Bernardo Santareno escrevia muitas vezes a pensar que as suas peças nunca seriam representadas. O tempo deu-lhe uma certa razão: a obra daquele que foi um dos mais originais dramaturgos portugueses do século XX está editada, mas permanece insuficientemente representada e os seus textos deixaram de ser leitura obrigatória nas escolas. Mas não foi só consagração de palco que faltou a Santareno.

Na opinião do historiador José Miguel Noras, que acaba de lançar a biografia do dramaturgo, a cidade e o país tem para com ele uma “dívida de gratidão”. “Bernardo Santareno é grande demais para ser escondido em Santarém, mas, atenção, façamos um bocadinho mais por ele em Santarém. Para sermos credores deste legado incomensurável”, pediu.

O livro “Bernardo Santareno da nascente até ao mar”, da autoria de José Miguel Noras, foi lançado dia 19 de Novembro, no Fórum Mário Viegas, na data do centenário do nascimento do médico, poeta e dramaturgo, nascido em Santarém.

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Com a chancela da Âncora Editora, esta biografia desenvolve-se ao longo de 448 páginas, com 619 notas de rodapé e mais de uma centena de fotografias.

“Um homem, um qualquer homem, é uma unidade e continuidade complexa, e tanto mais complexa quanto mais faz da vida uma aventura de assumido risco. Para bem evocar um homem há, pois, que evocar essa sua totalidade. E é isso que José Miguel Correia Noras pretende fazer nesta obra, de divulgação de inéditos, de reconstituição da biografia de Bernardo Santareno e, também, de justa homenagem.”, lê-se na nota de abertura desta obra, a cargo de António Ramalho Eanes.

Mas, mais do que recordar o dramaturgo e a sua obra, para José Miguel Noras a cidade e o país tem-lhe uma dívida de gratidão. Por isso, na apresentação desta obra, sugeriu a criação de uma fundação e atribuição do seu nome ao Hospital Distrital de Santarém.

Em 1957 e em 1958, Bernardo Santareno embarcou como médico de bordo na frota bacalhoeira portuguesa que se dirigia todos os anos para a Terra Nova e Gronelândia, integrado na equipa do navio hospital Gil Eannes – mas viajando também em arrastões como Senhora do Mar e David Melgueiro, onde testemunhou as precárias condições de higiene, de salubridade e as jornadas de trabalho, muitas vezes ininterruptas, de dezenas de horas, a que os pescadores, parcamente pagos, eram sujeitos.

A experiência a bordo de António Martinho do Rosário foi a matéria-prima para a transposição poética da dura realidade da faina bacalhoeira nacional que a obra literária de Bernardo Santareno imortalizou de forma ímpar.
“Diz-se que Bernardo Santareno foi o assassino de António Martinho do Rosário. Ou seja: António Martinho do Rosário foi suplantado por Bernardo Santareno. Mas, será bem assim?”, questionou, convidando à reflexão sobre este facto.

“Pensemos: um dos médicos mais brilhantes, que conseguiu formalmente uma especialidade em saúde pública e informalmente outra, porque não havia sequer, na altura, Colégio nem Ordem dos Psicólogos Clínicos, que durante cinco anos deu consultas à borla, não merecia ter o nome no Hospital de Santarém?”, questionou

“Nós demos os passos informais, mas está na altura de dizermos, olhos nos olhos com clareza, que Bernardo Santareno, enquanto médico, sempre solidário, pondo o detalhe da observação do doente até ao limite, esticando o rigor da medicação, possa ter, sim, o nome do nosso hospital”, disse.

O ex-presidente da Câmara de Santarém defendeu, ainda, a criação de uma fundação dedicada à vida e obra do escritor e a sua instalação na casa onde o Bernardo Santareno nasceu, que foi adquirida pela Câmara Municipal durante a sua presidência e que se encontra abandonada e em degradação.

“Bernardo Santareno é grande demais para ser escondido em Santarém, mas, atenção, façamos um bocadinho mais por ele em Santarém. Para sermos credores deste legado incomensurável, meditemos se o Instituto Bernardo Santareno, que foi proficientemente dirigido por Vicente Batalha, tendo projectado o nome da nossa terra, se merece ou não ser fundado”, apelou José Miguel Noras, doutorado em História pela Universidade de Lisboa e presidente do Conselho de Curadores da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico.

“Ou mais: se em vez do Instituto, não deveria haver uma fundação e se a casa onde nasceu Bernardo santareno, que é propriedade da Câmara e está ao deus dará, a cair, não deve ser requalificada e transformada numa residência artística e num centro interpretativo da sua obra”, apontou José Noras.

Sugeriu ainda, qua a casa na freguesia da Póvoa da Isenta, que albergou resistentes da luta antifascista, entre os quais Octávio Pato, seja transformada num “Centro de Resistência”. “São acções fundamentais”, declarou.

O livro “Bernardo Santareno da nascente até ao mar” tem nota de abertura do General António Ramalho Eanes (que condecorou Bernardo Santareno), prefácio de João Luiz Madeira Lopes, director da revista “Seara Nova”, e posfácio do representante da família de Bernardo Santareno, Joaquim Martinho da Silva.

No momento da apresentação da obra que, em Santarém, esteve a cargo de Jacinto Rego de Almeida (escritor e diplomata) e de Rejane Wilke (escritora e jornalista).

Para o diplomata, a obra de Santareno possui uma “larga variedade e ampla qualidade”: um conjunto de 19 títulos, “onde se concilia o sentido de espectáculo com a perspectiva de qualidade literária e com a evocação analítica de problemas pessoais, familiares e sociais”, que a biografia agora apresentada vem lançar uma nova luz.

José Miguel Noras, justificou este exaustivo trabalho de investigação como a resposta a um desafio lançado numa reunião de amigos há cerca de cinco anos. Com o trabalho acabado, o autor diz que se sente agora como um porteiro, com a missão de convidar os leitores a entrarem dentro da sua obra.

Comemorações do Centenário prosseguem
Em Alcanena, o lançamento do livro contou com a intervenção de Vicente Batalha, no cineteatro São Pedro, seguindo-se depois Alcobaça, Almeirim, Alpiarça, Caldas da Rainha, Coimbra, Golegã, Lamego, Lisboa, Nazaré, Porto e Tomar, em datas ainda a anunciar.

Também no dia 28, às 16h00, a Escola de Mulheres, em Lisboa, promoveu um colóquio, em que propôs a comemoração “do autor e homem”, que especialistas em literatura consideram o maior dramaturgo português do século XX.

“Português Escritor 40 anos de Saudades” foi o título da iniciativa, apelando ao título de outra das peças do autor, “Português, Escritor, 40 anos de Idade”, estreada em 1974.

O colóquio contaou com a participação de amigos de longa data de Bernardo Santareno, como os actores José Sinde Filipe, Luís Lucas, Françoise Ariel, também produtora, e Isabel Medina, que co-fundou a Escola de Mulheres com Fernanda Lapa, assim como do encenador Nuno Carinhas.

A iniciativa foi moderada por Marta Lapa, que também chegou a conhecer o escritor. As comemorações do centenário de nascimento do militante antifascista, homem de esquerda e activista contam ainda com a exibição de excertos do vídeo de “BernardoBernarda”, uma criação de 2005 da Escola de Mulheres, com encenação de Nuno Carinhas.

No dia 12 de Dezembro, às 16h00, serão exibidos extractos em vídeo da peça “A Promessa”, de Bernardo Santareno, uma encenação de João Cardoso para o Teatro Nacional S. João (TNSJ), estreada em finais de 2017.
A falar sobre esta peça estará o pintor, cenógrafo, figurinista e encenador Nuno Carinhas, que fez a direcção artística do TNSJ durante cerca de dez anos, até à nomeação de Nuno Cardoso, no final de 2018.

Papel de “primeiro plano” no teatro português
Bernardo Santareno nasceu a 19 de Novembro de 1920, em Santarém. Formado em Medicina, com especialização em psicologia, Bernardo Santareno, pseudónimo de António Martinho do Rosário, foi um dos maiores dramaturgos portugueses.

Durante anos, conciliou a sua prática médica com a escrita para teatro, alcançando, desde a sua estreia nos anos sessenta, um papel de primeiro plano no teatro português.

Correntemente divide-se a sua dramaturgia em dois grandes momentos; um primeiro que corresponde às peças escritas entre 1957 e 1962 (A Promessa, O Bailarino, A Excomungada, O Lugre, O Crime de Aldeia Velha, António Marinheiro, Os Anjos e o Sangue, O Duelo, O Pecado de João Agonia e Anunciação), período de “reflexão e busca de novas formas de expressão”, segundo Luiz Francisco Rebello.

Um segundo momento, bastante distinto, é inaugurado com O Judeu, marcando a passagem de um esquema mais tradicional e naturalista para um teatro de inspiração brechtiana, amadurecido também na influência de Peter Weiss.

O recurso a modernas técnicas teatrais, como a utilização de vários espaços cénicos ou o uso dramático da luminotecnia, ou ainda de efeitos visuais e sonoros, e o encadeamento, de modo não linear, no discurso de um narrador, do tratamento do tempo, permite um acréscimo de sugestividade na transmissão da mensagem teatral.

Em comum nestas duas fases pode-se encontrar uma especial atenção a um protagonista comum: o povo. O povo português, quer numa dimensão individual ou numa dimensão histórico-colectiva, ocupa um lugar privilegiado na sua dramaturgia. Este foco tornou-o um alvo da perseguição do regime salazarista e dos serviços da censura, impondo sucessivas interdições de representação das suas peças.

Uma das suas últimas peças, Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade, de 1974, é um drama carregado de notações autobiográficas; foi o primeiro original português a estrear-se depois de restaurada a ordem democrática no país. É um texto que, concebido como despedida do teatro e da vida, assume a forma de relato individual, mas investida de um eco geracional, pela forma como perdera todos os ideais, o entusiasmo e a esperança, entre a juventude e a vida adulta, atravessando as vias de martírio individual e colectivo do século XX português e europeu, desde a Guerra Civil espanhola à guerra colonial portuguesa, passando pelas grandes guerras mundiais.

Em 1979, depois de uma curta incursão no teatro de revista, publica quatro peças em um acto sob o título genérico Os Marginais e a Revolução, significativas da sua intensa actividade pós-revolução de Abril, para uma reestruturação do teatro nacional,

Antes de se afirmar como autor de teatro, publicou três livros de poesia (1954 – Morte na Raiz, 1955 – Romances do Mar, 1957 – Os Olhos da Víbora), onde se prenunciam alguns temas e motivos dominantes da sua obra dramática.

Em 1959, edita um volume de narrativas, Nos Mares do Fim do Mundo, fruto da sua experiência como médico da frota bacalhoeira, experiência que também transpôs, dramaticamente em O Lugre.

Foi distinguido por duas vezes com o Prémios Bordalo, na categoria Teatro, em 1962 e em 1963.

Bernardo Santareno faleceu em Carnaxide, Oeiras, em 1980, com 59 anos de idade, e está sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Em 1981, foi feito postumamente Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

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