A direcção da Sociedade Recreativa Operária (SRO) de Santarém prestou homenagem ao Padre Chiquito, benemérito dos operários Scalabitanos, no 1º de Maio, junto ao seu busto.

A homenagem consistiu na deposição de uma coroa de flores junto do busto do patrono da SRO, uma tradição que se mantém desde 1917, mesmo durante o Estado Novo, em que era considerado um acto subversivo.

Nascido no seio de uma família modesta em Alfange, em 1790, sendo filho do sapateiro Ventura da Silva e de Rita Joaquina, o Padre Francisco Nunes da Silva foi um sacerdote digno, puro e virtuoso, homem bondoso e cidadão benemérito e grande amigo do operariado.

Estudou no Seminário Patriarcal de Santarém e após a guerra civil exerceu funções na Paróquia de S. Julião, do Pereiro, uma das treze paróquias em que Santarém então estava dividida. Em 1834 o Padre Chiquito substituiu provisoriamente o prior desta freguesia, assumindo a efectividade, após a morte deste, ocorrida em 1844.Alguns anos volvidos, em 1851, a Paróquia de S. Julião foi integrada na de Marvila, que, assim, passou a ser a maior freguesia do velho burgo escalabitano. Porém, as antigas igrejas de S. Julião e de S. Lourenço, situadas no Pereiro, continuaram a merecer a sua assistência religiosa.

No ano de 1854 foi fundado em Santarém o Montepio Artístico de Nossa Senhora da Conceição, associação de socorros mútuos constituída sobretudo por operários e artífices que, nos termos estatutários, assumiam a sua direcção. O Padre Chiquito, homem bom e sensível às dificuldades por que passavam os operários, especialmente quando por força da idade ou da doença já não podiam ganhar o seu sustento, sujeitando-se a muitas privações, aderiu ao ideal mutualista e contemplou o Montepio no seu legado, fazendo constar no seu testamento que o rendimento dos bens de que era possuidor se destinava a “melhorar a sorte dos pobres, contemplando os operários mecânicos de Santarém que, sendo assíduos ao trabalho, tivessem 65 anos e fossem necessitados, dotando o Asilo de Santo António com o remanescente, depois de abonar-se cada um daqueles com 240 réis”.

Deste modo o Padre Francisco Nunes da Silva evidenciou-se como uma pessoa muito à frente do seu tempo, pois, na prática, antecipou a acção social que viria a ser consagrada apenas muitas décadas mais tarde pelo Estado português.

O Padre Chiquito nascera no seio de uma família pobre, porém, logrou constituir uma avultada fortuna resultante das doações que lhe fizeram pessoas abastadas de Santarém, no reconhecimento da sua bondade para com as pessoas mais carenciadas, preferindo-o às instituições religiosas, que, então, viviam tempos de crise e de muita instabilidade, na acertada convicção de que o Padre Chiquito saberia aplicar com justiça e bom critério estes bens no apoio a quem dele carecesse.

A 13 de Janeiro de 1869 faleceu o Padre Chiquito, o que causou a mais profunda consternação em Santarém, pelo carinho e sentimento de gratidão que todos nutriam por tão carismática personalidade e o cortejo fúnebre até ao Cemitério dos Capuchos foi a mais eloquente expressão da profunda admiração que lhe era generalizadamente devotada. A 21 de Outubro de 1874 procedeu-se à trasladação dos seus restos mortais para o mausoléu edificado conforme as disposições testamentárias.

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