Uma tarde de conversa entre pai e filha deu origem a uma ambiciosa missão de preservação da cultura ribatejana. Numa corrida contra o tempo, entre a vida no Reino Unido e a idade avançada dos pastores de gado bravo, Teresa Silva pretende honrar o pedido do pai e preservar a herança etnográfica da Lezíria Ribatejana, através do projecto ‘Os Últimos dos Maiorais’, que vai dar origem a um documentário, um livro e ao futuro Museu do Campino.
Durante séculos, as planícies da Lezíria Ribatejana foram domadas pelo pulsar do rio Tejo, que obrigava a uma convivência entre homens e animais. Na solidão dos campos, os maiorais guardavam o gado bravo durante dias e noites, dormiam ao relente e possuíam o engenho de várias artes, como a cordoaria e a cozinha de terra. No entanto, o avanço dos tempos está a apagar esta profissão da história e da memória colectiva.
É precisamente com o intuito de preservar a herança etnográfica e resgatar uma era que está a desaparecer que surgiu o projecto ‘Os Últimos dos Maiorais’, criado pela locutora Teresa Silva, fruto de um pedido do seu próprio pai, o Maioral Mimoso.
“Foi uma conversa que surgiu numa tarde, depois de almoço, em que o meu pai me disse que gostava que as pessoas soubessem o que é esta vida. Deixar uma homenagem à campinagem, porque isto qualquer dia morre, tudo acaba. E eu disse ao meu pai que íamos fazer isso e tem sido um desafio”, contou.
Entre os principais obstáculos encontra-se o facto de Teresa Silva estar a residir no Reino Unido, o que tem dificultado a tarefa de contar as histórias daqueles que dedicaram uma vida inteira às planícies da Lezíria Ribatejana, por intermédio de um documentário que irá conter os testemunhos inéditos de campinos e maiorais na casa dos 80 anos, com recurso a imagens cinematográficas.
“Eu estou em Inglaterra e fico muito agoniada porque eu preciso que eles não morram para conseguir fazer o documentário”, referiu.
Segundo a locutora, existem actualmente cerca de 17 maiorais, sendo que nem todos “viveram a sua vida ao pé do gado, dia e noite”.
“O maioral que havia antigamente era o pastor de gado bravo que ficava dias e noites ao pé deste, nas pastagens, e que só vinha de 15 em 15 dias a casa. Isto actualmente já não acontece. Existem os campinos que já não ficam ao pé do gado, já fazem outras coisas”, explicou.
Para vencer a corrida contra o tempo, é necessário conseguir financiamento para suportar o equipamento e o custo das filmagens. Com a ajuda da comunidade, recorrendo a contribuições por crowdfunding, o projecto já conseguiu angariar 3 mil euros. Além de doações, estão também a ser planeadas iniciativas solidárias, como a realização de uma noite de fados, na Associação Cultural do Rancho Folclórico de Vale da Pinta, e a participação em duas feiras.
“O meu pai fez 83 anos no dia 17 de Abril e tivemos uma noite de fados para a angariação de dinheiros para este projecto”, revelou.
Contudo, o projecto ‘Os Últimos dos Maiorais’, não se fica pela realização de um documentário. São várias as camadas existentes na iniciativa cultural, como a edição de um livro-documento que pretende ser um registo histórico e simultaneamente um manifesto etnográfico e cultural.
“Vamos querer que estejam lá todos os campinos que, infelizmente, já faleceram, mas que queremos honrar e pô-los em memória no nosso livro. Vamos ter uma pequena história e fotografia deles”, destacou.
O espólio resultante do documentário e do livro-documento vai dar origem a algo maior: O futuro Museu do Campino, localizado na Quinta do Pinheiro, no Cartaxo, e que pretende funcionar como um espaço vivo e dinâmico de preservação, com experiências interactivas, demonstrações práticas de ofícios em extinção e um arquivo oral acessível às novas gerações.
“Gostávamos de começar este ano. Eu sou uma sonhadora e acredito que as coisas possam ocorrer muito bem. Não vejo o museu noutro sítio, a não ser na terra da pessoa que o impulsionou, que não é por ser meu pai, mas que conta histórias de uma maneira incrível”, sublinhou.
Com a aprovação da Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC) e o apoio de vários parceiros culturais, a missão de Teresa Silva vai além do pedido do seu pai. A ideia de criar uma fundação surgiu do choque e da realidade que a locutora experienciou durante as filmagens que a própria tem andado a fazer, ao deparar-se com as condições de vida destes homens.
“Já não há, em muitos casos, a companheira ou os filhos não existem ou estão nas vidas deles e, portanto, são pessoas octogenárias que passam uma solidão imensa. Depois casos de pessoas que não têm sequer condições em casa, de higiene. Custou-me muito ver isto”, relatou.
Teresa ambiciona poder ajudar “estes trabalhadores rurais, que tanto deram do seu corpo e não têm nada”, garantindo-lhes apoio na velhice.
“Na fundação nós gostávamos de ter um sítio onde eles, se não houvesse hipótese, pudessem estar ali. Se quisessem ficar na casa deles, teríamos de ter uma equipa que pudesse dar-lhes esse apoio de limpeza, de lhes fazer e de lhes dar a comida. Este é um sonho para mais tarde”, concluiu Teresa Silva num tom de esperança.
Ricardo Santos Pereira
