Quarenta edições depois, as Tasquinhas de Rio Maior continuam a afirmar-se como o maior ritual colectivo do concelho. Inaugurada a 27 de Fevereiro, a edição comemorativa dos 40 anos decorre até domingo, 8 de Março, num contexto particularmente simbólico: poucas semanas após as intempéries que deixaram marcas profundas no território, o certame voltou a abrir portas como sinal de continuidade e coesão. Na sessão inaugural, marcada por forte carga evocativa e institucional, o presidente da Câmara Municipal, Filipe Santana Dias, e a deputada e presidente da Assembleia Municipal, Isaura Morais, sublinharam o significado das quatro décadas de história, a força do associativismo local e a capacidade de superação do concelho. Mais do que um evento gastronómico, as Tasquinhas foram apresentadas como património identitário e marca territorial, capazes de mobilizar mais de mil voluntários e de projectar Rio Maior para lá das suas fronteiras, numa edição que junta memória, afirmação e futuro.
Quarenta edições depois, as Tasquinhas continuam a ser muito mais do que um certame gastronómico. São um ritual colectivo, um exercício de memória e uma afirmação de identidade que, ano após ano, transforma o Pavilhão Multiusos de Rio Maior no epicentro de uma comunidade inteira. Inauguradas a 27 de Fevereiro, a 40.ª edição decorre até domingo, 8 de Março, num ambiente que mistura celebração e consciência recente da fragilidade.
Este ano, o arranque teve um peso simbólico acrescido. Menos de um mês depois das intempéries que deixaram marcas profundas no concelho, estimadas pelo município em cerca de dez milhões de euros, a abertura das Tasquinhas foi assumida como sinal de resiliência. Não de esquecimento, mas de continuidade.
Perante um recinto já composto na noite inaugural, com as primeiras filas formadas diante das tasquinhas e o som das bandinhas a percorrer o espaço, o presidente da Câmara Municipal, Filipe Santana Dias, enquadrou a efeméride num arco mais amplo do que o da festa. “Quarenta edições estão longe de ser apenas um marco histórico. São um símbolo. São quatro décadas de histórias colectivas”, afirmou, numa intervenção que cruzou passado, presente e futuro.
Também Isaura Morais, deputada eleita pelo círculo de Santarém e presidente da Assembleia Municipal de Rio Maior, sublinhou essa dimensão comunitária, lembrando que, se o concelho se uniu nos momentos mais difíceis das últimas semanas, “mais facilmente se une nos bons momentos”.
O discurso inaugural acabou por desenhar o fio condutor desta edição: celebrar 40 anos sem ignorar o contexto, agradecer o trabalho feito na emergência e afirmar que as Tasquinhas representam, nas palavras do presidente, “a bonança depois da tempestade”.
Quarenta edições, uma marca identitária
A evocação dos 40 anos não foi mero exercício protocolar. Foi, antes, o eixo central da cerimónia inaugural. Filipe Santana Dias fez questão de inscrever a edição deste ano numa linha de continuidade que começa nas primeiras experiências do certame e atravessa quatro décadas de transformação social e económica do concelho.
“Se hoje estamos a celebrar 40 edições destas Tasquinhas, permitam-me que cumprimente um grande homem desta terra”, afirmou, recordando o papel fundador de Silvino Sequeira, antigo presidente da Câmara Municipal, associado à génese do evento. O gesto não foi apenas de cortesia; foi um reconhecimento explícito de que a longevidade do certame assenta numa visão iniciada há quatro décadas.
“Quarenta edições estão longe de ser apenas um marco histórico. São um símbolo”, sublinhou o actual presidente. “São milhares de horas de trabalho voluntário. São pessoas que cozinharam, organizaram, cantaram, dançaram e, acima de tudo, construíram comunidade.”
A insistência na palavra “comunidade” não é casual. Ao longo da intervenção, o autarca evitou centrar o discurso na dimensão logística ou na contabilidade de visitantes, preferindo sublinhar a natureza participativa do evento. “Esta é uma feira feita por pessoas e para pessoas”, afirmou. “O que se serve à mesa é tradição, mas o que verdadeiramente se partilha é identidade.”
Essa leitura foi reforçada pela deputada Isaura Morais, que destacou a capacidade do concelho em manter “a chama viva” do certame ao longo dos anos. “Talvez seja o evento que envolve o maior número de riomaiorenses”, referiu, apontando para o papel das freguesias e do movimento associativo como garante de continuidade.
O número redondo — quatro décadas — surge, assim, como mais do que estatística. Funciona como legitimação. Depois de 40 edições, as Tasquinhas deixaram de ser apenas uma feira gastronómica anual para se afirmarem como património imaterial do concelho. “Fazem parte da nossa identidade colectiva. São uma marca de Rio Maior”, declarou Filipe Santana Dias.
Essa afirmação ganha peso num contexto em que muitos eventos locais, pelo país fora, têm dificuldades em manter regularidade e escala. Em Rio Maior, o certame não só se manteve como cresceu em dimensão e projecção.
Mas o presidente fez questão de afastar qualquer tentação de saudosismo. “Não podemos viver apenas do passado. Honramos a tradição, mas olhamos para o futuro com ambição”, afirmou, deixando implícito que a celebração dos 40 anos é também ponto de partida para renovação.
Uma feira feita por voluntários
Se há elemento que distingue as Tasquinhas de Rio Maior no panorama dos certames gastronómicos nacionais, é a sua natureza associativa. Ao contrário de muitos eventos semelhantes, aqui não há restauração profissional. Há freguesias, colectividades, clubes, associações culturais e desportivas — e há voluntários.
Filipe Santana Dias sublinhou essa singularidade de forma clara. “Aqui, diferenciamo-nos pela ausência de restauração profissional. Nas Tasquinhas há autenticidade, há dedicação e há voluntariado”, afirmou.
Este ano, participam 17 tasquinhas representativas das freguesias do concelho e do seu movimento associativo, a que se juntam três espaços dedicados a petiscos. Cada uma apresenta receitas que atravessam gerações e que remetem para a memória doméstica, para as festas de aldeia, para a cozinha das avós. “Em cada uma delas encontramos sabores que nos remetem para a infância, para a casa dos avós, para as festas da terra”, referiu o presidente.
Por detrás das bancadas e das cozinhas improvisadas, estão mais de mil voluntários. Pessoas que, durante dias, conciliam trabalho e vida pessoal com turnos de preparação, serviço e limpeza. “São mais de mil pessoas que dão o seu tempo, que sacrificam momentos pessoais, que trabalham antes, durante e depois do evento”, sublinhou o autarca. “Montam estruturas, organizam equipas, cozinham, servem, limpam. Esta é a maior demonstração do que o movimento associativo representa em Rio Maior.”
Isaura Morais reforçou essa leitura ao destacar o papel das freguesias e das colectividades na manutenção da tradição ao longo dos anos. “É a forma como mantêm viva a tradição que faz o concelho crescer”, afirmou, reconhecendo no envolvimento local a principal razão da longevidade do evento.
A dimensão económica, embora relevante, surge como consequência natural dessa mobilização. As Tasquinhas funcionam como importante fonte de financiamento para as associações participantes, permitindo sustentar actividades culturais, desportivas e sociais ao longo do ano. Mas, para os responsáveis políticos, o valor maior continua a residir na coesão.
O presidente não deixou de sublinhar essa dupla vertente: “São tradição, mas são também desenvolvimento. São identidade, mas são também economia.”
Além das tasquinhas, o recinto acolhe cerca de 120 stands dedicados a artesanato, doçaria, vinhos, licores e outras áreas de actividade económica local. “São 120 oportunidades para mostrar talento, inovação e tradição”, afirmou, apontando o certame como “alavanca económica” que dinamiza comércio, alojamento e restauração.
Ainda assim, o núcleo simbólico mantém-se no voluntariado. É essa base humana que, quatro décadas depois, sustenta a afirmação de que as Tasquinhas são mais do que um evento: são um retrato vivo da comunidade.
Uma marca que ultrapassa fronteiras
Ao longo de quatro décadas, as Tasquinhas deixaram de ser apenas um evento local para se afirmarem como referência regional e nacional. Declaradas de interesse para o turismo nacional pelo Turismo de Portugal, consolidaram uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do concelho.
Nas duas últimas edições, o certame ultrapassou os 100 mil visitantes — um número que traduz escala e projecção. Esse dado foi sublinhado na sessão inaugural como indicador da maturidade do evento e da sua capacidade de atracção.
Mas o impacto não se mede apenas em entradas. Mede-se também na dinâmica económica que o certame gera no território. Hotéis, alojamentos locais, comércio tradicional e restauração beneficiam do fluxo de visitantes ao longo dos dez dias. A economia local sente o efeito multiplicador.
Filipe Santana Dias enquadrou essa dimensão estratégica sem perder o registo identitário. “São uma alavanca económica do nosso território”, afirmou, acrescentando que as Tasquinhas funcionam como vitrina daquilo que o concelho tem para oferecer.
Os 120 stands dedicados a vinhos, licores, doçaria, artesanato e outros sectores da economia local ampliam essa montra. O sal e a cebola — dois produtos emblemáticos de Rio Maior — marcam presença, reforçando a ligação entre tradição agrícola e afirmação contemporânea.
Isaura Morais destacou igualmente essa capacidade de afirmação externa, lembrando que o evento projecta a imagem do concelho para lá do distrito. A continuidade ao longo de 40 anos é, para a deputada, sinal de solidez e organização.
A longevidade transforma o certame em marca. E marca implica responsabilidade: manter qualidade, garantir segurança, renovar conteúdos sem trair a essência. O discurso inaugural deixou claro que o desafio é continuar a crescer sem perder autenticidade.
Essa tensão entre tradição e modernização atravessa toda a história das Tasquinhas. Cresceram em dimensão, profissionalizaram organização e logística, mas mantiveram o núcleo voluntário e a representação das freguesias como elemento central.
É nesse equilíbrio que reside a sua força.
A bonança depois da tempestade
A cerimónia inaugural não ignorou o momento particular que o concelho atravessa. Menos de um mês depois das intempéries que provocaram danos significativos em várias freguesias, a realização das Tasquinhas foi assumida como sinal de resiliência colectiva.
Filipe Santana Dias não evitou o tema. Pelo contrário, integrou-o no discurso. “Estas Tasquinhas representam a bonança depois da tempestade”, afirmou, numa frase que marcou o tom da intervenção.
O presidente recordou que o concelho enfrentou, nas semanas anteriores, prejuízos que o município estima na ordem dos dez milhões de euros. Estradas danificadas, taludes instáveis, habitações evacuadas. “Vivemos dias difíceis, dias de enorme exigência”, referiu.
A mensagem central foi a de que celebrar não significa esquecer. “Se nos unimos nos momentos difíceis, também nos devemos unir nos momentos bons”, disse Isaura Morais, reforçando a ideia de continuidade e coesão.
O discurso do presidente assumiu uma linha semelhante. “Mostrámos que somos capazes de responder na emergência. Agora mostramos que somos capazes de continuar”, afirmou.
A realização do certame surge, assim, como gesto simbólico: manter a agenda cultural, assegurar dinâmica económica e afirmar que a vida colectiva não suspende indefinidamente.
Houve também espaço para reconhecimento público do trabalho desenvolvido durante a fase crítica. Filipe Santana Dias agradeceu aos agentes de protecção civil, bombeiros, forças de segurança, funcionários municipais e presidentes de junta pelo esforço nas semanas anteriores. O tom foi de gratidão institucional, mas também de orgulho local.
Ao integrar a tempestade no discurso dos 40 anos, o presidente construiu uma narrativa de continuidade: quatro décadas de Tasquinhas atravessaram crises económicas, mudanças políticas, transformações sociais. A edição de 2026 junta-se a esse percurso, agora marcada pelo contexto meteorológico recente.
“Celebramos 40 anos, mas celebramos também a nossa capacidade de superação”, afirmou.
Entre a memória e o futuro
Celebrar 40 anos implica olhar para trás. Mas a sessão inaugural deixou claro que o objectivo não é cristalizar o passado, é projectar o futuro.
Filipe Santana Dias assumiu esse desafio de forma directa. “Não podemos viver apenas daquilo que fizemos. Temos de garantir que as próximas gerações sintam este evento como seu”, afirmou, sublinhando a necessidade de renovação sem ruptura.
Ao longo do discurso, regressou várias vezes à ideia de continuidade. Não apenas continuidade institucional, mas continuidade geracional. A presença de jovens voluntários nas tasquinhas, a integração de novas associações e a adaptação logística do certame foram apontadas como sinais de vitalidade.
O presidente falou também em ambição. “Melhores do que as Tasquinhas de 2026 só as de 2027”, afirmou, numa frase que arrancou aplausos e que funciona como compromisso público.
Isaura Morais reforçou essa leitura de responsabilidade partilhada. Ao referir-se às quatro décadas do certame, sublinhou que a sua permanência no tempo resulta de trabalho acumulado, mas também de capacidade de adaptação. “As tradições mantêm-se vivas quando sabem renovar-se”, observou.
A exposição dos cartazes das várias edições, patente nesta edição comemorativa, foi evocada como metáfora dessa travessia histórica. Cada cartaz corresponde a um momento do concelho, a um contexto político, económico e social diferente. Quarenta cartazes, quarenta retratos de uma comunidade em transformação.
No plano mais estratégico, a mensagem foi clara: as Tasquinhas são hoje uma marca consolidada. E as marcas exigem planeamento, investimento e visão.
A edição que decorre até 8 de Março é celebratória, mas também afirmativa. Afirma a capacidade organizativa do concelho. Afirma a força do associativismo. Afirma a importância da cultura popular enquanto factor de coesão.
Quatro décadas depois da primeira edição, as Tasquinhas não são apenas um evento anual. São um traço identitário.
Quarenta anos depois, as Tasquinhas permanecem como retrato vivo de um concelho que se reconhece à mesa. Permanecem como demonstração de que o associativismo continua a ser força estruturante. Permanecem como alavanca económica e como marca territorial.
A edição de 2026 acrescenta uma camada à história: a de ter sido inaugurada num contexto de superação recente. Entre estradas a recuperar e taludes por estabilizar, o concelho escolheu manter a sua agenda cultural e afirmar normalidade.
Filipe Mendes
