O Politécnico de Santarém, enquanto instituição de ensino superior, tem como missão contribuir para a estratégia de desenvolvimento regional, através da qualificação da sua população, do desenvolvimento de investigação aplicada e à transferência desse conhecimento para o tecido produtivo, bem como na promoção do desenvolvimento social, cultural e artístico da região, através da participação activa na agenda local em parceria com os demais actores sociais e municípios.
A propósito do 41º Aniversário do IPSantarém, que se assinala a 6 Junho, o Correio do Ribatejo entrevistou o seu actual presidente, João Moutão, que nos fala da sua estratégia para o desenvolvimento da instituição.
“Na minha perspectiva, o desenvolvimento futuro do Politécnico de Santarém passa pelo aprofundamento da interligação entre cada uma das suas cinco Escolas Superiores, nas áreas Agrária, Educação, Gestão, Desporto e Saúde, e pelo cruzamento das diferentes áreas do saber, fomentando a inovação e a massa crítica. Esta cooperação é crucial para criar massa crítica e inovação, essenciais para dar resposta aos novos desafios de formação da sociedade do futuro, cujas necessidades de formação para o mercado de trabalho não conhecemos ainda”, afirmou.

Que balanço faz deste seu tempo à frente do IP Santarém?
O balanço que faço é positivo, na medida em que a instituição, no meu ponto de vista, reencontrou-se consigo própria e com a região. Tem havido, igualmente, um clima de consenso e disponibilidade para construir e pensar a instituição. Tem existido, também, uma resposta da instituição aos desafios imediatos. Desde logo, destaco a resposta à pandemia, à qual conseguimos dar uma resposta com o envolvimento de todos. Não tivemos surtos, conseguimos manter a nossa actividade e estamos já a envolver-nos naquilo que é a resposta à recuperação. Tenho que ficar satisfeito com este início que estamos a ter.

Quais são as prioridades definidas para o IPSantarém? Que desafios concretos estão identificados?
As duas grandes prioridades relacionam-se com a maior integração e compromisso com o IPSantarém a nível interno. Ou seja: uma maior conjugação daquilo que são as nossas cinco áreas do saber, as nossas cinco escolas, em torno de uma marca, a marca Politécnico de Santarém, que tenha uma dimensão e um impacto que permita afirmar a instituição a nível nacional. Toda uma estratégia acompanhada da prioridade da eficiência organizacional e da melhor gestão dos nossos recursos numa resposta que seja eficiente para a comunidade.

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O Politécnico e autarquia de Santarém iniciaram um ciclo de encontros para criar sinergias e potenciar o crescimento. Actualmente, a oferta formativa está adequada às necessidades da região, ou necessita de ser revista?
O tempo em que nós [Politécnicos] oferecíamos e ensinávamos o que queríamos já passou. O IPSantarém tem que ensinar aquilo que as empresas necessitam e contratam. Mas os processos e metodologias de ensino têm de acompanhar esta mudança da sociedade e a transformação digital. Estamos a fazer um trabalho para que haja, efectivamente, uma maior aproximação a essas necessidades do mercado de trabalho. Com maior participação das empresas no desenho dos cursos e maior envolvimento de quadros das empresas em áreas especificas, procurando inovar nas metodologias de ensino.
Estamos num processo de mudança, até pela nossa natureza de ensino politécnico, para uma forma de ensinar mais aplicada e mais pratica, que nos caracteriza, de forma a que o ensino mais teórico seja substituído por metodologias de ensino activas onde os estudantes aprendem através da resolução de problemas reais que as várias entidades têm e nos apresentam.
Neste momento, estamos envolvidos num processo de capacitação dos docentes, a que chamamos de inovação pedagógica. Com este envolvimento de todos, os estudantes aprendem as competências e isso faz com que eles tenham uma forma de aprender mais ajustada à realidade e ao mercado de trabalho.

Ou seja, uma forma de ensino mais orientada para as necessidades reais da região?
Precisamente. É algo que faz parte dos nossos objectivos: aproximação ao mercado de trabalho, mas, também, de afirmação da nossa matriz politécnica que se diferencia, precisamente, por ter um tipo de ensino aplicado e prático.

Politécnicos do interior, como o de Bragança, são um exemplo na captação de alunos, nomeadamente estrangeiros. Que tem feito o IPSantarém para atrair estudantes? Que medidas estão a ser tomadas?
O IPSantarém cresceu cerca de 300 ou 400 estudantes nos últimos dois ou três anos. Tem tido, igualmente, algum crescimento nos estudantes internacionais que se situa em torno dos 5% do global. Temos tido, portanto, uma procura nacional que sustenta os nossos cursos, mas temos a ambição de uma maior internacionalização. Estamos a posicionar-nos junto de parceiros estratégicos, nomeadamente no Brasil e Cabo Verde e temos protocolos com Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Um dos instrumentos dessa política é a criação de uma pró-presidência para a área da internacionalização.

E em relação à residência de estudantes de Rio Maior. Como está o processo? Perspectivam-se mais alojamentos para estudantes em Santarém?
Obviamente que não é possível aumentar o número de estudantes internacionais sem aumentar a capacidade de alojamento. Em Rio Maior, temos já aprovado o financiamento da residência de estudantes e em Santarém temos já alguns edifícios identificados que pretendemos que façam parte de um plano que possa ser financiado para a construção de residências. Repito: só assim poderemos aumentar o número de estudantes internacionais no IPSantarém.

A crise económica e social que se adivinha pode reflectir-se na procura por parte dos estudantes? O que é que o IPSantarém pode fazer mais para tentar mitigar essa expectável redução da procura?
Esse não é um cenário que se tem confirmado, até porque verificamos um aumento no número de candidatos precisamente o ano passado. Verificou-se que a crise não afectou todos da mesma forma. Afectou mais os menos qualificados e isso permitiu que a sociedade se sensibilizasse para a importância da formação e capacitação. Estou optimista que a procura pelo ensino superior continuará a ser elevada, mas temos que ter um ensino atractivo, instalação atractivas e temos que ter sinergias. Temos, por isso, um rumo claro: continuar a trabalhar na melhoria das instalações, dos nossos cursos, dos nossos currículos e dos nossos docentes, estabelecendo parcerias fortes com entidades empregadoras que permitam uma integração dos estudantes no mercado.

Os politécnicos ainda são uma segunda escolha em termos de ensino superior, ou já não é assim?
São cada vez mais uma primeira escolha. Nós sentimos que esse estigma, que existia, está agora socialmente diluído. A qualificação do corpo docente foi notável, e os critérios e exigência para um politécnico são exactamente aa mesmas que são aplicadas numa instituição de ensino universitário.
O ensino politécnico está centrado num tipo de ensino mais aplicado e mais em conta com aquilo que é o mercado de trabalho, por oposição a um ensino mais teórico. O que faz, até, com que as novas gerações, cada vez, mais valorizem este tipo de aprendizagem. Muitos já dizem que vão para a universidade, estando aqui no IPSantarém. E existe cada vez mais uma afinidade por este tipo de ensino.
Há muitos politécnicos que têm um corpo docente mais qualificado do que muitas universidades. Depois, há um aspecto importante que tem a ver com o território: com as populações a retornarem ao interior e a valorizarem mais esta qualidade de vida aqui oferecida. Já não há a obrigação de ter que ir para uma grande cidade para estudar ou trabalhar.

Doutoramentos nos Politécnicos é uma bandeira que defende? O IP Santarém terá essa capacidade?
Certamente que sim. Nós temos áreas em que os nossos docentes são orientadores de teses de doutoramentos, estão em centros de investigação e temos um corpo docente em quantidade suficiente para cumprir os requisitos.
A única razão pela qual não o podemos fazer ou submeter à agência que aprova, é porque o regime jurídico, actualmente em vigor, ainda não foi alterado e não o permite. Mas já existe uma lei de graus e diplomas que já antecipa essa possibilidade, o que acontece é que o regime jurídico não foi alterado. Hoje está a ser discutido que para que os politécnicos que cumpram os requisitos para conferir o grau de Doutor, o possam fazer nas mesmas condições das universidades, ou seja: aquilo que diferencia a possibilidade de dar o grau são as competências que as instituições têm e não facto de ser uma instituição politécnica ou universitária.

Os novos Cursos Técnicos Superiores Profissionais podem ser uma alternativa à frequência do Ensino Superior? Quais são as suas mais-valias?
Estes cursos permitem uma formação altamente profissionalizante, de grande ligação a um determinado sector e permitem uma entrada rápida no mercado de trabalho. São essas as maiores vantagens deste tipo de formação. Poderá depois, dar acesso à persecução de estudos para um nível académico, quer de licenciatura e, depois, de mestrado. São cursos que dão respostas a necessidades especificas no território e nós estamos a investir na deslocalização deste tipo de cursos. Podemos ter o ensino a funcionar em conjugação com as próprias entidades empregadoras e os sectores produtivos locais. Temos, por exemplo, o caso de Arruda dos Vinhos, que tem toda uma componente no sector agrícola e vitivinícola, onde estamos, precisamente, a promover formação nessa área em conjunto com os produtores, com a indústria, com as empresas daquela região em concreto. Vamos seguindo cada vez mais esse modelo, dando resposta a outras necessidades, em especial na região norte de Lisboa, que é uma região altamente populosa e onde não existe resposta deste tipo de formação e onde existem grandes empresas que precisam de mão-de-obra e que dizem que não tem falta de trabalho. O que têm é falta de mão-de-obra qualificada e é nesta área que temos a nossa missão de qualificar e, acima de tudo, qualificar dando resposta às necessidades concretas das entidades locais.
Quando falamos de fixação de populações sabemos que isso não existe sem emprego. Percebemos a importância do nosso papel: se não fizermos bem o nosso trabalho seremos um impedimento ao desenvolvimento. Queremos, por outro lado, atrair empresas-chave para a região, nos sectores do software, informática, que áreas de futuro.

As novas tecnologias e o ensino à distância provaram que há margem para outras formas de ensino que não o tradicional. Acredita que haverá uma mudança de paradigma na forma como o ensino é leccionado?
Sem dúvida. A transformação digital é transversal à sociedade. E nós temos obrigação, enquanto instituição de ensino superior, de promover as boas práticas. Conseguimos, com este ano e meio de pandemia, evoluir dez em termos de processos de transformação digital. Coisas simples, como fazer uma reunião por zoom, eram complexas, havia resistência, e hoje é pratica corrente. Aprendemos que a tecnologia pode ser amiga do ensino. Permitiram que muitas das faixas de estudantes que abandonavam se mantivessem. O abandono estava associado a dois factores essenciais: a compatibilidade com responsabilidades familiares e laborais, e questões financeiras. A tecnologia de informação e comunicação foi aquilo que possibilitou a participação dos estudantes que não poderiam estar presentes e permitiu até um aumento do sucesso académico. Tal como as questões financeiras: reduz o número de deslocações. Isto já para não falar nas questões ambientais. Claro que substituir um ensino prático por um ensino à distância seria desvirtuar a nossa matriz de ensino. De todo o modo, é compatível com alguma tecnologia, que permita também essa assimilação de conteúdos mais teóricos de uma forma mais inclusiva e com maior possibilidade de autogestão. Se dermos esse passo, vamos chegar de forma mais inclusiva a todos.
Tornar a instituição atractiva passa, também, por termos uma aprendizagem inclusiva e diferenciadora.

O IPSantarém não vive só do ensino, como está a investigação na instituição?
São duas áreas que estão interligadas: sem conhecimento de qualidade não há um bom ensino. Foi feita, por isso, uma aposta grande na mobilização de docentes para centros de investigação próprios. Temos um centro de investigação acreditado pela FCT, com financiamento próprio, que permite apoiar os nossos docentes naquilo que são as suas actividades de investigação. Com este processo de acreditação do Centro de Investigação em Qualidade de Vida – que é o centro de investigação que coordenamos em parceria com o Politécnico de Leiria – agregamos mais de 40 docentes do Politécnico. São seis linhas de investigação que estão a ser trabalhadas e que cobrem todas as áreas de formação que temos no instituto, desde o desporto às ciências agrarias e empresariais. Isto permite, por outro lado, a existência de um conhecimento que surge da interacção entre estas diferentes áreas de saber. Este centro de investigação tem publicado mais de 100 artigos por ano e temos cerca de 50 projectos em curso. Recentemente, criamos um polo de um outro centro de investigação, em Artes e Comunicação, que está a ter um crescimento bastante apreciável.
Este é o caminho que queremos fazer e consolidar. Há um passo que é determinante e que passa por envolvermos mais as empresas da região neste tipo de projectos. Temos que fazer cada vez mais projectos em parceria com entidades locais.

Um estudo do CSISP revela que cada euro de investimento público nos institutos é revertido em, pelo menos, dois euros de actividade económica. Em Santarém, o Politécnico é também um motor da economia local?
No caso do IPSantarém, esse valor atinge os são 3.5 €. O nosso orçamento replica três vezes e meia na economia local e um dos factores que contribui para isso é a população estudantil que conseguimos atrair, a par do investimento nos projectos de investigação que trazemos para a região. Dou um exemplo: vamos realizar a final nacional do Poliempreende, concurso dos institutos politécnicos na área do empreendedorismo, onde vamos receber todos os politécnicos com as suas equipas. São cerca de 300 pessoas na região durante quatro dias. Vamos ter também um evento internacional no âmbito da presidência europeia de Portugal na área do agro-alimentar que também vai trazer investigadores de toda a área do país. Tudo isto gera riqueza. Temos, por outro lado, um projecto mobilizador na área alimentar que está a ter um retorno de cerca de 300.000€ para o Politécnico. E numa outra dimensão importante, que é a componente social e cultural, também o Politécnico é um contribuinte decisivo para a região no sentido dos eventos que desenvolve. Eu gostava muito que o politécnico fosse reconhecido por esse papel porque somos, provavelmente, depois da autarquia, a maior entidade empregadora da região. Contribuímos significativamente para o PIB da região. Por isso, quanto mais o IPSantarém for apoiado, mais retorno terá e mais impacto terá na região.

Ao longo de vários anos que se ouve falar do subfinanciamento crónico do Ensino Superior. Qual é a sua posição sobre o assunto?
Esse subfinanciamento está perfeitamente identificado. Temos cerca de 1,5 do PIB investido em ciência e ensino superior, quando a média europeia se aproxima dos 3. O objectivo é chegar a essa meta em 2030. Os politécnicos têm cerca de metade dos estudantes do ensino superior, mas recebem apenas um terço do financiamento global. Isto acaba por criar constrangimentos ao desenvolvimento das instituições que têm potencial de crescimento como a nossa. Só é possível desenvolver o País de forma equilibrada e equitativa se, realmente, as instituições que promovem crescimento, como é o caso dos politécnicos, com uma implantação especialmente nas regiões do interior, forem apoiadas. Só com investimento nestas instituições é que conseguimos resolver esse problema da coesão territorial. Tem que haver uma mudança política da maior valorização do subsistema politécnico face aquilo que é o ensino universitário. Se ninguém falar, as coisas não vão mudar. E se não mudarem, perdemos todos.

Onde é que gostava de ver o Politécnico daqui a 10 anos?
Eu gostava de o ver crescer em números e qualidade. Número de estudantes, docentes qualificados, mais cursos, número de projectos de investigação, artigos publicados, entre outros parâmetros. Mas é preciso criar condições para que aconteça. Nós estamos mobilizados para que, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), consigamos aproveitar essa oportunidade para dar um impulso para a próxima década. Queremos ter melhores infra-estruturas, e que as escolas tenham estruturas tecnológicas de crescimento. Estamos a procurar, aqui no espaço do Complexo Andaluz, requalificar espaços para poder acolher empresas tecnológicas para nos apoiar. Para que os serviços que temos, como a Fab Lab, ou o Centro de Línguas, possam ter infra-estruturas que prestem serviços à comunidade. Que, na Escola Agrária, possamos requalificar os laboratórios das carnes, um espaço que ficou devoluto e é uma área de formação importante e queremos ter uma estrutura para o Centro de Investigação em Qualidade de Vida. Na área da saúde, estamos apostados em criar infra-estruturas de experimentação tecnológica e científica. O politécnico tem que ter um projecto ambicioso e eu assumo a responsabilidade de mobilizar a comunidade para isso.
Queremos desenvolver um projecto de criação de uma Universidade Europeia e este é o passo seguinte para darmos. Mas, acima de tudo, que daqui a dez anos, a marca Politécnico de Santarém, seja uma marca com maior reconhecimento e que haja, de facto, essa valorização. Vamos, no dia 7 de Junho, [data em que o IP Santarém assinala 41 anos] lançar uma nova marca: queremos que os professores digam orgulhosamente que trabalham no IPSantarém. É fundamental sentir orgulho na marca e dar-lhe dimensão para que, daqui a dez anos possamos olhar para trás e perceber que este caminho deu frutos na região, no País, e a nível internacional.

Filipe Mendes

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