A poucos dias do Dia da Cidade, que Santarém assinala a 19 de Março, o presidente da Câmara Municipal traça ao Correio do Ribatejo um retrato do momento que o concelho atravessa e aponta os eixos estratégicos que pretende concretizar nos próximos anos. Investimento privado, regeneração urbana, valorização da frente ribeirinha, reforço da oferta turística e captação de novas empresas são alguns dos pilares da estratégia que o autarca diz estar em curso.
Na entrevista, João Leite sustenta que Santarém vive actualmente um ciclo de crescimento sustentado, sublinhando indicadores como a redução da taxa de desemprego e a captação de investimento empresarial. Segundo o presidente da autarquia, existem actualmente mais de 600 milhões de euros de investimento em curso ou em preparação no concelho, abrangendo sectores como a logística, a indústria, a hotelaria ou a saúde.
Entre os projectos estruturantes, o autarca destaca a requalificação da frente ribeirinha da cidade, que considera um dos investimentos mais transformadores para o futuro do território, bem como a regeneração urbana do centro histórico e a criação de novas unidades hoteleiras. Em paralelo, refere iniciativas nas áreas da educação, mobilidade e inovação, incluindo o desenvolvimento de um novo intermodal de transportes e a ambição de criar um centro de inovação e tecnologia no concelho.
Ao longo da conversa, João Leite aborda ainda temas como a revisão do Plano Director Municipal, a relação institucional com a oposição, os danos provocados pelas recentes intempéries e os investimentos previstos nas áreas da saúde e do desporto.
Para o presidente da Câmara, o objectivo é claro: posicionar Santarém como um território cada vez mais competitivo e atractivo. “Aquilo que queremos é que Santarém cresça e se afirme como uma das principais capitais de distrito do país”, afirma.
O Dia da Cidade, assinalado a 19 de Março, é um momento simbólico para a identidade colectiva dos scalabitanos. Que significado assume esta data para Santarém e para o concelho?
O Dia de São José é uma data muito especial para Santarém. Trata-se do nosso feriado municipal, ligado ao padroeiro da cidade, e por isso assume um significado que ultrapassa a dimensão meramente institucional. É um momento profundamente simbólico, marcado pela história, pela tradição e pelo sentimento de pertença da comunidade.
Estamos a celebrar São José, mas estamos sobretudo a celebrar Santarém e o concelho. É um momento em que a cidade se reencontra consigo própria e com aquilo que constitui a sua identidade colectiva. Celebramos as nossas raízes, as nossas tradições e os elementos que fazem parte da matriz cultural ribatejana — o cavalo, o touro, o campino, a festa brava, a gastronomia e as manifestações da cultura popular que continuam a dar vida ao território.
Mas é também um tempo de encontro. As festas têm essa capacidade de reunir a comunidade e de reforçar os laços entre as pessoas. Durante estes dias, Santarém vive com uma intensidade particular esse espírito de partilha e de celebração.
Por isso, mais do que uma simples efeméride, o Dia da Cidade é um momento de afirmação da identidade scalabitana. É uma oportunidade para valorizarmos aquilo que somos enquanto comunidade e para celebrarmos a história, a cultura e o património que nos definem enquanto território. Santarém deve viver estes dias precisamente com esse espírito: com alegria, com animação e com orgulho naquilo que representa.
Este é também um momento que convida ao balanço. Que leitura faz do estado actual do concelho de Santarém — do ponto de vista económico, social e do emprego? Quais considera serem hoje os principais desafios do território?
Eu tenho formação na área da economia e, por isso, procuro sempre olhar para a realidade com base em indicadores concretos. Mais do que opiniões ou percepções, prefiro analisar os números disponíveis. E aquilo que os dados revelam, designadamente os indicadores divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, é que Santarém está a crescer.
Esse crescimento é visível em várias dimensões e, em alguns casos, até acima da média da região e do próprio país. Um dos indicadores mais relevantes é o emprego. O concelho apresenta actualmente uma taxa de desemprego historicamente baixa e abaixo da média nacional. Isso significa que o território está a conseguir atrair investimento e criar condições para que empresas se instalem e desenvolvam actividade.
Este é um ponto fundamental. São as empresas que criam emprego e é o emprego que fixa pessoas no território. Se queremos combater fenómenos como o despovoamento ou a perda de população, temos de garantir que existem oportunidades de trabalho e condições de desenvolvimento económico.
Aquilo que temos vindo a observar é precisamente um aumento significativo da capacidade de atracção de investimento privado. Neste momento existem mais de 600 milhões de euros de investimento em curso ou em fase de concretização no concelho. Estamos a falar de projectos relevantes em áreas como a logística, a indústria, a hotelaria e a saúde. Posso referir, por exemplo, o investimento do Hospital da Luz, novos projectos na área da hotelaria ou operações logísticas e industriais que estão a ser desenvolvidas no território.
Recentemente estivemos também presentes no MIPIM, em Cannes, uma das maiores feiras internacionais dedicadas ao investimento imobiliário e ao desenvolvimento territorial. É um espaço onde estão presentes investidores de todo o mundo e onde os territórios têm a oportunidade de apresentar os seus projectos e captar interesse para novas iniciativas empresariais.
Dessa participação trouxemos também sinais positivos. Houve contactos importantes e algumas novidades que reforçam a perspectiva de novos investimentos no concelho. Posso adiantar que existe já o interesse de um grupo internacional em desenvolver um novo projecto industrial e logístico em Santarém, com uma dimensão significativa e com capacidade para gerar centenas de postos de trabalho.
Tudo isto confirma que estamos num momento de crescimento e de afirmação do território. Naturalmente, isso não significa que os desafios tenham desaparecido. Continuamos a ter de trabalhar para reforçar a atracção de investimento, melhorar as condições de habitação, qualificar os serviços públicos e garantir que Santarém oferece qualidade de vida às pessoas que aqui vivem ou que aqui pretendem fixar-se.
O essencial é que o concelho tem hoje condições muito favoráveis para crescer. E os números mostram precisamente isso: Santarém está num ciclo de desenvolvimento que importa consolidar nos próximos anos, e está a ganhar visibilidade no mapa do investimento internacional. A nossa localização geográfica, as acessibilidades rodoviárias e ferroviárias e a proximidade a Lisboa são factores que despertam interesse junto de muitos investidores.
Ao mesmo tempo, é importante sublinhar que esta estratégia não se limita a Santarém enquanto município isolado. A região da Lezíria do Tejo, e agora também a nova configuração territorial que integra o Oeste e Vale do Tejo, tem potencial para afirmar-se como um dos principais territórios de crescimento do país na próxima década. Participar em eventos como o MIPIM é fundamental para posicionar esta região nesse contexto internacional.
Falou também da nova realidade territorial que resultará da criação da NUT Oeste e Vale do Tejo. Que impacto poderá ter essa nova configuração para Santarém e para a região?
Estamos perante uma transformação muito relevante na organização territorial do país. A nova NUT Oeste e Vale do Tejo reúne 34 concelhos e representa um território com cerca de 800 mil habitantes. Isto altera profundamente a escala a que passamos a trabalhar, quer do ponto de vista estratégico, quer do ponto de vista da captação de investimento e do acesso a fundos comunitários.
Esta nova realidade abre-nos uma oportunidade muito importante. Estamos a falar de uma região que, do ponto de vista geográfico e económico, se encontra na área de influência directa da Grande Lisboa. E sabemos que a área metropolitana de Lisboa tem hoje limitações evidentes em termos de disponibilidade de solo, custos de habitação e capacidade de expansão empresarial. Isso significa que os territórios envolventes passam a ter um papel cada vez mais relevante.
A região do Oeste e Vale do Tejo reúne condições muito interessantes para captar esse crescimento. Temos território disponível, temos qualidade de vida, temos boas acessibilidades e temos sectores económicos fortes, desde logo a agricultura, mas também a indústria, a logística e o turismo.
Do ponto de vista dos instrumentos de financiamento europeu, esta nova NUT também ganha uma escala completamente diferente. Estamos a falar de um quadro comunitário que poderá aproximar-se de mil milhões de euros disponíveis para investimento a partir da próxima década. Isso exige que os municípios e as entidades regionais tenham uma estratégia bem definida.
Nos próximos anos teremos de trabalhar muito na preparação dessa estratégia. É um período que deverá ser dedicado ao planeamento, à realização de estudos e à definição das prioridades de investimento para que, quando os novos fundos estiverem disponíveis, possamos aproveitar plenamente essa oportunidade.
Aquilo que tenho sentido nas reuniões com os restantes autarcas da região é uma grande mobilização e uma vontade clara de pensar o território numa escala mais ampla. É evidente que cada município tem as suas legítimas ambições e os seus projectos próprios, mas há também a consciência de que o desenvolvimento regional exige cooperação e visão estratégica.
No caso de Santarém e da Lezíria do Tejo, estamos determinados a participar activamente nesse processo. Temos potencial para afirmar este território como uma das regiões mais dinâmicas do país nas próximas décadas. O desafio agora é transformar esse potencial em realidade através de uma estratégia sólida e de uma actuação concertada entre os diferentes municípios e instituições da região.
Neste momento existem mais de 600 milhões de euros de investimento em curso ou em fase de concretização no concelho. Estamos a falar de projectos relevantes em áreas como a logística, a indústria, a hotelaria e a saúde.
Em termos concretos, quais são hoje as principais prioridades estratégicas do executivo municipal para este ciclo autárquico?
A primeira prioridade que defini quando assumi funções foi muito clara: atrair investimento privado. É um eixo absolutamente essencial para o desenvolvimento do território. Sem investimento não há criação de riqueza, não há emprego e não há capacidade de fixar população. Por isso, a captação de investimento tem sido uma das nossas principais preocupações desde o início do mandato.
Mas o desenvolvimento de um território não se faz apenas com investimento empresarial. É igualmente fundamental garantir qualidade de vida para quem aqui vive ou para quem escolhe Santarém para residir. Nesse sentido, a regeneração urbana assume um papel estratégico, em particular no centro histórico e na Ribeira de Santarém.
No próximo dia 28 de Março vamos apresentar publicamente um conjunto de projectos que fazem parte dessa estratégia de transformação urbana. Não se trata de planos teóricos ou de intenções para um horizonte distante. Muitos desses projectos estão já em execução ou em fase avançada de preparação e vão desenvolver-se ao longo dos próximos anos.
A regeneração da Ribeira de Santarém será uma das peças centrais dessa estratégia. Estamos a falar de uma intervenção que terá impacto no espaço público, na mobilidade, na actividade económica e na valorização do património urbano. Essa transformação vai também criar novas oportunidades na área da hotelaria e do turismo.
Posso adiantar, por exemplo, que estão previstos dois novos projectos hoteleiros de grande dimensão na área do centro histórico e da Escola Prática de Cavalaria, com unidades de quatro e cinco estrelas. Trata-se de investimentos com marcas internacionais, o que significa também uma projecção externa muito importante para Santarém. Estes hotéis trarão visitantes que irão conhecer a cidade, frequentar os seus espaços culturais, os restaurantes e o comércio local.
Outro pilar fundamental da nossa estratégia é a educação e o ensino superior. Os dois institutos politécnicos existentes no concelho têm ambição de crescer e de duplicar o número de alunos nos próximos anos. Para que isso aconteça é necessário criar condições adequadas, nomeadamente ao nível da habitação estudantil. Estamos por isso a trabalhar na criação de novas residências de estudantes no centro histórico, em colaboração com o Politécnico de Santarém.
Há também dois projectos estruturantes que considero verdadeiras âncoras para o futuro do território. Um deles é o novo intermodal de transportes, que estamos a desenvolver em articulação com o Governo e com a Infraestruturas de Portugal. Nas próximas semanas deverão ser apresentadas três localizações possíveis para este equipamento, que será determinante para melhorar a mobilidade e a ligação entre os diferentes modos de transporte.
O outro projecto tem a ver com a criação de um centro de inovação e tecnologia no território. A ideia é desenvolver um espaço que possa funcionar como pólo de investigação, de desenvolvimento e de captação de empresas multinacionais, articulando áreas como a agro-indústria, a tecnologia e a saúde. Este é um projecto que estamos a trabalhar em estreita colaboração com a CCDR e que será apresentado publicamente em breve.
No fundo, aquilo que estamos a procurar fazer é preparar Santarém para uma nova fase de crescimento. Investimento privado, regeneração urbana, educação, mobilidade e inovação são os pilares fundamentais dessa estratégia.
A ligação do Tejo à cidade e a requalificação da frente ribeirinha têm sido apontadas como um dos grandes projectos estruturantes para Santarém. Em que ponto se encontra essa estratégia e que mudanças concretas poderão os cidadãos esperar nos próximos anos?
A relação de Santarém com o Tejo é absolutamente estratégica. Estamos a falar de uma cidade que tem um rio extraordinário, mas que durante décadas viveu afastada dessa realidade. Aquilo que queremos fazer é precisamente inverter essa lógica e aproximar a cidade do seu rio.
O projecto de valorização da frente ribeirinha é, nesse sentido, um dos mais importantes que temos em curso. Aliás, costumo dizer internamente que vamos realizar muitos investimentos relevantes nos próximos anos, mas se tivesse de escolher apenas um projecto para marcar este ciclo de transformação de Santarém, escolheria precisamente este.
É inconcebível que um território com o património natural que Santarém possui não viva plenamente o seu rio. O Tejo tem um potencial enorme do ponto de vista ambiental, turístico e também económico. Aquilo que estamos a preparar vai permitir transformar profundamente a forma como a cidade se relaciona com este espaço.
Do ponto de vista técnico, o projecto de execução está praticamente concluído. O nosso objectivo é lançar o concurso para a obra até ao final deste ano. Já assegurámos também financiamento comunitário para apoiar a concretização da intervenção, o que é um passo fundamental para garantir a viabilidade do projecto.
Mas há uma dimensão adicional que considero muito importante. Paralelamente ao investimento público que será realizado, temos vindo a trabalhar de forma discreta na captação de investimento privado associado à requalificação da Ribeira. A ideia é que este projecto funcione como um verdadeiro efeito multiplicador, incentivando a recuperação do edificado e a instalação de novas actividades económicas naquele espaço.
Esse trabalho de articulação entre investimento público e privado começará a tornar-se visível em breve. Aquilo que vamos apresentar na SIL, em Abril, é precisamente demonstrativo do esforço que tem sido desenvolvido nesse sentido.
Não tenho dúvidas de que a Ribeira de Santarém vai transformar-se profundamente ao longo dos próximos anos. A requalificação da frente ribeirinha permitirá criar novos espaços de lazer, novas oportunidades económicas e uma relação muito mais próxima entre a cidade e o Tejo. Trata-se de um projecto estruturante que marcará o futuro de Santarém durante as próximas décadas.
Se da Ribeira subirmos ao planalto e ao centro histórico, que continua a ser uma das áreas mais sensíveis da cidade, que medidas concretas estão a ser preparadas para combater a degradação urbana e atrair novos residentes para esse território?
A intervenção no centro histórico tem de ser necessariamente multidisciplinar. Não existe uma única solução para revitalizar um território com a complexidade e a dimensão do centro histórico de Santarém. É preciso actuar em várias frentes ao mesmo tempo: no espaço público, na habitação, na cultura, na actividade económica e na mobilidade.
Nos últimos anos já foi feito um investimento significativo na requalificação de praças e espaços públicos, e esse trabalho vai continuar. Temos já projectadas novas intervenções em zonas importantes do centro histórico.
Outra dimensão essencial é a cultura. Estamos a trabalhar num projecto muito importante que envolve a requalificação do Teatro Rosa Damasceno e do antigo edifício do Banco de Portugal. A ideia é criar a futura Casa das Artes e Cultura de Santarém, um espaço que possa funcionar como um pólo cultural de grande dimensão para a cidade.
Estamos também a ultimar a aquisição de um terreno em frente ao teatro que permitirá criar um novo espaço público, com um anfiteatro natural, estabelecendo uma relação directa entre o Teatro Taborda e o Teatro Rosa Damasceno. Este conjunto de equipamentos poderá acolher espectáculos, eventos culturais e actividades ao ar livre, reforçando a centralidade cultural do centro histórico.
A habitação é outro factor decisivo. Um centro histórico só tem vida se tiver pessoas a viver nele. Por isso, o município tem uma estratégia que passa pela aquisição de imóveis devolutos para posterior reabilitação e colocação no mercado habitacional. O objectivo é adquirir, em média, um imóvel por ano, reabilitá-lo e disponibilizá-lo para habitação.
Há ainda uma questão estrutural que estamos a procurar resolver e que tem a ver com o processo de classificação do centro histórico. Actualmente existe um conjunto de limitações administrativas que tornam extremamente difícil a realização de intervenções simples nos edifícios, como a pintura de fachadas ou a substituição de coberturas.
Estamos a trabalhar com a Direcção-Geral do Património Cultural para simplificar esses procedimentos. Definimos um prazo até 31 de Outubro para que haja avanços concretos nesse processo. Caso contrário, a Câmara Municipal poderá optar por declarar a caducidade do actual processo de classificação, que se arrasta há mais de quinze anos sem solução definitiva.
O objectivo é muito claro: criar condições para que os proprietários possam reabilitar os seus imóveis com maior rapidez e menos burocracia. Só assim conseguiremos dinamizar verdadeiramente o centro histórico e devolver-lhe a vitalidade que merece.
A regeneração da Ribeira de Santarém será uma das peças centrais dessa estratégia. Estamos a falar de uma intervenção que terá impacto no espaço público, na mobilidade, na actividade económica e na valorização do património urbano.
A afirmação de Santarém como destino turístico surge muitas vezes associada à valorização do património, da gastronomia e da identidade ribatejana. Que estratégia está definida para reforçar essa dimensão turística do concelho?
Há um ponto que considero absolutamente decisivo e que por vezes passa despercebido: a abertura dos monumentos ao público. Durante muitos anos tivemos um património extraordinário, mas que não estava plenamente acessível. Esse foi um dos primeiros passos que demos e hoje já estamos a ver resultados muito claros.
Ultrapassámos recentemente a marca dos 500 mil visitantes nos monumentos de Santarém. Isso demonstra que existe um interesse crescente pelo património histórico e cultural da cidade. Santarém tem igrejas únicas, um conjunto arquitectónico de grande valor e um património histórico que merece ser mais conhecido e valorizado.
Mas estamos também perante um novo paradigma territorial que pode beneficiar muito a estratégia turística. A criação da NUT Oeste e Vale do Tejo abre um horizonte completamente diferente. Passamos a integrar uma região com enorme diversidade de recursos turísticos: o património histórico do Ribatejo, a gastronomia, a paisagem do Tejo, mas também a proximidade ao litoral, ao golfe e às praias do Oeste.
Estamos a apenas cerca de 25 minutos da costa atlântica, e isso cria uma complementaridade muito interessante entre os diferentes territórios. Aquilo que pretendemos é trabalhar essa estratégia numa escala regional, valorizando a marca Ribatejo mas articulando-a também com o potencial turístico do Oeste.
Naturalmente, para que essa estratégia tenha sucesso é fundamental reforçar a oferta de alojamento turístico em Santarém. Esse é hoje um dos principais constrangimentos. O concelho tem património, tem eventos, tem capacidade para atrair visitantes, mas não dispõe ainda de camas suficientes para responder à procura.
É precisamente por isso que temos apostado na captação de investimento para novas unidades hoteleiras, nomeadamente hotéis de quatro e cinco estrelas. Estes projectos terão um impacto muito significativo na capacidade de Santarém se afirmar como destino turístico.
Há ainda outro aspecto importante: o CNEMA. Este equipamento tem potencial para acolher um número muito maior de eventos de grande dimensão ao longo do ano. No entanto, muitas vezes não conseguimos captar esses eventos precisamente por falta de capacidade hoteleira no concelho.
Com o aumento da oferta de alojamento, poderemos realizar mais congressos, feiras e encontros profissionais em Santarém. Isso significa mais visitantes, mais actividade económica e mais projecção para o território.
Quando falamos de turismo, o objectivo passa por potenciar não apenas a cidade, mas todo o concelho, valorizando de forma integrada recursos como o Mouchão de Pernes — cuja requalificação está prevista —, o Castelo de Alcanede e o Convento de Almoster.
Em síntese, a estratégia passa por valorizar aquilo que já temos — património, gastronomia, cultura e paisagem — e por criar as condições estruturais, nomeadamente ao nível da hotelaria, para que Santarém se possa afirmar como um destino turístico relevante no contexto nacional.
A revisão do Plano Director Municipal tem sido alvo de críticas por parte da oposição, que considera que o documento tem criado dificuldades, sobretudo ao nível da construção. Considera que essas críticas fazem sentido?
A oposição é um elemento essencial da vida democrática, mas deve exercer-se com responsabilidade e com rigor na informação que é transmitida às pessoas. Quando se criam percepções que não correspondem à realidade, isso acaba muitas vezes por gerar ruído desnecessário e por prejudicar a imagem do território.
Aquilo que importa dizer de forma clara é que o actual Plano Director Municipal não foi elaborado por este executivo. O documento foi aprovado em 2017 e, entretanto, passaram já vários anos. Como qualquer instrumento de ordenamento do território, o PDM não é um documento fechado ou definitivo. Deve ser revisto e ajustado sempre que a realidade do território evolui.
E foi precisamente isso que decidimos fazer. A revisão que está em curso tem dois objectivos fundamentais: aumentar as áreas disponíveis para a instalação de empresas e criar mais espaço para habitação. São estas duas dimensões que hoje mais condicionam o desenvolvimento do concelho.
É importante também esclarecer que o actual PDM já contém avanços significativos em relação ao documento anterior. Existem hoje mais áreas destinadas à actividade económica e à construção. Posso dar um exemplo concreto: num terreno que recentemente mostrei a investidores interessados em instalar uma nova unidade industrial em Santarém, o actual PDM permite um índice de implantação de 80%. O documento anterior permitia apenas 60%.
Portanto, nem tudo é negativo, como por vezes se procura transmitir. O que acontece é que o documento já não corresponde totalmente à ambição que hoje temos para o território. Dez anos depois da sua aprovação, é natural que seja necessário ajustá-lo às novas necessidades.
Aquilo que estamos a fazer com esta revisão é precisamente preparar Santarém para um novo ciclo de crescimento. Queremos mais áreas para acolher investimento empresarial e queremos mais capacidade para construir habitação. Sem essas condições será muito difícil acompanhar o ritmo de desenvolvimento que o concelho tem vindo a registar.
Por isso, o apelo que faço é que o debate público seja feito com base em informação rigorosa. A oposição é legítima e necessária, mas deve contribuir para esclarecer as pessoas e não para criar percepções que não correspondem à realidade do território.
O executivo municipal governa sem maioria absoluta. De que forma tem sido possível assegurar as condições de governabilidade e manter o diálogo político no seio da Câmara Municipal?
Temos procurado manter um diálogo institucional permanente com todas as forças políticas representadas na Câmara Municipal. A ausência de maioria absoluta exige naturalmente uma maior capacidade de negociação e de construção de consensos, e isso faz parte da dinâmica normal de qualquer órgão democrático.
Desde o início deste mandato procurei criar condições para que a oposição pudesse participar activamente na definição das principais opções do município. Um exemplo disso foi o processo de elaboração do orçamento municipal. Lancei um desafio aos vereadores da oposição para apresentarem propostas concretas que pudessem ser integradas no documento final.
Essas propostas foram efectivamente apresentadas e algumas delas acabaram por ser acolhidas no orçamento. Isto demonstra que, quando existe vontade de diálogo, é possível encontrar pontos de convergência que beneficiam o concelho.
Tenho dito muitas vezes que a oposição é saudável e necessária. Quanto mais exigente e construtiva for a oposição, mais rigoroso e mais atento terá de ser o trabalho do executivo. Nesse sentido, considero que o debate democrático é sempre positivo.
Naturalmente, também existem momentos em que o confronto político se torna mais intenso. Isso é normal e faz parte da vida pública. Aquilo que considero menos positivo é quando a crítica deixa de ser construtiva e passa a assentar em interpretações que não correspondem à realidade.
No início do mandato cheguei a lançar um desafio mais ambicioso às forças da oposição, propondo a possibilidade de uma participação mais alargada na governação municipal. Esse desafio não foi aceite, quer pelo Partido Socialista quer pelo Partido Chega, cada um por razões próprias. Respeito essa decisão, naturalmente.
Independentemente disso, a nossa postura tem sido sempre a mesma: dialogar, procurar consensos sempre que possível e levar à reunião de Câmara apenas propostas que consideramos serem positivas para o futuro do concelho.
Tenho também afirmado publicamente que, no dia em que sentir que os interesses partidários ou pessoais se sobrepõem ao interesse de Santarém, a população será informada com total transparência. Até agora isso não tem acontecido. A relação institucional tem sido globalmente construtiva e espero que assim continue, porque o que está em causa é o desenvolvimento do concelho.
Ultrapassámos recentemente a marca dos 500 mil visitantes nos monumentos de Santarém. Isso demonstra que existe um interesse crescente pelo património histórico e cultural da cidade.
As recentes intempéries provocaram danos significativos no concelho, desde estradas a encostas e infraestruturas. Como está a decorrer o processo de recuperação?
O impacto das intempéries foi muito significativo e exigiu uma mobilização imediata dos serviços municipais. Desde o primeiro momento tivemos de actuar com rapidez para garantir a segurança das populações e começar a avaliar os danos provocados pelas cheias e pelos deslizamentos de terras.
No dia em que fomos informados de que poderíamos enfrentar uma das piores cheias do século, tomámos imediatamente a decisão de evacuar três zonas da Ribeira de Santarém. Foi uma decisão preventiva, tomada em poucos minutos, e que alguns consideraram na altura prematura. No entanto, continuo convicto de que foi a decisão correcta. Em situações desta natureza, a prioridade absoluta é sempre proteger a vida das pessoas.
Quanto aos apoios às populações, importa esclarecer alguns dados concretos. No concelho de Santarém foram submetidos 162 pedidos de apoio, que correspondem a cerca de 930 mil euros em prejuízos identificados. Os técnicos da Câmara Municipal analisaram e validaram praticamente todos esses processos, tendo já sido aprovados cerca de 350 mil euros.
Até ao momento, as famílias receberam cerca de 70 mil euros. Ou seja, se existe algum atraso no pagamento dos apoios, ele não decorre do trabalho das autarquias. As câmaras municipais fizeram a sua parte e mobilizaram os seus serviços para dar resposta rápida a este processo. O pagamento dos apoios é efectuado pela CCDR, ou seja, pela Administração Central.
Quero também deixar uma nota positiva em relação à decisão do Governo de criar um mecanismo de apoio directo às populações afectadas. Trata-se de uma medida inédita, pelo menos na dimensão em que foi implementada, e que implica a mobilização de muitos milhões de euros.
Para termos uma ideia da escala deste processo, no concelho de Santarém os prejuízos rondam os 900 mil euros, mas no conjunto da região da Lezíria do Tejo os valores aproximam-se dos 15 milhões de euros. Noutros territórios, como Leiria, os danos são ainda mais elevados.
Paralelamente, o município tem vindo a avançar com intervenções urgentes para recuperar infraestruturas danificadas. Até ao momento já investimos cerca de 500 mil euros na reparação de estradas, taludes e outras estruturas. No entanto, as necessidades totais são muito superiores.
Só no caso das encostas estamos a falar de cerca de 28 milhões de euros de investimento necessário. Existem cerca de quarenta situações de deslizamento identificadas, sendo que duas delas — a encosta das Quebradas e a encosta junto à zona do Pereiro — são consideradas prioritárias.
O Governo já manifestou disponibilidade para criar linhas de financiamento específicas para este tipo de intervenções, o que será fundamental para que possamos avançar de forma faseada com as obras de estabilização das encostas.
No fundo, aquilo que aconteceu demonstrou também a capacidade de resposta do município. Num momento muito difícil, Santarém soube mobilizar os seus serviços e actuar rapidamente para proteger as pessoas e começar a recuperar o território.
Para terminar, gostava ainda de abordar duas áreas estruturantes para a qualidade de vida das populações: a saúde e o desporto. Que investimentos estão previstos nestes sectores no concelho?
Na área da saúde temos assistido a uma dinâmica muito interessante no território. Por um lado, há investimento privado significativo, como é o caso do Hospital da Luz, um projecto superior a 50 milhões de euros que deverá abrir portas ainda este ano. Trata-se de um investimento muito relevante que irá reforçar a oferta de cuidados de saúde na região.
Ao mesmo tempo, o próprio hospital público tem vindo a reflectir sobre a necessidade de expansão das suas instalações. Vejo com bons olhos essa ambição do conselho de administração da unidade hospitalar, porque o que importa é reforçar a capacidade de resposta do sistema de saúde no território. O município está naturalmente disponível para colaborar com o Governo e com as entidades responsáveis sempre que seja necessário defender soluções que melhorem os cuidados prestados à população.
Mas a saúde também se constrói muito ao nível da proximidade, nas freguesias. Temos actualmente em curso um conjunto de intervenções em unidades de saúde locais, num total de onze equipamentos, que vão beneficiar de obras de requalificação. Estamos a falar de centros de saúde e extensões em várias freguesias do concelho, como Valada, Romeira ou Várzea, entre outras.
Estas intervenções representam um investimento que ronda os dois milhões de euros e permitirão melhorar significativamente as condições de funcionamento destes equipamentos e o atendimento às populações.
No desporto, temos igualmente um plano de investimento muito significativo para os próximos anos. Apresentámos logo no início do mandato uma estratégia que prevê cerca de 15 milhões de euros de investimento em infraestruturas desportivas ao longo de quatro a cinco anos.
Entre os projectos em curso está o novo relvado sintético da Escola Superior Agrária, que deverá ser inaugurado em breve, e a construção da nova pista de atletismo, cuja conclusão está prevista para 2027. Temos também intervenções em curso no campo de futebol de Alcanede, na Academia de Futebol e na futura cidade desportiva.
Outro projecto importante é a requalificação do campo da Ribeira de Santarém, cuja primeira fase deverá arrancar em breve, integrada na estratégia mais ampla de valorização daquela zona da cidade.
O investimento no desporto tem também uma dimensão de saúde pública e de qualidade de vida. Equipamentos desportivos de qualidade permitem promover estilos de vida mais activos, criar oportunidades para os jovens e reforçar a dinâmica associativa do concelho.
Aquilo que estamos a fazer nestas áreas — saúde, desporto, educação, cultura ou regeneração urbana — faz parte de uma estratégia global de desenvolvimento do território. O objectivo é criar condições para que Santarém seja cada vez mais um concelho atractivo para viver, trabalhar e investir.
Olhando para o horizonte dos próximos anos, que marca gostaria de deixar em Santarém quando este ciclo autárquico terminar?
Vejo essa marca em duas dimensões distintas. A primeira é uma dimensão imaterial, mas talvez a mais importante de todas: que os scalabitanos sintam um orgulho profundo na sua cidade e no seu concelho. Que tenham amor pela sua terra e que sintam que Santarém é um território onde vale a pena viver, trabalhar e construir futuro.
Essa dimensão constrói-se através de muitas coisas: através das obras que se realizam, das oportunidades que se criam, da qualidade de vida que se oferece às pessoas e da capacidade de mobilizar a comunidade em torno de um projecto comum. Ao longo desta entrevista falámos de vários projectos concretos — na regeneração urbana, na educação, na cultura, no desporto ou na captação de investimento — e é a concretização dessas iniciativas que pode gerar esse sentimento de pertença e de orgulho colectivo.
Santarém precisa de acreditar mais em si própria. Ao longo de muitos anos houve, por vezes, uma certa tendência para olhar o território com algum pessimismo, como se estivéssemos condenados a ficar para trás. Aquilo que estamos a fazer é precisamente o contrário: demonstrar que Santarém tem potencial para crescer, para se afirmar e para desempenhar um papel relevante no país.
A segunda dimensão dessa marca é mais material e tem a ver com o posicionamento estratégico do concelho. Aquilo que ambiciono é que Santarém se afirme como uma das principais capitais de distrito de Portugal. E acredito que temos todas as condições para o conseguir.
A nossa localização geográfica é extraordinária. Estamos servidos por grandes eixos rodoviários como a A1, a A23, a A15 e a A13, temos a principal linha ferroviária do país, estamos a cerca de meia hora de Lisboa e dispomos de um território com qualidade de vida, boas escolas e potencial para atrair investimento.
Se conseguirmos concretizar os projectos que estão em curso — a regeneração urbana, a valorização da Ribeira, a captação de investimento privado, o reforço da oferta educativa e cultural — Santarém terá condições para se afirmar como um verdadeiro pólo de desenvolvimento.
Aquilo que espero é que, no final deste ciclo, possamos olhar para trás e dizer com confiança que Santarém cresceu, que ganhou nova dinâmica e que se posicionou como uma das principais capitais de distrito do país. Estou convencido de que esse caminho está a ser construído.




