Ao fim de sete anos e três meses de formação, Maria Margarida Lopes tornou-se a nona mulher piloto-aviador da história da Força Aérea e a quinta mulher actualmente no activo. A jovem de 25 anos, natural do Entroncamento, queria fazer um caminho diferente na sua formação e aos 18 anos de idade entrou na Academia da Força Aérea. Tornou-se Alferes, adquiriu a licenciatura e o mestrado em Aeronáutica Militar e coleccionou cerca de 70 horas de voo na aeronave Chipmunk MK20 e cerca de 150 horas de voo na aeronave Epsilon TB30, tendo recebido o seu brevet de Piloto-Aviador da Força Aérea Portuguesa a 22 de Dezembro de 2021.
Tendo concretizado o sonho de ser piloto-aviador, Maria Lopes diz que não se sentiu inferiorizada num mundo tradicionalmente masculino e assinala que tem “observado uma evolução positiva deste paradigma ao longo dos anos”.

Quando é que decide ingressar na Força Aérea e o que é que a atraiu para esta área?
O que procurava na altura era um caminho diferente e desafiante, sabia que queria prosseguir com os meus estudos, mas as profissões habituais nada me diziam. Além disso, comecei a despertar um especial interesse pela aviação militar quando tive conhecimento da patrulha acrobática dos “Asas de Portugal” da Força Aérea Portuguesa. E após alguma pesquisa, percebi que este era o caminho que tinha os ingredientes que procurava, não queria apenas ser piloto, queria ser piloto militar. Uma profissão versátil, na área das matemáticas e das físicas, com a vertente militar associada, de actividade física, regras e valores, e com um toque extra de adrenalina: o voo.

Como é que a sua família viu o seu ingresso nesta carreira?
Surpresos inicialmente, cientes do desafio que seria e da capacidade de adaptação e sacrifício que iria exigir da minha parte. No entanto, apoiaram-me incondicionalmente desde o início, e sempre acreditaram no meu potencial. Sem eles não estaria onde estou hoje e agradeço-lhes eternamente.

Tornou-se a 9ª mulher piloto-aviador na história da Força Aérea. Como é que foi o seu percurso até chegar a este ponto?
Em 2014, após ter entrado para a Academia da Força Aérea, situada em Sintra, passei por cadete do 1º, 2º, 3º e 4º ano, e estive estes quatro anos sob o regime de internato que é exigido aos alunos da especialidade Piloto-Aviador. Durante estes anos, atendemos a um horário restrito intercalado por formaturas. Este horário engloba aulas associadas ao curso de Aeronáutica Militar na especialidade de Piloto-Aviador, que inclui essencialmente disciplinas de engenharia, mas também possui disciplinas de gestão, economia e inglês. Além disso, também temos disciplinas de aviação e uma tarde de voo por semana no Centro de Actividades Aéreas, onde voamos a aeronave Chipmunk MK20. Por último, associado à componente militar, temos aulas teóricas e práticas de formação militar e aulas de educação física. Extra-curricular ainda possuímos uma série de responsabilidades, que diferem dependendo do ano em que estamos, e variados desportos e actividades. São quatro anos bastante preenchidos e marcados por uma formação muito versátil, findos os quais obtemos a licenciatura. Após esta fase, segue-se o 5º em que somos graduados a Aspirantes e concluímos a dissertação de mestrado. Eu fiz a minha tese na área de Comportamento Organizacional (CO), e estudei a influência da Inteligência Emocional (IE) e da Meta-cognição no desempenho dos Pilotos-Aviadores. Ao longo destes anos, a nossa classificação não engloba apenas a parte teórica, mas também as componentes física e militar. Por último, já como Alferes, seguiu-se o ano mais desafiante que é o tirocínio. No meu ano, a Esquadra 101, que é a esquadra de voo responsável por formar os pilotos da Força Aérea, foi transferida para Beja, pelo que eu e os sete camaradas da minha especialidade fomos para Beja, mais especificamente para a Base Aérea Nº 11, efectuar o tirocínio. Esta é uma fase maioritariamente prática, em que aprendemos os princípios da arte de voar. É composta por cerca de 150 horas de voo na aeronave Epsilon TB30, que se dividem por diversas tipologias de voo, desde acrobacia, ao voo por instrumentos, navegação e formação a dois aviões. Além dos voos, também somos avaliados em simuladores, testes teóricos e emergências. O nosso tirocínio teve a duração de 1 ano e 6 meses, findos os quais nos tornámos, no passado mês de Dezembro, Pilotos-Aviadores da Força Aérea Portuguesa, totalizando assim 7 anos e 3 meses de curso. Este foi o meu percurso até aos dias de hoje.

Foi a única mulher entre oito concorrentes a concluir o curso de piloto-aviador, sendo que os restantes são homens. Sente que há mais dificuldade para uma mulher chegar a este patamar ou é mesmo uma questão de oportunidade?
Diria que ambas as hipóteses estão correctas. Historicamente e socialmente, esta profissão é tida como uma profissão masculina. Este facto faz com que haja mais homens que mulheres e, como tal, o próprio meio torna-se bastante masculino, dificultando naturalmente a existência e a vivência das mulheres. No entanto, tenho observado uma evolução positiva deste paradigma ao longo dos anos. No meu caso, procurei sempre adaptar-me e integrar-me neste meio particular, mas nunca deixando de ser eu e de ser mulher. No que diz respeito à oportunidade, eu traduzo em capacidade. Todo o percurso, desde os testes de entrada para a Academia da Força Aérea, até ao último ano do curso, o tirocínio, aquilo que nos é exigido são resultados, que são completamente independentes do género.

Na sua opinião, que características são essenciais para se chegar a piloto-aviador?
Elevada resiliência e capacidade de adaptação; Elevada capacidade de concentração e foco na tarefa, seja ela qual for; Ambição e perfeccionismo, ou seja, querer sempre mais e melhor; Um bom grau de auto-estima e confiança; Humildade, errar é humano; Versatilidade; Capacidade de trabalho; Capacidade de auto-motivação.

A Força Aérea Portuguesa tem várias valências e vários aparelhos. Pilotar um F-16 é um objectivo ou prefere outro tipo de aparelho?
Findo o nosso curso, nós fornecemos as nossas preferências em termos de aeronaves, no entanto, a decisão sobre qual é a nossa colocação engloba outras variáveis, nomeadamente as vagas existentes nas esquadras de voo naquele ano, assim como, as nossas valências. Consigo ver-me em diversos aparelhos da Força Aérea, pelo que abraçarei de bom grado o que me estiver destinado.

Depois da Força Aérea, tem intenção de ingressar numa carreira na aviação civil?
Não penso nisso de momento, para já tenho muito para dar à Força Aérea. Futuramente, logo verei o que mais me entusiasma e atrai, se permanecer na Força Aérea ou prosseguir com uma carreira na aviação civil. Apenas o futuro o dirá.

Que mensagem deixa às mulheres que pensam um dia conquistar o brevet de piloto-aviador?
Acima de tudo quero deixar a mensagem de que é tão possível para os homens como é para as mulheres, é tudo uma questão de vontade, adaptação, dedicação e trabalho. Não precisamos de ser mais ninguém, sem ser nós próprios, seja mulher ou homem.

Quais os seus hobbies preferidos?
Dança, ginásio, música, escrita e leitura.

Se pudesse alterar um facto da história, qual escolheria?
Apenas em 1988 a Força Aérea Portuguesa aceitou a entrada de mulheres para a especialidade de Piloto-Aviador. Ora, eu alteraria este facto da história para que pudessem ter entrado ab initio (1952 – ano em que nasceu o 3º ramo das Forças Armadas em Portugal, a Força Aérea).

Se um dia tivesse de entrar num filme, que género preferiria?
Acção.

O que mais aprecia nas pessoas?
Lealdade, autenticidade, positivismo e garra.

O que mais detesta nelas?
Falta de identidade e personalidade, hipocrisia, cobardia e conformismo.

Leia também...

“Pretendemos levar este projecto até à televisão para chegar a mais casas portuguesas”

“Caralhotas em Sangue” é um projecto televisivo que nasceu em Almeirim e…

“A Alpiagra é o principal momento de mostra, divulgação e promoção do concelho”

Inicia-se hoje e irá durar até dia 8 de Setembro de 2019…

“Há ainda o hábito enraizado de vir à feira de Rio Maior comprar cebola para todo o ano”

A FRIMOR – Feira Nacional da Cebola, tradição com mais de 250…

Projecto Ecoética da AMI já plantou mais de 20 mil árvores

Ardem anualmente, em Portugal, cerca de 100 mil hectares de floresta. Volvida…