O Salão Modelo está aberto ao público há 50 anos, comemorando a data da sua fundação no próximo dia 13 de Setembro, sendo uma das lojas mais antigas em funcionamento no Centro Histórico da cidade de Santarém. António Gomes Mendes, de 76 anos de idade, é um dos fundadores desta barbearia histórica, que se manteve no mesmo local desde a fundação na Rua Capelo e Ivens. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o barbeiro lamenta a falta de pessoas que circulam pelo Centro Histórico da cidade, dando como justificação para esta ausência a deslocalização dos serviços que antes estavam no centro da cidade. A recente pandemia também abalou um pouco o negócio e António Mendes garante que ainda não conseguiu voltar a ter os clientes que tinha, mas isso não o faz desistir e promete continuar de portas abertas até ter forças.

Com que idade começou na profissão de barbeiro?
Desde os 14 anos, nos primeiros tempos ainda na aldeia. Depois fui para o serviço militar obrigatório, trabalhei como barbeiro no exército e depois especializei-me em cabeleireiro de homens na escola profissional em Lisboa. Após tirar o curso, fiquei a trabalhar naquela cidade, e em Setembro de 1971 tomei esta casa através de trespasse. Comecei a trabalhar em Santarém quando já tinha 26 anos.

Que diferenças nota na clientela dessa altura para hoje?
Isto tudo se modificou, a cidade e ainda mais o movimento de pessoas. Até a própria sociedade se foi modificando, e naturalmente, também aqui o Centro Histórico. Agora há uma concorrência desleal neste ramo de actividade. Muitas das casas que abriram recentemente trabalham das 9h00 as 22h00, o que me parece algo desleal. Mas eu estou cá há 50 anos e cá me vou governando, mantendo-me fiel aos meus clientes.

Que serviços oferece e como é que se mantém um clientela fiel ao longo de 50 anos?
Os serviços que prestamos no nosso espaço é o corte de cabelo, barba e todo o serviço necessário à beleza do homem. Tenho muita clientela fiel, de todas a idades. Alguns deles corto-lhes o cabelo desde que eram crianças. Outros que já cortam o cabelo cá desde o início do negócio, foram trazendo os filhos e até os netos. Acabo por ter cá a família toda e isso dá gozo no nosso trabalho.

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Como é a sua relação com os clientes?
Eu penso que é uma relação boa porque se isso não acontecesse já não eram meus clientes e já não vinham. Tenho cá clientes desde o início da casa.

O que acha dos novos conceitos de cabelo?
Cada qual sabe de si. Há alguns estilos ou conceitos nos quais eu não encontro beleza nenhuma.

Estamos agora numa nova fase da pandemia, esteve tudo muito parado, mas como avalia agora o regresso?
As pessoas estão a voltar pouco a pouco. No meu ramo abrandou muito, mas já estão a vir. Ainda não está igual ao que era antes.

Isso não o fez perder a vontade e fechar a porta?
Fechei quando fui obrigado, como todos. Isto é a minha sobrevivência e não se deixa um estabelecimento com 50 anos assim de qualquer maneira.

Irá celebrar os 50 anos de casa? Tem algum momento especial preparado?
Sim, no próximo dia 13 de Setembro. Vamos ter um beberete. Vamos iniciar logo às 9h00 com o corte do bolo e vamos seguindo ao longo do dia à medida que os clientes nos vierem cá visitar. É um dia especial para nós e gostaríamos de ter cá os nossos clientes a celebrar connosco.

Já está neste local há 50 anos. Como era a vida aqui nesta rua nessa altura?
Não se compara com os dias de hoje. Veja lá como era há 50 anos, veja o movimento que tem a zona industrial, não existia… estava tudo aqui. O movimento do Hospital, a zona de São domingos não existia, era tudo oliveiras. Só com esse movimento todo aqui concentrado, não haviam portas fechadas. Isto quase parece que as entidades oficiais andaram a enxotar as pessoas aos poucos. Todos os serviços que trazem pessoas à cidade foram-se embora. Não só foi o comércio como foram os serviços também. Havia também a diferença do estacionamento, há 50 anos havia um terço ou menos de carros, mas os serviços traziam muita gente à cidade. Mas sem lugares para os carros, eventualmente os serviços também daqui saíram.

Aqui nesta rua ainda tem vizinhos que cá estavam quando cá chegou há 50 anos?
Só o Venceslau, a Bijou lá ao fundo e talvez a farmácia, fora isso mais ninguém. Todos os outros que cá estavam ou já não existem ou mudaram as instalações para outros locais.

Entrevista originalmente publicada na edição de 10 de Setembro do Jornal Correio do Ribatejo.

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