A Catedral de Santarém, erguida sobre o antigo Paço Real onde D. Dinis morreu em 1325, recebeu esta sexta-feira, dia 21, um colóquio que assinalou os 700 anos da morte do monarca e o centenário do historiador Joaquim Veríssimo Serrão. O encontro, promovido pelo Museu Diocesano, uniu investigação académica, património e responsabilidade política, defendendo que a memória não é exercício comemorativo, mas tarefa de governo. “Sem memória o país não subsiste”, advertiu o bispo de Santarém, D. José Traquina, sublinhando a necessidade de reforçar o ensino e a valorização do património histórico. Na mesma linha, o vice-presidente da autarquia, Emanuel Campos, traçou o paralelismo entre governar e estudar, afirmando que “D. Dinis fez Santarém grande pela política; Veríssimo Serrão fê-la grande pela história”, defendendo a cidade como “coluna mestra de Portugal”. A reflexão foi aprofundada pelo historiador de arte Vítor Serrão, que alertou para a “desmemória” e para o risco de perda de identidade num país onde Santarém continua a afirmar toda a densidade do período medieval, e pelo padre Joaquim Ganhão, que classificou o trabalho patrimonial como “combate permanente” contra o esquecimento. Entre o ‘Rei Trovador’ e o académico que explicou a cidade ao próprio país, o colóquio reclamou para Santarém um papel activo na construção do futuro, sustentando que estudar, preservar e interpretar o passado é condição para que a cidade continue a pensar e a explicar Portugal.

A Diocese de Santarém recebeu, na passada sexta-feira, dia 21, o colóquio dedicado aos 700 anos da morte de D. Dinis e ao centenário do historiador Joaquim Veríssimo Serrão, numa cerimónia realizada na Catedral, edifício que integra vestígios do antigo Paço Real onde o monarca morreu, em 1325.

Na sessão de abertura, o bispo de Santarém, D. José Traquina, destacou que a iniciativa representa um compromisso cívico com o conhecimento histórico e não apenas um exercício comemorativo. “Sem memória o país não subsiste”, afirmou, defendendo o reforço do ensino da História nas escolas e na sociedade em geral. Nesse sentido, acrescentou ser fundamental “valorizar o conhecimento da história […] para aprendermos com tudo, com os aspectos positivos e também com os erros”.

O bispo sublinhou ainda que as instituições do presente carregam responsabilidades herdadas e que a sua missão deve ser continuada com consciência patrimonial. Segundo D. José, as entidades que hoje a sociedade dirige “continuam a ser a beleza e a riqueza comum da sociedade e do país que somos”.

Na sua intervenção, agradeceu a organização científica do encontro, destacando o trabalho de Carla Varela Fernandes e de Eva Raquel Neves, responsável pela equipa do Museu Diocesano.

 

Coube depois ao vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém, Emanuel Campos, estabelecer o paralelismo entre as figuras evocadas. O autarca afirmou que “D. Dinis fez Santarém grande pela política; Veríssimo Serrão fê-la grande pela história”, sustentando que ambos reconheceram a centralidade da cidade como lugar de decisão e reflexão nacional. Segundo o vereador, “ambos perceberam que Portugal só existe porque há lugares que o sustentam”.

Emanuel Campos reforçou que a identidade scalabitana não pode ser tratada como elemento periférico, defendendo ambição cultural e científica para a cidade. “Santarém tem de ocupar o lugar que a sua história exige”, afirmou, defendendo que a herança histórica implica responsabilidade política no presente. Terminou declarando que “Santarém é uma das colunas mestras de Portugal”.

O colóquio prosseguiu com a intervenção do historiador de arte Vítor Serrão, que sublinhou o papel único de Santarém na construção do país. Reforçando a ideia de que a cidade não pode ser reduzida a um capítulo secundário da história nacional, lembrou a expressão cunhada há cem anos por Virgílio Correia: “capital do gótico”. “O título continua vivo”, afirmou, sublinhando que nenhum outro lugar português conserva um património medieval tão diversificado e emblemático.

Vítor Serrão salientou que Santarém mantém um património capaz de demonstrar a relevância política, militar, religiosa e artística do reino ao longo da Idade Média, apesar das perdas causadas pelo tempo, abandono e transformações urbanas. Referiu-se à cidade como um espaço onde subsistem “arquitectura pública e militar, conventos, capelas, tumulária”, defendendo a urgência de reabilitação patrimonial como política cultural activa.

Para o académico, a defesa do património é inseparável da defesa da identidade. “Vivemos uma época em que a desmemória e a perda de uma identidade patriótica está a acentuar-se”, alertou. Em resposta, considerou essencial que Santarém aposte numa estratégia de estudo e conservação que devolva o património à comunidade, afirmando que “uma política autárquica é feita também dos bens patrimoniais”.

O padre Joaquim Ganhão, director do Museu Diocesano de Santarém, reforçou esta mesma ideia, classificando o trabalho académico e museológico como forma de combate cívico. “Um desafio de combate à desmemória, de combate permanente à desmemória”, descreveu, defendendo a articulação entre património, investigação e divulgação pública.

O sacerdote recordou que o edifício onde o colóquio decorre — antiga residência régia, actual Catedral, Museu e Casa Episcopal — testemunhou a morte de D. Dinis em 1325, mas hoje carece de interpretações renovadas que ajudem a comunicar o seu significado histórico. Sublinhou que Santarém precisa de contrariar a ideia de que o essencial já foi estudado: “Desinstalarmo-nos da ideia de que tudo já está estudado é sempre um risco”, afirmou, defendendo uma leitura activa desse “livro de pedra”.

Tanto Vítor Serrão como Joaquim Ganhão convergiram na mesma proposta: estudar e preservar Santarém não é apenas um acto cultural, mas uma forma de governar a memória do país. A identidade, afirmaram, não se recebe — constrói-se.

Património como política de futuro

A sessão evidenciou um consenso entre os intervenientes: olhar para Santarém implica assumir compromissos concretos com o seu património. Não apenas com aquilo que já está preservado, mas, sobretudo, com o muito que continua por investigar, interpretar e dar a conhecer.

Vítor Serrão destacou que o património escalabitano não pode ser encarado como um tesouro passivo. Defendeu a sua reabilitação e estudo contínuo, sublinhando que uma cidade com este legado arquitectural e artístico não pode abdicar da responsabilidade de o projectar. “Mais motivo é para continuar esta batalha de reabilitar património, de devolvê-lo à comunidade e entendê-lo como matriz fundamental da política”.

A ligação entre património e política foi reforçada pelo académico, ao referir que a história e a arte devem ser tratadas como instrumentos de planeamento público, e não apenas como domínios académicos. O historiador aplaudiu ainda a investigação que tem sido desenvolvida no âmbito do gótico português por estudiosos como Paulo Almeida Fernandes e Carla Varela Fernandes, sublinhando a importância de metodologias modernas aplicadas a obras e contextos medievais.

O padre Joaquim Ganhão trouxe a reflexão para o terreno concreto do Museu Diocesano, que tem procurado articular investigação científica, conservação e comunicação pública. Lembrou que o próprio estatuto orgânico da instituição define a obrigação de divulgar a investigação e as figuras relevantes da história da cidade. Isso traduz-se, afirmou, numa acção contínua que pretende contrariar o esquecimento: “um desafio de combate à desmemória, de combate permanente à desmemória”.

O responsável deu como exemplo o projecto que tem permitido o estudo do claustro do Convento de São Francisco, identificando novos elementos e abrindo caminho para um futuro congresso dedicado à história e arqueologia de Santarém. A iniciativa, disse, depende da articulação com a autarquia, deixando mesmo um apelo directo: “não podemos deixar de acarinhar, de motivar e de fazer andar”.

A preservação do património foi também ligada a casos concretos de urgência, como a Igreja de Santa Iria, cujo processo de recuperação, segundo Ganhão, não pode ser interrompido. Na sua intervenção, afirmou que concluir essa obra é vital para a narrativa histórica da cidade.

 

Neste ponto, a mensagem dos oradores convergiu: estudar, conservar e divulgar Santarém não é uma actividade suplementar. É, cada vez mais, uma estratégia para garantir futuro à cidade e ao seu papel no país.

Investigação, legado e o papel de Joaquim Veríssimo Serrão

A homenagem ao historiador Joaquim Veríssimo Serrão, serviu de eixo para a discussão sobre o papel da investigação histórica no destino da cidade. Mais do que recordar um académico, os intervenientes vincaram que o seu trabalho permanece como referência operativa, capaz de orientar políticas culturais e estruturais em Santarém.

O vice-presidente da Câmara, Emanuel Campos, sublinhou que Veríssimo Serrão não estudou Santarém por mero afecto local, mas por reconhecimento da sua relevância nacional. “Não foi apenas mais um historiador; foi o historiador que explicou Portugal ao próprio Portugal”, afirmou, realçando que o historiador investigou a cidade com rigor e documentação, “porque era indispensável à compreensão do país”.

A partir dessa premissa, Emanuel Campos argumentou que reconhecer o legado do historiador implica assumir responsabilidades para o futuro. Segundo o autarca, o pensamento de Veríssimo Serrão devolve à cidade “consciência histórica” e sustenta a ambição de projectar Santarém para fora do seu território administrativo. Afirmou que a história local não pode ser tratada como disciplina menor, defendendo que “cidades como Santarém têm um papel no país que ultrapassa fronteiras administrativas. São centros simbólicos. São referências morais. São âncoras da continuidade nacional”.

Esse papel de Santarém como centro de referência nacional foi retomado pelo padre Joaquim Ganhão, que destacou a proximidade pessoal e institucional que o historiador manteve com a Diocese. Recordou que Veríssimo Serrão participou activamente na orientação inicial de projectos de salvaguarda patrimonial na cidade e cooperou com o Museu Diocesano, destacando a sua disponibilidade intelectual e humana. Referindo-se às suas primeiras visitas à biblioteca do académico, descreveu-o como alguém que, mesmo em idade avançada, “ia buscar o documento no meio daqueles quilómetros de estantes”, exemplificando a sua dedicação e método de investigação.

Nesse sentido, Joaquim Ganhão explicou que o estatuto do Museu Diocesano define como obrigação “promover a investigação científica” e valorizar as figuras relevantes da história de Santarém, entendendo essa missão como fundamento da acção pública. A evocação de Joaquim Veríssimo Serrão, afirmou, “é a melhor forma de homenagear a notável figura escalabitana que celebramos”, pois reforça um compromisso que deve continuar no presente.

Ao longo das intervenções, tornou-se evidente que o colóquio trata o passado como instrumento de futuro. Veríssimo Serrão surge, assim, não apenas como objecto de memória, mas como modelo de trabalho para uma cidade que pretende consolidar a sua posição científica, patrimonial e cultural. A memória, afirmaram os oradores, só tem sentido quando implica responsabilidade sobre o que virá.

Rei e historiador: dois modos de fazer cidade

O encontro promovido pelo Museu Diocesano colocou frente a frente duas formas distintas de construir Santarém: a do poder político do século XIII e a do trabalho académico do século XX. D. Dinis e Joaquim Veríssimo Serrão surgiram como figuras separadas por sete séculos, mas unidas pelo mesmo efeito: fazer da cidade um lugar central na definição de Portugal.

A intervenção do vice-presidente da Câmara sintetizou esta ideia com clareza: “D. Dinis fez Santarém grande pela política; Veríssimo Serrão fê-la grande pela história”. O primeiro governou a partir de Santarém, utilizou o Paço Real como espaço de decisão, reforçou muralhas, fundou instituições religiosas e económicas, deixou testamento dentro das muralhas da cidade. O segundo devolveu Santarém ao centro do discurso histórico nacional, demonstrando a sua relevância documental, política, militar, religiosa e cultural.

Emanuel Campos lembrou, por isso, que a grandeza de ambos se explica pela mesma convicção: “Portugal só existe porque há lugares que o sustentam”.

O autarca evocou Santarém como cidade que pensa e explica o país, defendendo que essa identidade não se limita ao passado, mas implica responsabilidade de quem governa no presente. Nesse sentido, afirmou que reconhecer o legado de D. Dinis e de Veríssimo Serrão significa assumir que “Santarém tem de ocupar o lugar que a sua história exige”.

A mesma ideia esteve implícita nas intervenções de D. José Traquina, ao falar da necessidade de valorizar o ensino da história, e de Vítor Serrão e Joaquim Ganhão, ao defenderem o combate à “desmemória”. Em diferentes registos, todos apontaram o mesmo caminho: a memória é instrumento de governação. Uma cidade que investiga, preserva, interpreta e comunica o seu património é uma cidade que participa activamente na construção do país.

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