Num território historicamente marcado pela proximidade ao Tejo e por uma perceção de abundância hídrica, a gestão da água em Santarém enfrenta hoje um novo ciclo de exigência. As alterações climáticas, a pressão crescente sobre os recursos e o endurecimento do quadro regulatório europeu estão a obrigar a uma transformação estrutural do sector. Neste contexto, a Águas de Santarém, presidida por Ramiro Matos, prepara um dos maiores investimentos dos últimos anos, na ordem dos seis milhões de euros em 2026, com intervenções no abastecimento, saneamento e reforço da eficiência das redes.

A redução de perdas — que já desceram para 18%, bem abaixo da média nacional —, a aposta na digitalização e a introdução de soluções de reutilização de águas residuais surgem como pilares de uma estratégia que procura garantir sustentabilidade a longo prazo sem agravar de forma significativa os custos para os utilizadores. Ao mesmo tempo, a empresa assume a necessidade de uma mudança cultural no consumo, defendendo uma maior valorização da água da torneira e um uso mais responsável por parte da população.

Num cenário em que a União Europeia coloca a água no centro da agenda estratégica e projecta metas ambiciosas de eficiência hídrica até 2030, Santarém posiciona-se para responder a um desafio que deixou de ser futuro e passou a ser estrutural: gerir um recurso cada vez mais escasso com maior rigor, tecnologia e responsabilidade colectiva.

O Dia Mundial da Água, assinalado a 22 de março, procura chamar a atenção para a importância estratégica deste recurso. Do ponto de vista da gestão local, que desafios concretos se colocam hoje à gestão da água num território como o concelho de Santarém?

O Dia Mundial da Água é, para nós, muito mais do que uma data simbólica. É uma oportunidade de reflexão sobre a responsabilidade que assumimos perante a comunidade e sobre a forma como gerimos um recurso que, sendo essencial à vida, é também cada vez mais escasso e vulnerável.

A gestão da água ao nível local enfrenta hoje desafios que resultam de uma combinação exigente de factores ambientais, infra-estruturais e sociais. Mesmo num território como Santarém, historicamente associado à presença do rio Tejo e a uma percepção de abundância hídrica, tornou-se evidente que a água é um recurso finito que exige uma gestão rigorosa, técnica e estrategicamente orientada para o longo prazo.

Entre os principais desafios destacam-se: a adaptação às alterações climáticas, que introduzem maior irregularidade nos regimes de precipitação; a modernização de infra-estruturas com várias décadas de funcionamento; a manutenção de elevados padrões de qualidade da água distribuída; e a redução consistente das perdas nas redes. A estes somam-se os desafios da sustentabilidade económica do serviço e a promoção de uma cultura de uso responsável da água.

O quadro europeu torna estes desafios ainda mais prementes. Em junho de 2025, a Comissão Europeia apresentou a Estratégia Europeia de Resiliência Hídrica, que coloca a água no centro da agenda de segurança e autonomia estratégica da União, com o objetivo de reduzir o consumo hídrico em 10% até 2030 e financiar, através do Banco Europeu de Investimento, quinze mil milhões de euros em projetos do sector entre 2025 e 2027. Esta visão europeia reforça a pertinência do trabalho que fazemos localmente em Santarém.

O Ribatejo é historicamente associado à abundância de água, muito por força da presença do Tejo. Ainda assim, as alterações climáticas têm vindo a alterar padrões de disponibilidade hídrica. De que forma estas mudanças já se fazem sentir na gestão do sistema de abastecimento no concelho?

A percepção de abundância hídrica que historicamente caracterizou o Ribatejo já não pode ser tomada como garantida. As alterações climáticas traduzem-se numa maior variabilidade dos regimes hidrológicos, com períodos de seca mais prolongados e concentrados, intercalados com episódios de precipitação intensa mas de curta duração, que pouco contribuem para a recarga dos aquíferos.

Esta realidade obriga-nos a gerir o sistema de abastecimento com crescente sofisticação. A monitorização permanente das disponibilidades hídricas, a diversificação das origens de água, a protecção das captações existentes e a optimização operacional das infra-estruturas são hoje prioridades concretas, não opções teóricas.

Os dados europeus colocam este desafio em perspetiva: em 2022, cerca de 34% da população da União Europeia e 40% do território foram afectados por episódios de escassez hídrica sazonal, percentagem que, no sul da Europa, atinge 70% da população nos meses de Verão. Portugal, pela sua posição geográfica e vulnerabilidade climática, está entre os países mais expostos.

Na Águas de Santarém temos respondido com investimento continuado em sistemas de telegestão, em zonas de monitorização e controlo, e em soluções de drenagem sustentável. A resiliência do sistema depende de continuarmos a diversificar origens e a reforçar a capacidade de resposta a cenários de pressão extrema sobre os recursos hídricos.

A garantia de água de qualidade e em quantidade suficiente é uma responsabilidade central de qualquer entidade gestora. Que investimentos ou projetos estruturantes tem a Águas de Santarém previstos para os próximos anos no domínio do abastecimento e do saneamento?

 

Em 2026, a Águas de Santarém tem previsto um investimento global a rondar os seis milhões de euros, um dos orçamentos mais elevados dos últimos anos e que representa um aumento superior a 30% face a 2025. Este esforço é alavancado pelo recurso a fundos comunitários e reflete a nossa determinação em modernizar e reforçar os sistemas ao serviço do concelho.

No domínio do abastecimento, estão previstas obras de fundo: uma nova captação de água subterrânea em Santarém, obras nas instalações da Ribeira de Santarém e a estabilização do talude junto ao reservatório de Santa Catarina, que é uma infra-estrutura crítica para o abastecimento à cidade. Neste vector, o investimento totaliza cerca de 2,29 milhões de euros.

No saneamento básico, que absorve a fatia mais relevante do orçamento, com 3,35 milhões de euros, destaca-se a construção de novos sistemas nas freguesias de Abitureiras e São Vicente do Paúl, investimentos apenas possíveis com comparticipação comunitária. Este projeto inclui duas novas ETAR, 15 estações elevatórias e mais de 40 quilómetros de colectores. Inclui ainda a reabilitação da ETAR de Pernes, onde será instalado tratamento terciário com raios ultravioleta e um sistema de água para reutilização.

Estes investimentos são simultaneamente uma resposta à realidade atual e um posicionamento estratégico face às exigências crescentes da nova Directiva Europeia de Águas Residuais Urbanas, que o Conselho da UE aprovou em Novembro de 2024 e que obriga, progressivamente, ao alargamento e modernização dos sistemas de tratamento.

Um dos temas recorrentes no sector é a necessidade de modernizar infra-estruturas e reduzir perdas de água nas redes. Qual é atualmente a realidade de Santarém neste domínio e que metas estão definidas para melhorar a eficiência do sistema?

A redução de perdas é, para nós, uma prioridade estratégica, tanto por razões ambientais — a água que se perde é um recurso desperdiçado num contexto de escassez crescente — como por razões económicas e de eficiência operacional.

Em 2024, a Águas de Santarém atingiu o melhor resultado da sua história neste indicador: as perdas de água cifraram-se em cerca de 18%, um valor que contrasta com os 33% registados em 2019 e que está muito abaixo da média nacional, que se situa em torno dos 27%. Trata-se de um percurso que nos orgulha e que tem sido consistentemente reconhecido pelos pares do sector.

Para chegar aqui, investimos de forma continuada em vários vectores: alargamento das zonas monitorizadas, implementação de software de gestão de perdas com análise automatizada de dados, contratação de serviços externos de detecção de fugas, melhorias no controlo da telegestão e substituição de condutas mais antigas. Usamos também, de forma pioneira, imagens de satélite para detecção de fugas e inteligência artificial para priorizar intervenções estruturais com base na urgência e no custo.

A nossa meta é continuar a reduzir gradualmente as perdas, aproximando o sistema de padrões de eficiência ainda mais exigentes. A Comissão Europeia, na sua nova Estratégia de Resiliência Hídrica, aponta especificamente para a redução de fugas nas condutas como uma das medidas prioritárias de eficiência hídrica a nível europeu. Estamos alinhados com essa ambição.

A gestão da água envolve também uma dimensão de sensibilização pública. Que iniciativas têm sido promovidas pela empresa para incentivar um uso mais responsável da água por parte da população e das instituições do concelho?

A sensibilização pública é um pilar estruturante da nossa visão de sustentabilidade. O trabalho técnico nas infraestruturas é fundamental, mas não basta: precisamos que os cidadãos sejam aliados na preservação da água.

Temos promovido campanhas de sensibilização digitais e físicas focadas no uso eficiente da água e no combate ao desperdício, com especial atenção à comunidade escolar. Acreditamos que as gerações mais novas são os nossos principais embaixadores nesta causa. Destacamos também campanhas de promoção da água da torneira, cujos benefícios — qualidade garantida, custo acessível e pegada ecológica muito reduzida — são muitas vezes subestimados.

Em termos de eficiência na rede, a nossa aposta na redução de perdas é em si uma forma concreta de sensibilização: mostramos que a empresa é rigorosa na gestão do recurso que distribui, e isso credencia o nosso apelo ao consumo responsável. Promovemos também a adesão à factura electrónica e ao débito directo, canais que favorecem uma relação mais consciente com o consumo.

Organizámos igualmente sessões de esclarecimento sobre gestão sustentável da água e soluções de drenagem urbana sustentável junto de especialistas e autarquias. Em Novembro de 2024, a Águas de Santarém acolheu em Santarém um encontro organizado pela Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas precisamente sobre os desafios da nova Directiva de Águas Residuais Urbanas — um sinal de que queremos ser um polo de conhecimento e debate nesta matéria.

A região de Santarém possui uma forte componente agrícola, atividade particularmente dependente dos recursos hídricos. De que forma a gestão do abastecimento urbano se articula com as necessidades do sector agrícola e com a gestão global da água na região?

Santarém é, pela sua história e vocação, um território de forte identidade agrícola. O Tejo e as lezírias são elementos constitutivos da identidade ribatejana que têm na água o seu denominador comum. Gerir a água num território assim é gerir um recurso partilhado, e isso exige visão integrada.

A Águas de Santarém é responsável pelo ciclo urbano da água, que comporta o abastecimento público e saneamento, que é juridicamente distinto da gestão do regadio, assegurada por outras entidades. Mas os dois sistemas dependem do mesmo recurso, pelo que a articulação institucional é indispensável.

A nível europeu, os dados são claros: a agricultura representa 29% da captação total de água na União Europeia, sendo o sector com maior potencial de poupança. A AEA estima que possa reduzir o seu consumo até 20% com medidas de eficiência. Em Santarém, onde projetos de grande dimensão na área agro-alimentar estão em desenvolvimento, esta pressão sobre os recursos hídricos é real e crescente.

A nossa prioridade é o abastecimento público e a protecção da saúde pública, mas colaboramos activamente com o município e outras entidades para garantir que as decisões sobre o uso da água respeitem o equilíbrio entre os diversos usos e assegurem a sustentabilidade de longo prazo dos recursos hídricos da região.

A sustentabilidade económica dos serviços de água e saneamento é frequentemente um tema sensível, sobretudo quando estão em causa tarifas e investimentos. Como procura a empresa equilibrar a necessidade de investimento com a preocupação de manter tarifas socialmente equilibradas?

Esta tensão é permanente e exige uma gestão financeira muito rigorosa. Temos de investir porque as infra-estruturas envelhecem, as exigências regulatórias e ambientais aumentam e a resiliência do sistema não se mantém por si mesma, mas temos de fazê-lo sem onerar de forma desproporcionada os utilizadores.

Para 2026, o tarifário da Águas de Santarém foi actualizado em 2,1%, em linha com a inflação prevista no Orçamento do Estado. Trata-se de um aumento que considero prudente e necessário para garantir a sustentabilidade operacional, mas que procura não agravar significativamente o esforço das famílias. A factura média mensal de água e saneamento de uma família padrão situa-se nos 22,16 euros, um valor que compara favoravelmente com a generalidade dos municípios portugueses.

Mantemos em vigor o tarifário social, que abrange atualmente 573 clientes, e o tarifário para famílias numerosas, com 132 beneficiários. O número de tarifários sociais cresceu em 2024, o que mostra que estamos atentos às situações de fragilidade económica. Para além disso, o recurso a fundos comunitários, que é um dos factores que nos permite fazer um dos maiores investimentos dos últimos anos em 2026, é fundamental para descomprimir a pressão sobre as tarifas.

A ERSAR, enquanto entidade reguladora, atribuiu em 2024 uma avaliação de 100% ao serviço prestado pela Águas de Santarém, um reconhecimento que engloba tanto a qualidade técnica como a acessibilidade tarifária. Para nós, como disse numa entrevista recente, o que interessa verdadeiramente é a qualidade do serviço prestado e o preço que é praticado.

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