A Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita, no Cartaxo, recebe no próximo dia 07 de Março a apresentação do livro ‘Reencontro de Mim’, da autoria de Ana Batista. A obra poética, que resultou de uma estratégia de estruturação mental e sobrevivência pessoal, aborda a superação da violência doméstica. Ao Correio do Ribatejo, a escritora desvenda o seu processo criativo e aponta as falhas das respostas institucionais no apoio à vítima.

A escritora Ana Batista vai estar na Biblioteca Municipal Marcelino Mesquita (Cartaxo) no próximo dia 07 de Março, às 15h30, para apresentar o seu livro de poesia ‘Reencontro de Mim’. A obra é um testemunho poético sobre vulnerabilidade e sobrevivência à violência doméstica.

“Este livro nasceu como uma tentativa de estruturação mental. Eu não conseguia compreender e organizar o que me estava a acontecer, nem a forma como me sentia”, explica a autora que revela que a escrita surgiu como “uma estratégia de sobrevivência, uma forma de criar padrões, compreender dinâmicas e impedir que os mesmos ciclos se repetissem”.

Ao escrever sobre a sua própria experiência, a escritora procurou “não se agarrar a cada pormenor, nem reviver constantemente tudo o que tinha acontecido”, mas antes procurar que cada palavra deixasse de ser apenas “uma expressão emocional” e se tornasse uma “reconstrução consciente”.

“Cada poema foi uma tentativa de organizar fragmentos, de dar sentido onde havia confusão e perguntas sem resposta”, detalha. 

Nesse sentido, a autora confessa que sentiu “um certo sufoco” ao escrever poemas como “A Escalada do Caos”, “Silêncio Surdo” e “Chantagem do Controlo” que a obrigaram “a regressar a lugares muito densos”. No entanto, a mesma também experienciou momentos que a “permitiram respirar”, através de textos como “Momentos”, “Pequenas Coisas” e “Novo Rumo”, que funcionaram como “pausas de oxigénio”. 

Entre a dor e a resistência, Ana Batista dá voz ao silêncio de tantas mulheres que enfrentaram não só a violência doméstica, mas também critica a “normalização das falhas” e a “falta de questionamento” por parte da sociedade e das suas instituições. 

“Muitas respostas institucionais partem da desconfiança em relação à vítima, obrigando-a a provar continuamente a sua dor, a sua verdade e até a sua sanidade, num processo profundamente desgastante e desumanizador”, afirma a escritora que destaca também a “lentidão processual”, resultando em “decisões que se arrastam durante anos” e que “prolongam o medo, mantém a vulnerabilidade e acabam por funcionar como forma indireta de violência”. 

A “relação difícil” com alguns profissionais da área da saúde mental é outro dos pontos constatados pela poetisa, em especial as recusas de solicitação de relatórios clínicos. 

“A recusa em relatar, aliada à deslocação implícita da responsabilidade, teve um impacto profundo, porque retira à vítima uma das poucas ferramentas de legitimação num sistema que exige constantemente prova”, evidencia.

Ana Batista sublinha, no entanto, o papel desempenhado pela literatura em “romper com a normalização e criar consciencialização”. 

“A literatura pode fazer o oposto: devolver rosto, voz e complexidade às experiências. Não absolve nem acusa mecanicamente, mas obriga a olhar e a pensar — pode ser uma forma de lucidez”, defende. 

Questionada sobre como é que a sociedade civil pode ser um “melhor apoio” para as vítimas, Ana Batista refere que a resposta passa por “acreditar, escutar sem pressa”, bem como “não relativizar a dor e não exigir respostas perfeitas”. 

“Muitas vezes, o gesto mais transformador é simples: não virar o rosto, manter presença e disponibilidade, mesmo quando não se tem a solução”, salienta. 

Desde que foi anunciado, ‘Reencontro de Mim’ tem recebido “mensagens discretas, de reconhecimento e identificação” por parte do público feminino. 

“Tenho recebido mensagens, não apenas de mulheres mais jovens, mas também de mulheres bastante mais velhas, que me dizem: “sei bem o que é”, “também passei por muitas dessas coisas”, “nunca tinha visto isto escrito assim””, revela Ana Batista, acrescentando que este mesmo reconhecimento “atravessa idades e contextos”, confirmando que “as experiências não são exceções nem episódios isolados, repetem-se ao longo do tempo e tendem a ser silenciadas de forma semelhante”.

Relativamente à sessão de apresentação da obra na Biblioteca Municipal do Cartaxo, a autora espera que “mais do que um momento de escuta e de emoção passageira”, este seja um momento em que ocorra “um deslocamento do olhar” e “uma maior consciencialização”. 

“Se cada pessoa sair um pouco mais atenta, menos indiferente e mais disponível para agir quando sente que algo não está bem, o livro terá cumprido o seu papel”, afirma. 

Um livro que constituiu um ‘regresso a casa’, através da poesia e que permitiu a Ana Batista “ouvir-se de novo” e “começar a ganhar confiança em si mesma”, deixando uma mensagem a todas as vítimas de violência doméstica. 

“Ultrapassar o trauma não é apagar o que aconteceu nem “ser forte” no sentido comum da palavra. É um processo longo, irregular, feito de avanços e recuos. Começa quando existe um mínimo de segurança — física e emocional — e quando a pessoa deixa de estar em modo de sobrevivência constante”, declara. 

 

Leia também...

Mês do Sável e da Lampreia regressa a Vila Nova da Barquinha

O peixe do rio vai animar a gastronomia tradicional no concelho de Vila Nova da Barquinha, de 19 de Fevereiro a 27 de Março,…

Trilho Panorâmico do Tejo abre em Fevereiro em Vila Nova da Barquinha

A autarquia de Vila Nova da Barquinha prevê inaugurar no final de Fevereiro o Trilho Panorâmico do Tejo, estando neste momento a decorrer os…

Festival Bons Sons regressa hoje a Cem Soldos renovado e com novos palcos

O festival Bons Sons começa hoje na aldeia de Cem Soldos, em Tomar, renovado e com novos palcos para cerca de 50 concertos de…

Fernanda Narciso inaugurou ‘A Casa’ este sábado na Sala de Leitura Bernardo Santareno

Fernanda Narciso inaugurou no passado sábado, ao final da tarde, o seu novo trabalho ‘A Casa’ que pode ser visitado na Sala de Leitura…