Quase meio século depois de ter sido furtada, a pintura “O Bibliófilo”, de 1870, da autoria de Manuel Maria Bordalo Pinheiro, regressou finalmente ao seu legítimo lugar no acervo público de Santarém. A entrega oficial decorreu no passado dia 25 de junho de 2025, nas instalações da Câmara Municipal, numa cerimónia marcada pela emoção e simbolismo.

A obra, datada de 1870 e com dimensões de 23 por 29 cm, pertenceu ao espólio doado à cidade por Anselmo Braamcamp Freire, em cumprimento do seu testamento datado de agosto de 1921. O quadro foi identificado em janeiro deste ano num leilão nacional, onde estava a ser colocado à venda pela herdeira de um colecionador de arte do norte do país. Após o alerta da Polícia Judiciária (PJ), o Ministério Público assumiu a condução do processo, que culminou na restituição formal da pintura.

A cerimónia de devolução da obra de arte contou com a presença das inspetoras da PJ, Teresa Esteves e Paula Videira, do vereador da Cultura, Nuno Domingos, do chefe da Divisão da Cultura, Marco Loja, e da diretora da Biblioteca Municipal, Luísa Cotrim.

“O Bibliófilo”, de Manuel Maria Bordalo Pinheiro, junta-se, assim, às outras obras de arte já recuperadas entre 1985 e 1986, do total das 10 peças roubadas, em 1978. Entre elas estão: “Paisagem com Rochedos”, de Vallin -óleo sobre tela, datado de 1793; “S. Pedro Mártir”- óleo sobre madeira do século XVI, de autor desconhecido; “Fuga de Nossa Senhora para o Egipto”, de Brueghel -óleo sobre tela; “Paisagem Holandesa”, de Drovgtroot -óleo sobre madeira, com figuras e ainda “Figuras com Paisagens, com Lago”, também de Vallin, datado de 1793 – óleo sobre tela.

Um furto que marcou a memória da cidade

O furto ocorreu durante a madrugada de 28 para 29 de agosto de 1978, numa altura em que o edifício da Biblioteca Municipal se encontrava em obras de intervenção, remodelação e ampliação do imóvel, doado por Braamcamp Freire. Durante a transferência de várias peças de arte, pertença do acervo patrimonial, para a Câmara Municipal, pelo menos 10 objetos de elevado valor patrimonial desapareceram sem deixar rasto, entre eles pinturas, aguarelas e um relógio de mármore.

Apesar desta importante recuperação, várias obras continuam por localizar, incluindo:” Paisagem com animais”, quadro a óleo da autoria de Conoy; “O Caçador”, um óleo de Bordalo Pinheiro; aguarelas com caricaturas de Alexandre Herculano e Braamcamp Freire, ambas da autoria de Emílio Pimentel; e, finalmente, um peculiar relógio de mármore castanho com pintas brancas.

Um passo importante na preservação da memória

A recuperação de “O Bibliófilo” representa não apenas o resgate de uma peça de arte, mas também a valorização do legado cultural deixado por Braamcamp Freire, figura incontornável da história de Santarém. Este desfecho positivo renova a esperança de que as 4 obras ainda desaparecidas possam, um dia, regressar à cidade de Santarém.

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