Decorreu esta sexta-feira, 18 de setembro, uma intervenção para a remoção de uma barreira fluvial obsoleta na Ribeira de Perofilho, localizada na Quinta da Amendoeira, na União de Freguesias de Romeira e Várzea. O projeto resulta de uma parceria entre a SOS Animal – Portugal e o Município de Santarém, com financiamento do European Open Rivers Programme, programa europeu dedicado à recuperação de rios e ao restabelecimento do seu fluxo e biodiversidade.
O objetivo da ação passou por recuperar um processo natural, permitindo reabilitar a continuidade longitudinal do curso de água, melhorar a conectividade entre habitats e restabelecer processos ecológicos essenciais ao funcionamento dos ecossistemas.
Nesse sentido, a remoção da barreira fluvial contribuirá para melhorar a funcionalidade ecológica da Ribeira de Perofilho e restabelecer movimentos migratórios das espécies aquáticas monitorizadas no âmbito do projeto municipal Reabilitar Troço-a-Troço (RTT), nomeadamente da ictiofauna, favorecendo espécies dependentes da continuidade dos sistemas aquáticos tais como a enguia-europeia, a boga-portuguesa e a lontra-europeia.
“Uma enguia, um peixe, um anfíbio ou uma lontra não precisam apenas que não lhes façamos mal. Precisam que o rio continue a ser um rio. Precisam de água, vegetação, alimento e de conseguir deslocar-se ao longo do seu habitat. A proteção animal começa muito antes de um animal precisar de ser resgatado”, sublinhou Sandra Cardoso, presidente da SOS Animal – Portugal.
Santarém investe em restauro fluvial
A presente intervenção deu continuidade às ações de remoção de barreiras fluviais obsoletas no concelho, iniciadas em 2023, com a primeira remoção intermunicipal (Santarém-Alcanena) no rio Alviela, em Vaqueiros, e seguida de uma segunda intervenção em 2024, também na Ribeira de Perofilho.
O Município de Santarém refere que tem implementado a política pública europeia e nacional na sua estratégia local de valorização dos recursos hídricos e de capacitação societal para os rios e ribeiras da região, através do desenvolvimento da Estratégia Ambiental RHIOS, assente em pilares estratégicos para colocar o território na rota do desenvolvimento sustentável.
A autarquia explica que a mesma trajetória será desenhada com a recuperação e proteção da biodiversidade, a conectividade fluvial, a funcionalidade dos ecossistemas naturais e a qualidade química e ecológica das massas de água, além da mitigação das fontes de poluição e da capacitação das comunidades e das estruturas de decisão.
Pedro Gouveia, vereador da Câmara Municipal de Santarém, afirmou que, com este projeto, a estratégia municipal de ambiente está a ter execução, desejando que o trabalho realizado tenha continuidade em outros concelhos da região.
Um problema invisível
Os rios europeus encontram-se atualmente atravessados por barragens, açudes, passagens hidráulicas e inúmeras outras estruturas artificiais, muitas das quais ficaram abandonadas ou deixaram há muito de cumprir o objetivo para o qual foram construídas.
Segundo o European Open Rivers Programme, existem cerca de um milhão de barreiras a fragmentar os rios europeus, das quais mais de 150.000 são consideradas obsoletas, abandonadas ou já sem função.
De acordo com o relatório Dam Removal Progress 2025, da Dam Removal Europe, foram removidas pelo menos 603 barreiras fluviais em 21 países europeus apenas durante o ano de 2025, permitindo reconectar mais de 3.740 quilómetros de rios.
A Suécia reportou 173 remoções, a Finlândia 143 e Espanha 109. Portugal surge no mesmo relatório com apenas uma remoção reportada.
A intervenção na Ribeira de Perofilho dá continuidade a uma lógica de recuperação progressiva da linha de água, após a primeira intervenção, em 2024, ter restabelecido aproximadamente 2,5 quilómetros de conectividade fluvial e integrado ações de recuperação da vegetação ripícola.
“Quando uma barreira perdeu a função para a qual foi construída e permanece apenas a interromper um ecossistema, removê-la pode ser uma das formas mais simples e eficazes de devolver funcionalidade ao rio. Restaurar a natureza nem sempre significa construir. Muitas vezes significa saber retirar”, defendeu Sandra Cardoso.



