a ideia de incumprimento como foco principal.

“O importante é que as coisas se façam”, disse, defendendo maior articulação entre proprietários, associações, municípios e agentes de proteção civil.

A dirigente reforçou ainda a necessidade de investir numa estratégia de prevenção “da base para cima”, “com maior conhecimento do território e envolvimento local”, num contexto em que “eventos climáticos extremos tendem a tornar-se mais frequentes”.

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