Pessoas com doença mental grave de oito concelhos da Lezíria, estão a ter acompanhamento domiciliário por uma equipa da Associação de Familiares e Amigos do Doente Psicótico (FARPA), no âmbito do projecto InclusivaMente.

A directora técnica da FARPA e coordenadora do projecto, Liliana Silva, disse hoje à Lusa que, no âmbito de uma candidatura ao Programa Operacional Inclusão Social e Emprego (POISE) – Parcerias para o Impacto, a associação iniciou, em Novembro de 2020, o acompanhamento domiciliário a pessoas que são referenciadas pelos municípios ou que tomam a iniciativa, elas ou familiares, de contactar a associação, solicitando esta intervenção.

O projecto, que vai durar até Dezembro de 2022, está a decorrer em oito concelhos que têm ligação directa com o departamento de psiquiatria do Hospital Distrital de Santarém – Almeirim, Alpiarça, Cartaxo, Chamusca, Coruche, Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém -, sendo objectivo, numa segunda fase, abranger os restantes municípios que integram a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT), ou seja, Azambuja, Benavente e Golegã.

“As pessoas tinham esta necessidade”, disse Liliana Silva à Lusa, salientando que alguns dos concelhos já excederam a capacidade de resposta prevista – oito pessoas em cada um, que podem ir rodando à medida que se registam melhorias ou abandono.

Contudo, a preocupação é tentar “encaixar toda a gente, para tentar minimizar o impacto que esta pandemia [da covid-19] ainda trouxe de acrescido a estas questões já tão difíceis e delicadas e que nem sempre são facilmente compreendidas”, disse, sublinhando a importância da articulação entre os vários serviços para o sucesso da intervenção.

O grande objectivo do projecto, que prioriza pessoas (maiores de 18 anos) com “patologias mais disruptivas e desorganizadoras” (esquizofrenia, doença bipolar, depressão major), é a diminuição de internamentos e reinternamentos.

“Cada internamento que se impede significa que a pessoa recupera no seu espaço, tem menos custos para o Serviço Nacional de Saúde, menos impactos na vida daquela pessoa e na sua saúde de uma forma geral”, salientou.

A equipa que se desloca ao domicílio usa estratégias para a reabilitação cognitiva, ao mesmo tempo que aborda questões da gestão da vida pessoal, em articulação com serviços das áreas da saúde, da segurança social, das finanças e das autarquias, disse.

Deslocando-se numa viatura identificada, os elementos da equipa seguem todas as recomendações da Direção-Geral da Saúde, usando equipamentos de protecção individual em cada deslocação e recorrendo, sempre que possível, a espaços exteriores para interagir com as pessoas.

Graças ao apoio concedido ao abrigo dos fundos comunitários e pelos municípios envolvidos, o projecto InclusivaMente vai, além da intervenção domiciliária, promover acções de literacia em saúde mental nas escolas (vertente que não avançou ainda devido aos confinamentos impostos pela pandemia da covid-19), num esforço de sensibilização da comunidade contra o estigma a que são votadas as pessoas com doença mental.

Por outro lado, vai dinamizar grupos de auto-ajuda e realizar ‘workshops’, os primeiros dos quais irão decorrer ‘online’ neste primeiro trimestre do ano, tendo por tema de fundo a pandemia, um sobre luto e perdas e o segundo sobre o que se pode tirar de positivo deste período, sendo a participação gratuita e aberta a quem queira assistir.

“A ideia é sensibilizar a comunidade para estas questões, para a possibilidade de estas pessoas terem uma vida perfeitamente enquadrada na sociedade, integrarem ou projectos de voluntariado ou de trabalho, voltarem aos estudos e serem uma mais-valia na comunidade onde estão. Desmistificar um bocadinho estas questões ligadas às doenças mentais”, disse.

“A FARPA mantém-se há 20 anos como a única instituição em todo o distrito de Santarém especificamente a trabalhar na reabilitação de pessoas com doença mental grave”, salientou, apontando o objectivo de pôr em prática a rede de cuidados continuados em saúde mental, nomeadamente com a existência de uma estrutura.

Com o seu fórum ocupacional instalado na capital do distrito, a associação sente necessidade de “chegar a mais pessoas”, dada a distância que separa a sua sede dos locais onde estão aqueles que precisam de apoio.

Em estudo com a direcção distrital da Segurança Social está a possibilidade de a FARPA integrar a rede de cuidados continuados e vir a ser criada uma residência, “nem que seja para descanso dos cuidadores”, e que é “uma lacuna imensa no distrito”.

Fundada por profissionais do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém e familiares de pessoas com doença mental grave, a FARPA foi constituída em 1998, tendo o seu fórum ocupacional a funcionar numa quinta cedida provisoriamente por um particular, na expectativa da construção de um espaço que permitirá alargar a sua capacidade e que está em fase de elaboração de projecto.

Leia também...

Centro de Referência da ULS Lezíria reconhecido com certificação de qualidade da DGS

O Centro de Referência na área de Oncologia de Adultos – Cancro do Reto da Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS Lezíria) obteve…

Carlos Andrade Costa vai liderar administração do Hospital de Vila Franca de Xira

Carlos Andrade Costa, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo, vai ser o responsável pela transição do Hospital de Vila…

Profissionais da ULS Lezíria apresentam projetos desenvolvidos no âmbito de curso de investigação

Decorreu no passado dia 20 de maio, no Auditório do Hospital Distrital de Santarém (HDS), a sessão de apresentação final dos trabalhos desenvolvidos no…

Concelhos de Constância, Rio Maior, Santarém e Sardoal recuam e ficam sob medidas mais restritivas

Os concelhos de Constância, Rio Maior, Santarém e Sardoal recuam a partir desta sexta-feira, 2 de Julho, na fase de desconfinamento, ficando assim sob…